Segunda-feira, 4 de Junho de 2018

O Coelhinho Čuraku

Esta é uma história de, e onde entra, o meu amigo Fernando Relvas, o autor de novelas gráficas, como ele se auto-classificava, ou autor de banda desenhada, como é normalmente classificado, falecido em Novembro de 2017. A história foi contada publicamente na Biblioteca Fernando Piteira Santos na Amadora no último fim-de-semana pelo jornalista Viriato Teles, que também entra nela, na cerimónia do lançamento em álbum da obra O Espião Acácio, originalmente publicada na revista Tintin entre 1978 e 1980, a que tive o prazer de assistir e onde tive a oportunidade de rever e reviver amizades que não revia há muitas décadas, que eu já não vou para novo.

Mas antes de entrar na história convido os leitores a ler a prancha que anexo, da série O Atraente Estranho publicada no semanário Sete algures em 1987, que me foi gentilmente disponibilizada pela viúva Anica Govedarica, artista plástica que veio viver com ele para Portugal depois de terem vivido alguns anos na sua Croácia natal, e a quem deixo o meu agradecimento, e o de quem, chegando ao final, gostar desta história.

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Já leram a parte pública da prancha? Passemos então aos bastidores e vamos lê-la por trás.

 

Era uma vez, o Teatro Aberto estreou uma peça que retratava uma prostituta.

A redacção do Sete foi incumbida de fazer uma reportagem da estreia e, querendo fugir ao figurino tradicional das reportagens sobre estreias de peças de teatro em que se recolhem depoimentos de autores, encenadores e actores, gente com pedigree cultural, o Sete, que era um jornal cultural muito light mais dedicado à música ligeira do que à clássica e à banda desenhada do que à literatura séria, decidiu convidar para a estreia uma prostituta e no fim da peça entrevistá-la. E assim fez.

Acontece que em 1987 esta iconoclastia devia ser politicamente incorrecta e houve gente da cultura que se insurgiu contra esta desqualificação simbólica da cultura séria que consistia em levá-la a uma prostituta incapaz de a compreender, ou vice-versa. E destacou-se na denúncia da reportagem um colaborador do Jornal de Letras, o sacrosanto Jota Éle que pertencia à mesma editora e tinha redacção no mesmo corredor do Sete, que publicou um comentário demolidor da ousadia dos jovens vizinhos por brincarem com uma arte séria como o Teatro. Mas não um colaborador qualquer, sendo que no Jota Éle qualquer um seria um grande vulto da cultura portuguesa, mas sim um verdadeiro grande vulto da cultura portuguesa, nascido na Checoslováquia e a viver em Portugal há muitas décadas, tantas quantas eu tenho de vida, e eu já não vou para novo.

Tão violenta foi a crítica que os jovens não a quiseram deixar passar sem lhe responder com elevação. E no episódio seguinte de O Atraente Estranho o Relvas introduziu uma nova personagem, o justamente chegado da Checoslováquia Coelhinho Čuraku, nome que significa em Checo, nas suas próprias palavras, e porque quase ninguém percebe Checo, macieira.

Agora convido-vos de novo a lerem a prancha vista dos bastidores e a perceberem quase tudo na história do Coelhinho Čuraku.

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Quase tudo, porque em Checo čuraku não significa macieira. Significa caralho, mas isso é uma coisa que na altura só os checos puderam entender, e agora todos os leitores podem graças ao Fernando Relvas.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:35
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Domingo, 3 de Junho de 2018

Abençoados sejam os pobres de espírito porque deles será o Reino dos Céus

Quando Cristo disse que os pobres de espírito eram abençoados e tinham lugar assegurado no Reino dos Céus estava certamente a pensar também nos artistas que conseguem vigarizar os outros sem perder a inocência.

Um dia, no fim do século XX, uma dessas artistas foi a convidada do programa da manhã da Antena 2, O Despertar dos Músicos, se a memória não me falha na altura em que a companheira de cabine do locutor Vítor Nobre era a, então, pianista Gabriela Canavilhas.

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No meio da conversa perguntaram-lhe pela bolsa. Na altura tinha sido instituída uma bolsa de subsistência de apoio à criação artística, a que ela tinha concorrido e lhe tinha sido atribuída, que era de trezentos contos por mês, o que na altura era dinheiro a sério correspondente, de acordo com os deflatores publicados pela Pordata, a dois mil trezentos e trinta euros actualmente. A pergunta continha alguma malícia, porque nem toda a gente considerava justo atribuir a criadores artísticos já consagrados com obra publicada, como era o caso dela, bolsas de subsistência de um valor correspondente a um salário inatingível pela esmagadora maioria dos trabalhadores. Mas ela não se desarmou e não acusou a malícia nem perdeu a inocência. E respondeu que os trezentos contos a ela lhe davam muito jeito, e para os contribuintes era um valor tão insignificante que nem lhes fazia diferença.

A falta de capacidade de detecção da malícia indicia alguma incapacidade para perceber o mundo e os outros, aquilo a que no tempo de Cristo se poderia designar por pobreza de espírito, mas também pode indiciar uma dose tamanha de inocência que se aproxima da santidade, que mais do que compensa a eventual esperteza de conduzir a inocência de um modo não aleatório mas sempre no sentido de proporcionar incrementos do conforto material ao inocente.

Conseguindo associar a inocência de um Chauncy Gardiner ao espírito empreendedor de um José Sócrates, a criadora artística assegurou nesse dia um lugar no Reino dos Céus. Que bom jeito lhe tem dado ao longo destas últimas décadas, em que a malícia não lhe tem conseguido perturbar o percurso de incremento patrimonial dentro da virtude.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:49
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

Eutanásia

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Ontem o parlamento votou, e rejeitou, os quatro projectos do PS, do BE, do PEV e do PAN para despenalizar a eutanásia.

Eu sou a favor da despenalização da eutanásia. Em circunstâncias muito específicas. Quando alguém, seja o cônjuge, um familiar, um amigo, ou mesmo um enfermeiro ou um médico, ajuda a acelerar sem sofrimento a morte de alguém que quer morrer por se encontrar em estado terminal, irreversível, desesperado e em grande sofrimento, e posso repetir que quer morrer, não está a cometer um acto que eu consiga classificar como um crime, nem sequer censurável, mas simplesmente um acto de amor ou compaixão, valores que estão no núcleo daquilo de que se fala tanto actualmente sem sempre se fazer um esforço por se entender o que se diz, os valores humanistas e cristãos que definem a nossa matriz civilizacional. Está, acessoriamente, a correr o risco de vir a enfrentar consequências penais por cometer um acto que é classificado pela lei como um crime, o que acrescenta ao amor e à compaixão um desprendimento algo temerário dos seus interesses pessoais para acudir a quem lhe solicita essa ajuda.

