O raciocínio não está mal, se pusermos os óculos de algum cinismo: o Governo tem que casar o programa da troica com a Constituição, que contém uma parte do programa da Oposição; e como esta é impotente mas o Tribunal Constitucional não, a situação dos pensionistas e dos funcionários públicos tinha de ter uma solução.
Consistiu ela em tirar alguma coisa a todos (aumentar 0,25% no IVA e 0,20% no desconto para a Segurança Social), com a esperança de que isso não seja o bastante para alienar o eleitor hesitante; e atribuir esse bolo, a partir de 2015 e durante cinco anos, a um grupo específico (funcionários, reformados e pensionistas), com a esperança de recuperar uma parte dele, que já se havia bandeado para os braços do PS.
Não me atrevo a tentar prever se o ardil vai funcionar. Mas cabe perguntar, face à exiguidade dos números envolvidos e à neutralidade orçamental (se as contas e as previsões baterem certo, trata-se de utilizar aumentos de receita para aumentar a despesa):
A RTP já foi despachada? O número de municípios já foi reduzido? A Fundação Mário Soares, e todas as outras igualmente inúteis e parasitárias, já encontrou mecenas ou fechou as portas?
Pergunto porque assim a olho estas três reformas chegavam para cobrir a anulação de cortes, sem aumentar impostos.
Aumentar impostos devagarinho, a ver se a gente encolhe os ombros, pode até, com optimismo, funcionar eleitoralmente. Mas, ainda que se ganhem eleições ao PS, isso serve exactamente para quê, se o PS nem sequer precisa de estar no governo para que se lhe siga a política?
De um açoreano na capital a 5 de Maio de 2014 às 23:38
BRILHANTE! Um dos melhores bloggers de Portugal
http://www.maquinadelavax.blogspot.pt/2014/05/o-n-do-nosso-esquecimento.html
[...] Eu corro sérios riscos de ganhar o Lamborghini. Digo riscos porque, se a mudança para um apartamento melhor muda mais seguramente as ideias e filosofia de um homem do que o estudo e assimilação das obras, por exemplo, de Emanuel Kant ou Carlos Marx, segundo o nosso Millor Fernandes, que fará a mudança de carro para um Lamborghini? Decerto, nada menos que, esta sim, um revolução coperniciana na vida do premiado, com todas as consequências advindas de uma nova visão do mundo, – mundividência, ou melhor, Weltanschauung, como a classificariam os ditos Emanuel e Carlos.
E porque eu cá nunca peço factura: quando me lembram o exercício, recuso enfática e veementemente.
Assistem-me duas boas razões, que me apraz compartir convosco, amigos: estou-me ninando para o número de contribuinte (pela cartilha oficial, o número de identificação fiscal! Mais pompa no chamadouro só a Pompadour, convenhamos). Se uma criatura se empenhasse em decorar a colecção de senhas reputadas por imprescindíveis na vida moderna – que, diga-se de passo, tem mais de moderna que de vida – estaria codilhada: antes decorar os rios de Angola. Não se nos depara geringonça que não traga ajoujada a sua senha, do telelé ao multibanco, passando pela área de trabalho, até ao cartão de leitor da Bertrand!
Essa singela palavrinha, «senha», daria pábulo a mais um artigo a locupletar o Nacional e Transmissível do nosso saudoso EPC, pensador a tempo inteiro, e que nesse opúsculo coleccionou uns quantos gostos e desgostos, manias ou tiques pátrios, desde o pastel de nata a Fernando Pessoa. Realmente, já reparastes, amigos, em que raro topais alguém que a use? [...]
De Fernanda a 8 de Maio de 2014 às 09:31
Como açoriana, sinto-me de certo modo agredida sempre que vejo um açoriano se auto-denominar "açoreano"...
http://www.priberam.pt/dlpo/a%C3%A7oreano
De Um açoreano na capital a 29 de Maio de 2014 às 23:47
Aposto que se fosse o Saramago a escrever a palavra lhe chamava "neologismo" com o afã místico de quem viu a vaca sagrada!
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