Segunda-feira, 2 de Novembro de 2015

Era o que faltava

Já há pelo menos 35 reguilas que estão "a exigir à Volkswagen a troca do seu carro por um novo ou a alteração das condições de garantia por causa do caso de manipulação das emissões poluentes por parte do gigante alemão da indústria automóvel, revelou a Deco, a associação de defesa dos consumidores".

 

A Volkswagen far-lhes-á, claro, um manguito. Porque a aldrabice no software consistiu em fazer com que os automóveis, poluindo mais em utilização normal do que quando em teste, andem um pouco mais e gastem um pouco menos. Ou seja, a ter havido danos, eles foram para o ambiente, não para os proprietários.

 

A seu tempo, os bons cidadãos, respeitadores das leis e crentes na bondade das regulamentações europeias, irão às oficinas da marca e virão de lá com carros piores mas "verdes"; as autoridades imporão multas cujos valores serão suficientemente altos para impressionar o cidadão aflito com as agressões ao ambiente, mas suficientemente baixos para não prejudicar os postos de trabalho, a criação de riqueza, a importância da indústria automóvel, das exportações e do pé-ré-pé-pé; a indústria de produção de normas, testes e pareceres, verá acrescidos os seus poderes e multiplicadas as suas exigências; e daqui a uns tempos já ninguém se lembrará do incidente.

 

Não é provável que vá alguém preso, porque a febre justiceira da opinião pública não manda ainda tanto no poder político, e no sistema penal, como no outro lado do Atlântico; apenas a cabeça de Martin Winterkorn rolou metaforicamente, ainda que 60 milhões de Euros tenham porventura amaciado a dor da decapitação; e um outro aldrabão lhe ocupará o lugar, com igual eficiência.

 

No pasa nada, portanto. Fica por esclarecer por que razão, se as normas europeias são tão indiscutivelmente boas, as que se aplicam nos EUA são a tal ponto diferentes que o parque automóvel local quase não tem diesel, enquanto no europeu é mais de metade; e isto quando, nos dois espaços, as autoridades desveladamente se ocupam do ambiente, num lado porque o CO2, seja lá essa merda o que for, nos vai fazer morrer afogados por efeito da subida do nível das águas, e no outro porque as partículas nos vão dar, além de tosse, uma fatal inclinação para morrermos de variados tipos de cancro.

 

Circulo a gasolina - sempre evitei o diesel porque o barulho me impede de ouvir música. E, sem sucesso, recomendei a alguns membros da família que se abstivessem de apurar se os respectivos automóveis têm ou não a aldrabice teutónica incorporada.

 

Nada, nada, aquilo é gente que cumpre as normas e regulamentos. E depois, um destes dias, não é verdade, as inspecções periódicas, e as operações stop, passarão a exigir o certificado de que a correcção foi feita.

 

A defesa do ambiente faz-se com certificados. E eu, se tivesse um diesel Volkswagen, não deixaria de pedir ao concessionário: passe-me aí o papel, chefe, mas não faça nada. A sua representada pode, mas eu não? Era o que faltava.

publicado por José Meireles Graça às 11:54
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2015

Preconceitos

O meu primeiro cliente alemão, que desencantei há quase trinta anos, fez, com a sua primeira encomenda de um TIR completo, uma coisa estranha: mandou um plano de carga do camião - o que ia por baixo, o que ia por cima e em que lugar exacto.

 

Obedeci: então como agora evito discutir com clientes. Mas como, tratando-se de à volta de 20 grades de madeira envolvendo móveis pesados, de formas e pesos variáveis consoante os modelos, e não havendo jamais duas cargas iguais, de camião para camião; fui chamando a atenção para o desperdício de espaço, que o cliente pagava, por às vezes pequenas diferenças no tamanho interior do camião poderem significar, com uma disposição diferente, um ou dois móveis a mais ou a menos.

 

Ao fim de um ano, o cliente cessou de mandar planos: na dura cabeça de algum burocrata alemão entrou a ideia, decerto surpreendente, de que os operários portugueses não eram inteiramente idiotas.

 

Acabei por conhecer o patrão da firma pessoalmente. E só o visitei uma vez porque o homem não dominava o inglês mas tinha a estranha noção de que, falando muito devagar e aos berros, aquela língua que partilhava com Wagner e Goethe haveria de penetrar na espessa cabeça deste Ibero. A secretária que servia de intérprete (e que, na minha mente retorcida, alertada por pequenos detalhes, logo suspeitei partilhar com o boss algo mais do que o expediente) nem a crescente lentidão do discurso conseguia acompanhar - o que tudo fez com que, despedindo-me com os protestos da minha mais alta consideração, nunca mais lá tivesse posto os pés. Não que isso tivesse prejudicado o negócio ou me obrigasse a contratar os serviços de um intérprete - havia no staff dele (a firma era grande) quem escrevesse excelente inglês.

 

A minha vida e a indústria mudaram muito, e hoje o meu importador não é o mesmo, nem o mesmo é o produto. Mas o cliente actual, e a secretária de confiança, só não são tirados a papel químico dos anteriores porque o outro parecia, e talvez fosse, um cavalheiro; e o actual não parece nem é, além de que insiste em conduzir as visitas no seu sempre recentíssimo Mercedes, experiência cujas vítimas, admitindo que haja outros incautos como eu, considerarão por certo tão memorável quanto aquela vez em que experimentaram uma montanha russa, mas sem arnês.

 

É há muitos anos, para um certo artigo, o meu maior cliente. E como sempre foi absurdamente exigente gozava de dobrado prestígio: é com clientes exigentes que se pode melhorar, assim perorava eu junto dos meus fiéis funcionários sempre que vinha uma reclamação de um painel riscado, ou faltoso, num conjunto.

 

Com o tempo fui engrossando nas prédicas. Até que o meu colega responsável pela parte fabril me disse: “Porra, não é possível! Vou fotografar todas as câmaras, uma por uma, para este camelo”.

 

Assim fez. E menos de um mês depois lá veio a reclamação: na câmara com o número de série xis faltava um painel. Conferida a fotografia, a quantidade de painéis estava certa.

 

Razão por que respondi à reclamação informando Herr xpto que possivelmente o motorista do TIR andava a roubar painéis há muito tempo, circunstância lamentável pela qual não era responsável por o transporte ser de conta e escolha dele e as condições de venda ex-works.

 

As reclamações cessaram. E um exame retrospectivo permitiu concluir que, com rigor germânico, os painéis reclamados, de tamanhos e características diferentes, permitiam ao fim de certo tempo construir câmaras completas.

 

Contei esta história a um amigo holandês que trabalha no mesmo ramo. E ele espantou-se com o meu espanto, dizendo-me: “Ó pá, trabalhei dez anos na Alemanha e isso não me surpreende nada. Na cabeça dele, tu é que não tinhas, antes de tirares as fotografias, as coisas bem organizadas”.

 

Preconceituoso, este holandês. Eu também, aliás, digo-o envergonhadamente.

 

 

Será decerto por isso que nem ele nem eu ficámos excessivamente surpreendidos com esta história da Volkswagen.

publicado por José Meireles Graça às 12:33
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