E por mais exercícios de retórica dos conceitos teóricos de defesa da vida ou da liberdade de dispôr dela que se esgrimam, isto não é, aos meus olhos, um crime, é até um acto louvável. E que me atire a primeira pedra por condescender com este crime quem se tenha levantado indignado e saído da sala durante a projecção do filme Voando sobre um ninho de cucos quando o chefe Bromden eutanasiou Randle McMurphy, e que se abstenha de a atirar quem interpretou essa eutanásia a a fuga subsequente do chefe índio da instituição psiquiátrica onde ambos estavam aprisionados como um símbolo de libertação (do comunismo, porque era a opressão do comunismo que o filme metaforizava).

E se à luz da lei um acto louvável é considerado um crime a lei está mal. E devia ser alterada.

Posto isto, obviamente que se fosse deputado à Assembleia de República ontem teria votado contra os quatro projectos.

Porque se a situação específica em que eu defendo a despenalização da eutanásia é coberta por eles, e se foi amplamente usada pelo spin dos proponentes para procurar ganhar a empatia do público para os seus projectos, o que se faria a partir da sua aprovação seria certamente a montagem de uma indústria, pública ou privada, da morte assistida, seja para servir o suicídio em condições mais discretas e menos chocantes do que quando é praticado pelos próprios com os meios a que conseguem deitar mão, seja mesmo para fazer morrer pessoas sem capacidade para impedirem a sua própria morte, porque não há lei que não contenha, por mais cuidadosa que seja a sua formulação, alçapões que possam ser accionados para contornar as suas boas intenções, além de conceder um novo poder ao Estado, o de decidir administrativamente, arbitrando os casos de eutanásia, quem deve morrer e a quem deve ser permitido tentar sobreviver.

E a quem menoriza o risco da intervenção do Estado nos processos de decisão sobre a vida e a morte de pessoas aconselha-se uma reflexão sobre o caso muito recente do bebé Alfie Evans cujo estado decorrente de uma doença neurológica degenerativa incurável foi considerado irreversível pelos médicos do hospital britânico onde estava internado, que consequentemente tomaram a decisão de desligar as máquinas que o mantinham vivo contra a vontade expressa e levada até às últimas instâncias da justiça dos pais, e a quem, adicionalmente, os tribunais negaram a possibilidade de ser transferido para um hospital no Vaticano onde seria mantido vivo enquanto se procurasse uma cura para a sua situação, deste modo decretando a sua morte imediata, e não vale a pena dizer irreversível, porque a irreversibilidade da morte está na sua natureza. Quando o Estado tem legitimidade para decretar a morte de pessoas há mesmo a possibilidade de a vir a decretar, mesmo contra a vontade delas.

Isto para além de esta iniciativa fazer parte do conjunto de iniciativas legais no domínio da engenharia social promovidas por elites muito minoritárias mas muito activistas e muito acarinhadas pelos media que procuram mudar a sociedade à força, quer queira, quer não, quer tenha noção do que lhe está a ser proposto ou imposto, quer não. De uma maneira geral, aquilo que foi baptizado de causas fracturantes que são a base da sobrevivência política do BE desde que tomou consciência que como associação de velhos trotskistas, comunistas, estalinistas e maoistas nunca chegaria a lado nenhum.

Tudo junto, ainda bem que os projectos foram rejeitados.

 

Mas mais esta iniciativa de definição da agenda política pelo BE, é o BE que lança e dinamiza estas iniciativas e as participações de outros partidos e movimentos decorrem de terem entre eles satélites do BE, como é o caso do PS, ou são meros atestados de vida de existência política, como são os casos do PEV e do PAN, foi também um interessante caso de estudo no sistema político português.

A começar pela posição do PCP. O PCP está arredado do poder em Portugal há mais de quarenta anos mas continua a não ser, como nunca foi, um partido de protesto, mas sim um partido de poder, organizado e pronto a assumir o poder no dia seguinte, fosse em 25 de Abril de 1974, fosse agora, se lhe fosse dada essa oportunidade. E como é um partido de poder é socialmente conservador e não alinha nas modas, nomeadamente na das causas fracturantes. O PCP declarou-se, pois, prontamente e com uma fundamentação muito sólida, contra a despenalização da eutanásia. E defendeu-a solidamente no debate parlamentar através do experiente deputado António Filipe. Votou em bloco contra os quatro projectos.

Mas mesmo o PCP percebeu há trinta anos que o conservadorismo social pode ter custos eleitorais, e enquanto vivemos em democracia do tipo ocidental é por eleições que se chega ao poder, e deixem-me sublinhar que o termo que usei "vivemos" tanto é a primeira pessoa do plural do presente do indicativo como do pretérito perfeito, ou seja, tanto pode significar que ainda vivemos como que já vivemos mas entretanto deixámos de viver porque o acesso ao poder deixou de ser conquistado por vitórias eleitorais, e decidiu abrir um franchise para assegurar uma oferta política mais adequada aos novos tempos, o PEV.

O PEV é uma preciosa jóia de contradições. Nunca concorreu a eleições sem ser em coligação com o PCP, de modo que apesar de manter um grupo parlamentar de dois deputados desde que entrou no parlamento nunca teve um único voto e ninguém pode estimar a sua base eleitoral. Foi criado como um partido ecologista, era esta a causa fracturante dos anos 80 do século XX quando, entre outros assuntos, emergia o debate sobre a energia nuclear, justamente na época em que o descalabro do comunismo soviético também se manifestava em catástrofes ambientais, nomeadamente nucleares. Permitiu ao PCP alargar a cobertura do eleitorado a jovens ecologistas, e com o passar do tempo adeptos das outras causas fracturantes que foram emergindo, e duplicar os seus tempos de intervenção no parlamento por ter passado a ter, não um, mas dois grupos parlamentares aparentemente independentes. Apesar da sua postura quase sempre institucional foi uma chico-espertice a que o PCP recorreu e tem mantido. Uma vigaricezinha legal. Pois o PEV cumpriu o seu objectivo de diversificação de públicos do PCP e apresentou também um projecto de despenalização da eutanásia e votou favoravelmente os quatro projectos.

