Hoje ficámos todos mais pobres com a morte de um dos raros que conseguem ver o que está lá mas mais ninguém vê, entretido o mundo que está a ver o que não está lá mas toda a gente pensa que vê.
E, libertado ele do corpo que o albergou nestes 76 anos, deu-me para filosofar um bocadinho sobre o corpo.
Há muitas coisas sobre as quais todos temos dúvidas de que nos procuramos libertar tentando formar convicções, umas vezes com mais sucesso, algumas delas com batota, outras com menos, e outras com insucessos redondos.
Temos dúvidas sobre se a vida resultou de uma conjugação de factores quase infinitamente improvável mas que, na infinita dimensão e variedade do Universo, acabou mesmo por acontecer, ou se houve alguma mãozinha a fazê-la acontecer apesar da improbabilidade. Temos dúvidas sobre se vivemos melhor com a liberdade que permite a cada um fazer o que entenda desde que não obrigue os outros, admitindo que, mesmo sabendo que não há, resulta como se houvesse uma mão invisível a construir alguma coisa nesta anarquia aparente, ou regulados por alguém que saiba e determine o que cada um deve fazer para viver melhor e vivermos melhor. Temos dúvidas sobre se devemos levar o carro e arriscar demorar ainda mais por perder tempo à procura de um lugar de estacionamento, ou apanhar o metro e arriscar uma molha da estação de metro ao nosso destino. E se, levando-o, devemos meter moedinhas no parquímetro e ficar sem elas ou arriscar a multa da Emel.
Mas há uma coisa sobre a qual não temos dúvidas.
Não temos dúvidas nenhumas sobre a nossa existência como indivíduos, nem sobre a existência e individualidade física do nosso corpo. O nosso corpo nasce, cresce, transforma-se, e acaba sempre por por morrer, mas temos ao longo da vida a consciência que é sempre o mesmo corpo que nos acompanha, ou nos alberga, do berço à cova.
Mas pode não ser, e deviamos ter.
Um amigo e colega de tertúlias imaginárias sobre temas filosóficos disse um dia a alguém, especulo que alguém com uma deficiência na capacidade de auto-avaliação da dimensão do próprio ego, "és pó e em pó te hás-de tornar". É verdade no sentido metafórico de dimensionar de modo realista a importância que cada um de nós tem para o Mundo, que é muito diferente da importância que se atribui a si próprio. E é verdade no sentido químico de retratar fielmente as reacções e transformações que sofre a matéria que constitui os nossos corpos. A biologia não passa de uma habilidade da natureza que pega em matéria inerte quando desarrumada e a mistura de modo a formar agregados organizados que, temporariamente, são seres vivos que se conseguem manter organizados numa guerra permanente contra a entropia que os tenta voltar a desarrumar, que a entropia ganha sempre, acabando por voltar a produzir matéria tão inerte como a inicial. Se há uma mão invisível a fazer isto, ou se é apenas a natureza a obedecer às suas próprias leis que os costrói e os deixa desmoronar, nunca perguntei ao meu amigo.
Mas não é a guerra da biologia contra a entropia tão bem sintetizada na frase dele que me traz aqui hoje, mas a questão da existência e individualidade física do corpo.
O corpo é constituído por células, estas por moléculas, e estas por átomos, para ficarmos por aqui, mas é essencialmente constituído por água, e quem tem 80 quilos como eu tem para aí uns 60 litros de água no corpo. E bebe, se for como eu, pelo menos um litro de água por dia no inverno e dois no verão, e vai libertando água pelas vias conhecidas. O que significa que a cada um ou dois meses o corpo renova os seus 60 litros de água. Isto não é exactamente assim, porque a água que segregamos não é necessariamente a que nos chegou há mais tempo ao corpo, mas chega para ilustrar o princípio. Dos 80 quilos da matéria que constituem o meu corpo hoje, que eu tenho consciência de ser o mesmo que tinha há dois meses, e quando nasci, e terei quando morrer, 60 quilos não estavam cá nessa altura. O corpo é o mesmo, mas a maior parte da matéria que o constitui não é, é outra.
Restam-nos no corpo, como indivíduos, 20 quilos de matéria que parece ser nossa e não se renova como a água. Mas a matéria que, para além da água, constitui as células, também se renova. A qualidade de não ser biólogo nem químico permite-me elaborar saltando muitos detalhes que não domino, e o texto perde em rigor o que ganha em clareza sem lhe deturpar o sentido.
Por um lado, há células no corpo que se renovam, nascendo, crescendo e morrendo e sendo segregadas, substituídas por outras ou não. Como as unhas, o cabelo ou a pele, que sabemos que se renovam por estarem à vista. Se eu fosse biólogo e soubesse dizia-vos quantas e quais são, mas não sou nem vos posso dizer. Mas que as há, há-as. O que significa que, mesmo que outras células se mantenham no corpo do berço à cova, uma parte delas não se mantém ao longo da vida, vai chegando, permanecendo temporariamente e partindo para dar lugar a outras. Alguma da matéria que constitui o meu estômago, se o estômago for dos orgãos que têm células que se renovam, não fazia parte dele há uns tempos e não vai fazer parte dele daqui a uns tempos. Passa por ele.
Por outro as células, quer sejam as que residem no corpo do berço à cova, quer sejam as que apenas residem temporariamente, passam o seu tempo a sofrer reacções químicas em que se vão combinando com moléculas que lhes vão chegando e libertando outras, de modo que a própria matéria que constitui uma célula não a constitui em permanência. Como não sou químico também não estou em posição de vos dizer que proporção da matéria de uma célula permanece ao longo da sua vida e que proporção se renova. Mas alguma da matéria que a constitui apenas passa por ela.
Tudo junto, grande parte da matéria que forma o corpo, e se eu fosse biólogo e químico saberia substituir esta quantificação genérica grande parte por outra mais precisa como tantos por cento, ou eventualmente por toda, que faz parte dele em cada momento, apenas passa por ele e não é sempre a mesma. No limite, toda a matéria, todos os átomos, que faz em determinado momento parte do corpo pode não ter feito parte dele em momentos passados e voltar a não fazer em momentos futuros. O corpo não tem uma existência física individualizada, é apenas o ponto de passagem de uma comunidade de matéria que vai chegando, permanecendo e partindo. Mesmo que entre a fase do pó ao nascimento e a da morte ao pó nos pareça sempre o mesmo.
De modo que na próxima tertúlia com o meu amigo vou-lhe propor uma correcção na frase, substituindo és pó, que sugere uma continuidade vitalícia, por vais sendo pó, que retrata melhor a dinâmica material do corpo.
E quem sente, pelo menos, o conforto de ter um corpo que é seu e só seu antes de tornar ao pó, que se desengane. É apenas dono de um ponto de passagem.
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