O CDS foi naturalmente conservador, não frustrou as expectativas de ninguém, e rejeitou em bloco os quatro projectos.

O mais curioso foi que, numa inversão do papel que desempenham tradicionalmente no sistema político português e nos das outras democracias, onde os grandes partidos definem os blocos basilares das decisões políticas e quando nenhum deles detém circunstancialmente maioria suficiente para fazer valer a sua são os pequenos partidos que determinam o resultado assumindo um papel de fiel da balança, na votação dos projectos de despenalização da eutanásia foram o PS e o PSD que, por terem votos divididos, assumiram o papel de fiéis da balança, sendo que, se votassem em bloco de acordo com as suas posições maioritárias tradicionais, o PS a favor e o PSD contra, os projectos seriam rejeitados.

No PS, onde no tempo da liderança Sócrates se percebeu que o crescimento fulgurante do BE de eleição para eleição se devia, não a um incremento da receptividade do eleitorado às propostas trotskistas, comunistas, estalinistas e maoistas, mas a ser o único partido que assumia claramente a defesa de causas fracturantes que os grandes partidos se esquivavam a assumir por considerarem um risco eleitoral que lhes podia fazer perder os votos dos seus eleitores habituais se as considerassem indesejáveis, e se esvaziou esse crescimento passando a assumir a defesa dessas causas e com isso conquistanto os votos dos eleitores que só votavam no BE porque as defendia isolado, as causas fracturantes passaram a fazer parte da imagem marca do partido. E o PS reforçou nas legislaturas mais recentes os seus quadros e os seus parlamentares com militantes e deputados que se distinguem apenas pela defesa destas causas e por mais nenhumas, ou, quando vão à discussão em temas políticos ou económicos, tendem a defender posições que não se distinguem em nada das defendidas pelo BE, desde renegar a dívida a depositar grandes esperanças no bolivarismo venezuelano a ver na Angela Merkel uma reencarnação da maldade do III Reich. Até a investir na telegenia.

Com figuras de proa na luta pelas causas fracturantes, a experiência de sucesso a capturar eleitorados bloquistas sem afugentar o seu eleitorado tradicional, e, porque não reconhecê-lo? o recurso aos marketing científico das sondagens e dos focus groups, o PS apresentou naturalmente a sua proposta, que antes do debate foi defendida publicamente pelo primeiro-ministro e pelos mais altos dirigentes do partido. E geriu com alguma destreza, a destreza por que se tem aliás distinguido o primeiro-ministro na gestão de equilíbrios entre interesses divergentes, as vozes discordantes. Se havia uma série de deputados que não concordavam com a despenalização da eutanásia, apenas dois assumiram o voto contra, tendo a generalidade dos restantes votado favoravelmente o projecto do PS e abstendo-se ou votando contra os outros projectos. Os outros deputados do PS votaram favoravelmente os quatro projectos.

Com o PSD foi diferente. O PSD defende tradicionalmente posições sociais conservadoras e tolera tradicionalmente posições individuais divergentes, concedendo habitualmente aos deputados liberdade de voto quando são votadas causas fracturantes. E assim foi na votação dos projectos da despenalização da eutanásia. Só que, ao contrário do que aconteceu no PS, o presidente do PSD defendeu previamente, e de modo um tanto ou quanto histriónico, a posição oposta à mais comum no partido e respectivo eleitorado, a despenalização da eutanásia, primeiro declarando que é um imperativo do Estado despenalizar a eutanásia, posteriormente lamentando hipotéticas pressões dos detractores da despenalização sobre os seus defensores. Já figuras de referência para os eleitores e militantes do PSD, ou para ser mais assertivo, as duas maiores figuras de referência actuais que são Aníbal Cavaco Silva, que é conservador, e Pedro Passos Coelho, que não é, manifestaram publicamente a sua oposição aos projectos. À destreza que tem distinguido o primeiro-ministro a gerir equilíbrios entre interesses divergentes, o presidente do PSD tem contraposto a mais completa inépcia a fazê-lo. É a vida.

E os deputados do PSD votaram esmagadoramente contra os quatro projectos, tendo apenas dois votado todos favoravelmente, mais dois o do PS, e um cada os do BE, do PEV e do PAN, assim como dois que se abstiveram em todos. Divergiram do chefe para se alinharem com as figuras de referência do eleitorado e dos militantes do partido.

O fiel da balança foi, pois, constituído pelos dissidentes dos dois maiores grupos parlamentares e determinou a rejeição dos quatro projectos.

Resta o BE. O grupo parlamentar do BE comportou-se no parlamento como o adolescente que está cheio de razão, ou pelo menos cheio de si próprio, e quer convencer das virtudes do comunismo, porque acaba com ricos e pobres, os pais, que sabem que o comunismo acaba mas é com os ricos e com os pobres, bombardeou os grupos parlamentares do PSD e do CDS com afirmações de superioridade moral a roçar a injúria da insinuação de desumanidade, chegou a esgrimir argumentos liberais, quiçá neoliberais? ao lamentar os excessos do Estado ao dispor da vida dos cidadãos, zurziu no PCP citando-lhe Saramago (vá lá, pelo menos variou um bocado das tradicionais citações do Sérgio Godinho pelo primeiro-ministro) e atirando-lhe às trombas que estava a votar como o CDS. E no fim fez uma birra ao ameaçar que se a Assembleia da República não aprovou agora a despenalização da eutanásia a há-de aprovar seguramente. A garotice habitual de fedelhos mal-formados e mal-educados.

Balanço? Ganharam a credibilidade dos dois partidos mais conservadores, o CDS e o PCP, ganhou o povo que vota no PSD e não quer ver o partido ir atrás das modas bloquistas, e perderam os líderes dos dois maiores partidos que não têm sido capazes, talvez por receio de aparecerem politicamente incorrectos, de cortar claramente as amarras que os prendem ao projecto populista de reengenharia social do BE.

E ganhámos nós. O que nos dias que correm já não é nada mau.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 17:18
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

Mata-bicho

Já anteriormente tinha visitado o programa Mata-bicho, que passa nos diversos canais radiofónicos da RTP, com a eventual excepção da Antena 2, onde nunca o ouvi passar.

O programa tem a locução do humorista Bruno Nogueira e a autoria do guionista João Quadros, respectivamente o alto e o baixo na figura.

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Na altura consegui fazer uma análise ao conteúdo do programa, porque era essencialmente um programa falado, e cheguei à conclusão que o sentido de humor era sofrível, as piadas muito básicas, a temática fútil, a orientação política evidente, e o estilo um bocado ordinário a pender para a misoginia.

Em resumo, e porque o humor é aparentemente uma disciplina cuja qualidade é determinada pela qualidade percebida por cada espectador e, portanto, dependente de critérios subjectivos, e portanto o que eu acho merdoso pode ser considerado genial por outros espectadores, ficaria encantado se eles passassem o programa como espectáculo de humor numa sala com entradas pagas por quem os quisesse ouvir e vivessem da receita de bilheteira, mas não fico nada encantado por serem contratados pela RTP que vive de taxas pagas por todos, e também por mim, quer queiram, quer não, como é o meu caso, quer gostem do programa, quer não, como é o meu caso.

E que aos humoristas devem ser tolerados, em nome da liberdade criativa, excessos de liberdade de expressão que, noutras circunstâncias, poderiam resultar no espancamento de quem recorre a ela por quem se ressente de ser alvo de quem recorre a ela. Por exemplo, se a referência à antiga deputada Zita Seabra feita no programa que ouvi fosse feita numa mesa de café e o marido dela estivesse na mesa ao lado não seria descabido o marido levantar-se e esmurrar a tromba do autor da piadola, mas num programa de humor a piadola deve ser tolerada e até encorajada.

E que o facto de terem uma orientação política marcada, tanto no programa humorístico em questão, como noutros, como nas opiniões que exprimem noutros meios de comunicação, por exemplo nas redes sociais ou em colunas de opinião em jornais, é, não apenas tolerável, como desejável como mostra de uma consciência cívica assumida sem medos nem vergonha.

E que os comportamentos que parecem indiciar doenças mentais evidenciados pelos autores noutros meios e noutras circunstâncias não devem ser usados como arma de arremesso para tentar insinuar que não lhes deveria ser oferecido palco na estação pública, até porque de génio e de louco todos temos um pouco, o que não significa, mas com algum esforço podemos fingir que significa, que de génios do humor é esperado que sejam também um bocado loucos, de modo que se queremos usufruir do humor deles também temos que lhes tolerar a loucura. E, mesmo que não queiramos, também temos.

Tudo junto, eles são avençados da RTP, que é sustentada com o nosso dinheiro, mas devemos comer a calar.

Ontem calhou de novo conduzir com o auto-rádio ligado à hora a que passou o programa na Antena 1, e ouvi mais uma edição do programa, esta chamada de "A arte do som". Desta edição é impossível descrever o conteúdo sem recorrer a onomatopeias, e eu não sou muito forte em onomatopeias, pelo que, pedindo antecipadamente desculpa aos leitores por abusar do tempo deles, proponho a audição integral da peça.

Conseguiram ouvir? Honestamente? Mesmo até ao fim?

Então estão habilitados a responder à pergunta que trago:

  • O humorista Bruno Nogueira e o guionista João Quadros são avençados da RTP para produzirem programas merdosos como este, ou como recompensa por injuriarem políticos de direita e respectivas famílias nas redes sociais e nos espaços de comentariado que lhes são proporcionados por outros orgãos de comunicação social?

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:38
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Terça-feira, 15 de Maio de 2018

O homem que sabia demais. E continua a saber.

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No tempo em que já tinha uma boa rede de conhecimentos na justiça portuguesa, já tinha sido Ministro da Justiça, mas ainda não era suficientemente cauteloso para evitar ser escutado a organizar crimes, o actual Primeiro-Ministro António Costa foi apanhado pela justiça a organizar uma conspiração para abafar um caso judicial que envolvia o camarada de partido e Deputado Paulo Pedroso, juntamente com o actual Presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues, que na altura se tornou conhecido por uma frase lendária, o então Presidente da República Jorge Sampaio, e o então Procurador-Geral da República, que o anterior deveria sensibilizar no almoço que tinham marcado para esse dia para abafar o caso, impedindo o processo de chegar ao Tribunal de Instrução Criminal que estava fora do alcance da rede de influências dos conspiradores.

A conspiração saiu frustrada porque à hora do almoço o procurador já tinha chegado ao Tribunal de Instrução Criminal e entregue o processo e já não seria possível evitar que o entregasse, mas os conspiradores foram escutados a conspirar e, além de as escutas terem proporcionado reveladores retratos de cidadania dos intervenientes e um inesquecível momento de humor político, também justificaram a prisão preventiva do camarada investigado por comprovada tentativa de perturbação do inquérito, uma das razões previstas na lei para decretar prisão preventiva.

Mais tarde, durante o inquérito, uma das testemunhas ouvidas, um antigo director da Direcção Central de Combate ao Banditismo à época em que a Polícia Judiciária tinha sido tutelada pelo Ministro da Justiça António Costa, um dos homens da tal rede de conhecimentos, revelou que, num almoço com o antigo Ministro uma semana antes de o caso vir a público no dia em que o Deputado foi detido na Assembleia da República, ele lhe tinha revelado que o Deputado estava referenciado no caso Casa-Pia de Lisboa com indícios consistentes, e o seu camarada de partido Ferro Rodrigues também, mas com indícios menos consistentes.

O actual Primeiro-Ministro foi portanto apanhado a conspirar para interferir num processo judicial envolvendo as mais altas figuras do Estado, incluindo a mais alta de todas, o que constitui um crime, e a ter conhecimento antecipado de processos judiciais de que nessa altura não devia ter por estarem em segredo de justiça, o que constitui outro crime, mas por estes crimes não foi incomodado pela justiça, exceptuando os danos de reputação que lhe possam ter sido causados pela revelação mediática das escutas onde foi apanhado.

Danos que, a avaliar pelo seu percurso político e mediático subsequente, Ministro da Administração Interna e número dois do primeiro Governo José Sócrates, Presidente da Câmara de Lisboa quando o então presidente do PSD Luís Marques Mendes forçou a queda da Câmara PSD pela demissão dos Vereadores que lhe acolheram a ordem de demissão, comentador residente no canal de televisão do Pinto Balsemão, e finalmente secretário-geral do PS, para não falar de Primeiro-Ministro apesar da derrota eleitoral, não lhe parecem ter sido fatais.

E alguma coisa deve ter aprendido, porque, desde essas, nunca mais foi apanhado com a boca nas escutas.

Se a rede de conhecimentos na justiça lhe tem dado jeito, para além de almoços ocasionais com antigos colaboradores, não sabemos? O facto de não haver conhecimento público de ter sido mais alguma vez mais apanhado na malandragem pode ter um de três motivos: ou nunca mais andou na malandragem; ou continuou a andar mas aprendeu a comunicar sem recorrer a meios de comunicação interceptáveis ou interceptados pela investigação judicial; ou continuou, e foi interceptado, mas tem a sorte de daí não lhe terem sido criados problemas. A sorte constrói-se, como dizia o seleccionador nacional Luís Felipe Scolari.

Mas uma coisa sabemos. Sabemos que ele tomou conhecimento da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa de transferir para a justiça angolana o processo por corrupção do antigo Vice-Presidente de Angola Manuel Vicente uma semana antes da publicação do acordão. Sabemo-lo porque, todos os aldrabões têm aquele momento de descuido em que falam verdade correndo depois a desmenti-la com uma mentira para não habituar mal o público, ele revelou-o numa entrevista. O gabinete emitiu depois um comunicado a explicar que ele tinha dito na entrevista que sabia da transferência do processo há uma semana porque apenas tinha tido conhecimento no próprio dia mas pensava que a entrevista só seria transmitida na semana seguinte, explicação que deve ter sido suficiente para esclarecer os mais fiéis dos seus fiéis, os que não se importam de passar por tontinhos para mostrar a força da sua Fé no querido líder, e mostra que ele está em grande forma no exercício da aldrabice.

Não foi nada inesperado. Já percebemos que, pelo menos desde que passou pela pasta da Justiça, ele conhece algumas decisões judiciais antes de serem tornadas públicas. Tem artes de adivinhação. Ou então tem uma rede de magistrados que não se importam de o ir mantendo informado, directamente ou partilhando a informação com outros magistrados ou conhecidos que lha fazem chegar.

Isto é grave?

O Primeiro-Ministro não deve saber o resultado de uma decisão ou providência judicial um minuto que seja antes de ela ter sido tornado pública e, portanto, disponível para todos os cidadãos que estão interessados em tomar conhecimento dela. Mas tomar conhecimento de um acordão sem usar a informação recebida para qualquer iniciativa ou decisão, nomeadamente sem dar conhecimento público dela, não parece excessivamente grave. É como se o juiz tivesse confidenciado à mulher, ao jantar, neste caso vou mandar fazer buscas na casa do fulano, não achas que faço bem? e o segredo tivesse ficado ali entre eles.

Mas se fulano fosse das relações da mulher e a mulher aproveitasse a inconfidência para o avisar que ia haver buscas na casa dele já seria grave. A informação sobre o que a justiça anda a fazer permite aos malandros andar sempre um passo à frente dela e fazer as malandrices com impunidade.

E o Primeiro-Ministro é gente para usar a informação que lhe chega para ajudar amigos a fugir à justiça?

É. Já o fez.

Por isso, eu posso ficar indignado por ele nunca ter sido apanhado na malandragem mesmo quando eu desconfio que anda. Mas, surpreendido, não fico.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:16
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Sexta-feira, 4 de Maio de 2018

As trinta e sete razões para termos regressado ao pântano socialista

2018-05-03 Feios porcos e maus, veneno de ratos.jp

O Mário Soares tinha todos os defeitos do mundo, e algumas qualidades. E tinha ainda características que podiam ser classificadas em ambas as categorias. Uma delas era a lealdade aos amigos. Era capaz de visitar ostensivamente um amigo condenado por um crime infame como a corrupção, ou mesmo preso, para lhe manifestar a sua amizade e a sua solidariedade, sem olhar a inconveniências nem custos de imagem. E relativamente a eles não se escondia atrás da presunção de inocência, mantinha, sim, uma convicta presunção de culpa sobre quem os acusava. O último de visitou nestas condições foi José Sócrates, quando cumpria a "pena" de prisão preventiva em Évora.

Mas o Mário Soares morreu, e sucedeu-lhe um partido liderado por gente com qualidades diferentes das dele e com uma dimensão, para o bem e para o mal, muito diferente da dele.

[Nesta cena de "Feios, porcos e maus", a família Mazzatella conspira para assassinar Giacinto organizando um almoço de reconciliação, ele tinha levado para casa uma nova namorada, a menina Iside, uma prostituta de peito felliniano e modos delicados de princesa, acalmando-lhe a apreensão sobre a reacção da mulher com a explicação que a mulher era muito compreensiva, bastanto bater-lhe, e explicando à mulher que a levava para viver com ele e dormir com eles, em que lhe serviram um delicioso macarrão confeccionado pela mulher Gaetana, temperado com os ingredientes que ela lhe enumera e a avó complementa com quatro pacotes de veneno para ratos todos no prato dele, comprados ao vendedor de banha da cobra Cesaretto, que ele desconfia que é amante da mulher e mesmo pai de uma das filhas, como revela numa frase lapidar "non è figlia mia, é figlia di puttana". Giacinto foge e sobrevive ao envenenamento aplicando a si próprio uma lavagem ao estômago na borda do rio com uma bomba de bicicleta, após o que incendeia a barraca e trepa a uma árvore para assistir ao incêndio a tocar metaforicamente cítara, na cena de salvamento da avó de que vos falei antes, e depois vende a barraca a uma família de ciganos tão numerosa como a dele, formalizando a venda num documento. Quando os ciganos se apresentam na barraca para tomar posse e mostram o documento, o documento desaparece e o diferendo sobre a propriedade do imóvel derime-se à pancada entre as famílias. Na penúltima cena do filme, e a última da comédia, chega a manhã à barraca, agora ocupada pelas duas famílias. A última cena conhecem todos, é a da Maria Libera a ir à fonte, já engolida pelo sistema, que foi mostrada na publicação anterior].

Depois de dois anos e meio a gerir com o instinto de sobrevivência que já é lendário o equilíbrio instável de ter o antecessor acusado de actos gravíssimos, e cada vez menos disfarçáveis, de corrupção, recorrendo até agora ao tradicional princípio de separação dos poderes, à política o que é da política, à justiça o que é da justiça, e ao inocente até prova em contrário, para escapar a tomar uma posição clara sobre os aspectos éticos em questão, para não falar na sua participação directa nesse governo, o primeiro-ministro, talvez aconselhado por algum focus-group que lhe disse que a partir de agora, com a informação pública já acumulada sobre as façanhas do anterior primeiro-ministro e do seu ministro da Economia, manter a neutralidade começaria a ter custos políticos, decidiu quebrar a neutralidade, e com estrondo.

Aproveitando a saída para uma visita de 4 dias ao Canadá, e saiba-se lá o que pode justificar uma visita de Estado de 4 dias do primeiro-ministro ao Canadá? borrifou-se no inocente até prova em contrário e largou-lhes às canelas os mais ferozes dos seus jagunços, o presidente do partido Carlos César e o trauliteiro João Galamba, que manifestaram, à vez, a sua indignação, primeiro com o antigo ministro Manuel Pinho, e depois, para tornar a coisa mais clara, com o antigo primeiro-ministro José Sócrates, cobrindo com pazadas de terra o caixão onde já estão sepultados. E ele próprio acabou por, no Canadá, simular indignação com eventuais casos de corrupção na era Sócrates, completando com as suas pazadas a terra que faltava para cobrir a cova. Passou de se manter em equilíbrio na corda bamba para evitar uma queda que lhe poderia causar danos políticos, a montar um cordão sanitário à volta dele e do seu inner circle para se imunizar e os imunizar contra os danos do fim cada vez mais expectável deste caso de polícia. Mandou-lhes dar veneno para os ratos para saírem de circulação, politicamente falando.

Convenhamos que nenhum deles é uma referência de ética, nem os assassinados, nem o padrinho e os esbirros, pelo que a condenação destes não é propriamente infamante, podendo até ser vista por alguns como um indício de virtude. Mas a reviravolta de dependentes, a apoiantes convictos, a observadores independentes, a carrascos, é certamente uma prova inequívoca do carácter deles.

Dos assassinados deixemos a justiça tratar, porque já o está a fazer. Da ética dos assassinos, do António Costa já tenho aqui falado, mais resumida ou mais detalhadamente, e muito mais haveria para dizer mas não vale a pena continuar, até por questões de higiene, a reputação que precede o Carlos César dispensa qualquer acréscimo de detalhes, e o João Galamba também já tem um caminho percorrido nas divisões secundárias que comprova talento e lhe assegura futuro na modalidade.

Têmo-los então a simular estupefacção e indignação se, e apenas se, se vierem a confirmar os delitos cometidos no tempo da governação de que eles próprios também fizeram parte como governantes nacionais ou regionais, dirigentes partidários ou membros a soldo de claques organizadas, fazendo parte da simulação o pressuposto que à época não deram por nada, como se fossem ingénuos apesar da evidência de serem espertalhões, tudo isto procurando delimitar os danos do caso aos que foram apanhados nas malhas da justiça, para não os atingirem a eles, que não foram, até agora. Têmo-los a assassinar o Manuel Pinho e o José Sócrates para se safarem sem mácula.

O BE e o PCP, que andam a explorar todas as oportunidades que lhes aparecem de se desmarcarem do governo PS para defenderem junto dos seus eleitores que, em vez de meras muletas que o sustentam, são imprescindíveis para o manter na linha correcta através de críticas e exigências, não vão eles ponderar que se é para sustentar governos socialistas podem antes votar no PS como já fizeram muitos eleitores do PCP nas eleições autárquicas de 2017, também trataram de se desmarcar mediaticamente deste pântano de corrupção que foi o anterior governo socialista. Foram até menos duros que os socialistas, porque tanto o BE como o PCP defenderam um alargamento do âmbito das investigações a outros governos e a outras empresas, diluindo o enfoque nos casos já em investigação até as investigações assumirem proporções impossíveis de gerir e chegar a conclusões.

Percebe-se que dediquem um grande empenho a desmarcarem-se do governo socialista, não só, mas também, por causa do pântano moral que parece alagar o chão que os socialistas pisam e a que eles não querem ficar associados.

Mas a demarcação não passa de uma farsa. Se hoje em dia Portugal é gerido por um bando de socialistas de que a maior parte, a começar pelo primeiro-ministro, já fazia parte do pântano do José Sócrates, é apenas por trinta e sete razões. E as trinta e sete razões são Carlos Matias, Catarina Martins, Ernesto Ferraz, Heitor de Sousa, Isabel Pires, Joana Mortágua, João Vasconcelos, Jorge Campos, Jorge Costa, Jorge Falcato, José Manuel Pureza, José Soeiro, Luís Monteiro, Maria Manuel de Almeida Rola, Mariana Mortágua, Moisés Ferreira, Pedro Filipe Soares, Pedro Soares e Sandra Cunha, do BE, Ana Mesquita, Ana Virgínia Pereira, António Filipe, Bruno Dias, Carla Cruz, Diana Ferreira, Francisco Lopes, Jerónimo de Sousa, João Dias, João Oliveira, Jorge Machado, Miguel Tiago, Paula Santos, Paulo Sá e Rita Rato, do PCP, Heloísa Apolónia e José Luís Ferreira do PEV, e André Silva do PAN. São os trinta e sete deputados que derrubaram no parlamento o governo da coligação que ganhou as eleições para o substituir pelo do partido que as perdeu, pelos governantes que estiveram no pântano José Sócrates e agora estão neste, e agora o sustentam sempre que a sua continuidade vai a votos, mesmo se o criticam nos discursos. É a estes trinta e sete que há-que pedir contas quando se fizerem as contas desta legislatura pantanosa.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:55
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

Ética republicana e socialista

2018-04-20 Maria Libera.jpg

Esta é a imagem, e cada um é livre de usar os critérios que entende e com que se identifique melhor, e podem ser diferentes dos meus, mais violenta da história do cinema.

O filme é, estão a reconhecer, "Feios, Porcos e Maus", de Ettore Scola.

Podia ser um filme violento que retrata sem dó nem piedade a miséria abjecta a que são sujeitos os habitantes de um bairro de lata romano nos anos 70.

Mas não é. Em vez de olhar para eles numa óptica neorealista de vítimas da sociedade que os exclui, contrapõe-lhe a óptica alternativa de os mostrar como os carrascos que os encarceram a si próprios na sua miséria, tais como um Giacinto Mazzatella capaz de vazar um olho para receber o dinheiro do seguro, e não vale a pena puxarem das calculadoras, um milhão de liras eram cem contos, quinhentos euros actuais, e compra uma caçadeira para defender o dinheiro da indemnização da cobiça da numerosa família que coabita com ela na barraca, gente que se desqualifica permanentemente, que se agride mutuamente sem dó nem piedade, a tiro, se preciso for, mas se o agressor e a vítima trocassem de circunstâncias trocariam também de papéis e agredir-se-iam exactamente na mesma medida, que se rouba mutuamente se e sempre que tiver oportunidade, que abusa sexualmente de quem puder, através da chantagem ou da violência quando o piropo não chega a ser eficaz, gente que abandona a avó na barraca a arder até se lembrar da ser necessária a presença dela para lhe levantar a pensão e a salvar in-extremis com a roupa e o cabelo meio ardidos, em resumo, gente tão miserável moralmente que vive no meio daquela miséria material como peixe na água, e a merece, e por isso não nos desperta a mais pequena ponta de empatia pelo sofrimento por que passa.

O equivalente na política de hoje em dia a um primeiro-ministro que enquanto governante no passado tivesse fechado os olhos à corrupção praticada pelo primeiro-ministro que o tinha escolhido para vice, que enquanto presidente de câmara tivesse acumulado o salário de autarca a tempo inteiro com um salário milionário de comentador na televisão, que tivesse declarado este como rendimento de direitos de autor para o poder acumular legalmente com aquele e ainda ter uma redução substancial no IRS, que tivesse habitado um misterioso duplex de luxo na Avenida da Liberdade detido por um misterioso proprietário a quem a câmara tivesse concedido uma misteriosa licença de ampliação do imóvel que incluiu justamente o duplex que ele habitou, que tivesse o dom da trafulhice e o golpe de rins para conseguir chegar a governar apesar de ter perdido as eleições, que se tivesse rodeado de uma equipa onde sobressaísse um presidente de partido lendário por ter dado emprego público a toda uma família mais extensa que os Mazzatella, ou por ter atribuído bolsas de estudo para tirar o brevet a filhos de colegas do governo regional que liderou, ou um presidente da Assembleia da República que uns anos antes tivesse conspirado com ele e o Presidente da República de então para subtrair um camarada de partido à acção da justiça, ou um governo e instituições tuteladas pelo governo todos preenchidos com amigos e familiares de amigos e amigos de familiares, incluindo quase todos os que tinham participado com ele no anterior governo corrupto, que emblematicamente tivesse escolhido para a sua primeira nomeação política como governante o traidor mais notório e notável da liderança do partido que governava antes e passou à oposição com a ascensão dele ao governo, se Roma não paga a traidores o Giacinto paga, que tivesse colocado o seu melhor amigo a representar o Estado numa negociação onde a empresa para que ele trabalhava tinha interesses e esses interesses acabassem por ser efectivamente atendidos, que tivesse sistematicamente mentido em acordos de cavalheiros em que enganou os cavalheiros que cairam no erro de fazer acordos com ele, que tivessem da ética a percepção colectiva que é tudo o que não seja ilegal.

É preciso conceder que ética é um daqueles conceitos que é mais fácil perceber do que definir, e a definição que ao longo da vida me pareceu mais razoável, ético é aquilo que fazemos em privado e não teríamos vergonha que fosse tornado público, tem como limite de aplicação justamente os Giacinto Mazzatella deste mundo que, por não terem vergonha nenhuma, tudo lhes parece ético. Eles e os Carlos César e os António Costa.

O filme é pois um desfilar de misérias, de traições, de sacanices, tem tudo para ser uma tragédia que nos indigne, mas como todas são cometidas sem vergonha nem remorsos e todas são merecidas por todas as vítimas acaba por ser uma comédia que nos desperta gargalhadas da primeira à penúltima cena.

À penúltima, mas não à última, porque há um ser humano tão normal e decente como qualquer um de nós no meio daquela gente doida. A Maria Libera é uma pré-adolescente de 12 anos da família, que vive com a família na barraca, e é a menina que recolhe as crianças do bairro no mais que se pode assemelhar a um jardim de infância, um recinto fechado por uma rede em que ficam durante o dia encarceradas mas ao abrigo de toda a espécie de acidentes ou tragédias que lhes poderiam provavelmente acontecer naquele bairro ameaçador, antes de ir para a cidade trabalhar a dias ou quando há uma zaragata no bairro que as possa ameaçar, e há-as habitualmente, uma menina que não se mete nas confusões nem nas trafulhices nem nas zaragatas dos outros todos, uma menina que é como se não existisse para eles nem ali, mas apenas para nós. Mas ali.

E na última cena, a da fotografia, a Maria Libera está no estado que se vê. Acabou a comédia e ela foi engolida pelo sistema a que parecia estranha e imune e passou de ser uma de nós para ser um deles. E toda a indignação que não sentimos antes pelo sofrimento que era mais do que merecido por eles nos passa a ser impossível de manter ao longe porque desta vez a vítima passou a ser um de nós.

Pelo que a lição que o "Feios, Porcos e Maus" nos ensina, se tivermos a humildade de lhe prestar atenção, é que não é o facto de sermos diferentes deles que nos garante que seremos diferentes deles. No convívio com a corrupção moral, e às vezes não só moral, que vigora actualmente na sociedade portuguesa e naqueles que escolhemos, mesmo não os tendo escolhido, para nos representarem a governar o interesse público, o mero facto de a desaprovar e os desaprovarmos não nos garante imunidade contra ela. Se não corrermos com eles, um dia ver-nos-emos grávidos da miséria moral que eles promovem.

Depois não digam que não vos avisei.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:55
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Terça-feira, 24 de Abril de 2018

"A democracia nunca foi compatível com o capitalismo"

2018-04-24 Boaventura.jpg

O bom do Boaventura, catedrático em Achismo e empresário de inúmeros combatentes da revolução que tem no payroll e vai conseguindo espalhar pelo mundo, do parlamento ao governo portugueses, ao parlamento europeu, deu mais uma entrevista.

A um jornalista tão subserviente como qualquer ditador pode aspirar a ter a entrevistá-lo, daqueles cujas perguntas não fazem mais do que rasgar auto-estradas para o entrevistado ter o caminho livre de trânsito e de interrogações ou contraditório para expôr o brilho e a superioridade moral, inquestionados como se fossem inquestionáveis, do seu pensamento, abriu o coração e a boca para dizer as asneiras do costume baseadas nos lugares comuns do costume, as denúncias do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado. O costume.

De tudo o que ele disse acharam por bem resumir a entrevista no título emblemático "A democracia nunca foi compatível com o capitalismo".

A ser verdade a tese, não haveria nenhuma democracia a funcionar em nenhum país onde o sistema económico em vigor seja o capitalismo.

Há alguma evidência empírica a questioná-la, nomeadamente o facto de nalguns países onde vigora como sistema económico o capitalismo vigorarem sistemas políticos que parecerem exibir algumas das características próprias da democracia, como a liberdade, ou as liberdades básicas próprias das democracias, a escolha e legitimação dos detentores circunstanciais dos orgãos de soberania através de eleições livres e universais, e um Estado de direito salvaguardado pelo princípio da separação dos poderes. Mas ela não foi questionada na entrevista.

Há mesmo alguma evidência empírica a sugerir que a democracia nunca foi compatível com qualquer sistema que não fosse o capitalismo, e certamente que não com o socialismo, como o facto de todos os regimes socialistas se terem rapidamente, sempre que não foi o seu ponto de partida, transformado em estados totalitários que negam aos cidadãos as liberdades mais básicas, com sistemas políticos de partido único, e sujeição de todos os poderes, nomeadamente o judicial, ao partido único. Mas esta evidência também não foi introduzida na discussão pelo entrevistador.

Para ser rigoroso, há-que reconhecer que em países que foram separados ao meio pelo jogo de xadrez geoestratégico entre o capitalismo e o socialismo, a metade socialista foi baptizada de "democrática" e a metade capitalista não. A Coreia socialista ainda se chama República Democrática Popular da Coreia e a capitalista simplesmente República da Coreia. A Alemanha socialista chamou-se República Democrática Alemã, e a capitalista República Federal Alemã. Neste sentido o entrevistado paraaece ter alguma lógca. Mas só doidos, que os há, e ele é um deles, eram ou são capazes de acreditar que esses países onde vigoravam ou vigoram sistemas de partido único sujeitos a censura férrea e vigiados por polícias políticas omnipresentes e omnipotentes eram ou são democracias, de modo que o nome de baptismo não constitui prova de democraticidade, e subsiste alguma, ou para dizer a verdade, toda a, evidência de que a democracia pode ser compatível com o capitalismo mas é incompatível com o socialismo. 

Mas a asneira é livre, pelo menos nas democracias que funcionam em países com sistema económico capitalista, e certamente que na democracia portuguesa, que é uma delas, a defesa dos totalitarismos também, com excepção do facismo, cuja defesa ficou expressamente proibida no Ponto 4. do Artigo 46º da Constituição da República Portuguesa votada em 1976, e a negação dos crimes dos totalitarismos também, incluindo a dos crimes dos socialismos, com excepção do negacionismo do holocausto do nacional-socialismo alemão que é criminalizado em múltiplos países.

Pelo que as asneiras do Boaventura Sousa Santos não são novas, nem ilegais, nem ilegítimas, nem há mesmo nada a dizer sobre elas.

O que é mais interessante e digno de nota na entrevista não são as respostas. São as perguntas. É a subserviência do jornalista que se apaga como representante dos leitores para colocar ao entrevistado as questões, e o confrontar com as contradições, que eles gostavam que ele esclarecesse e se assume como representante do entrevistado que apenas lhe abre o caminho para debitar inquestionado o seu discurso, se presta a fazer entrevistas em estilo Dupont & Dupond que poderiam muito bem ser feitas na República Democrática Popular da Coreia aos seus queridos líderes sem trazer dissabores ao entrevistador.

E as perguntas são tão reveladoras do resultado da entrevista que vale a pena transcrevê-las sem necessidade de transcrever as respostas, que se intuem das perguntas sem grande risco de erro. Pelo que as transcrevo, acrescentando apenas excertos da resposta anterior quando as perguntas os citam implicitamente.

  • Lula foi eleito com o voto das classes médias, em 2002, tendo depois perdido esse apoio. A que se deve o ódio das classes médias ao ex-presidente?
  • Isso apesar dos governos de Lula terem tirado 30 milhões de pessoas da pobreza e terem feito ascender um número comparável de pessoas à classe média?
  • Independentemente de ele não ter feito essas reformas, há uma outra coisa que se pode imputar, a esquerda latino-americana parece funcionar só com lideranças populistas.
  • Daí [quando a direita está no poder domina a política, a sociedade, a economia, quando a esquerda está no governo tem o poder político, mas não tem o económico e social] o populismo?
  • O populismo, apesar disso [Não é por vontade própria], parece-lhe sempre negativo?
  • Defende uma espécie de reafirmação da esquerda?
  • Um dos aspetos mais curiosos e gritantes dessa polaridade que se vive em grande parte do mundo é o papel do racismo como forma de separar as pessoas, seja no Brasil, seja no muro de Trump ou na islamofobia na Europa. Porquê esse recrudescimento?
  • Como é que essa narrativa [O que o capitalismo fez foi reconfigurar esses preconceitos para desvalorizar o trabalho e os recursos] encaixa com o racismo na Europa, onde essas populações não têm recursos de terra nem de água?
  • Durante muitos anos os liberais diziam que havia uma correspondência perfeita entre democracia e capitalismo. Hoje é visível que a democracia encontra-se em regressão um pouco por todo o lado.
  • A democracia foi sempre reduzida pelo capitalismo?
  • Participou no Fórum Social Mundial que no seu apogeu defendia que uma outra globalização é possível. Neste momento para haver democracia não é necessário regressar em parte à soberania do Estado Nação?
  • Como se pode combater este poder gigantesco do capital financeiro senão se travar a globalização existente?
  • Neste contexto é possível manter a democracia?
  • Mas ele [Lula] é [um preso político] ou não é?
  • Às vezes o Podemos diz que esses [os independentistas catalães presos] são presos de consciência.
  • Os governos brasileiro e dos EUA impediram o PS de ir à iniciativa [encontro de solidariedade com a democracia no Brasil e contra a prisão de Lula da Silva organizado pelo Centro de Estudos Sociais e pela Fundação Saramago que teve a presença de Boaventura Sousa Santos, Pilar del Rio, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, o ex-presidente do PT, Tarso Genro, o candidato pelo PSOL, Guilherme Boulos, e a líder do BE, Catarina Martins]? Foi por essa razão que Ana Catarina Mendes e a presidente do PSOE faltaram?

Deixo esta magnífico exemplo de entrevista a um querido líder socialista, mesmo que não seja líder de coisa nenhuma a não ser dos revolucionariozinhos de gabonete a quem dá emprego, que pode ser instrutivo para os que, por recearem, ou terem esperança, que venha aí o socialismo, e gostariam de enveredar pelo jornalismo numa futura democracia socialista, podem encontrar nos ensinamentos do jornalista Nuno Ramos de Almeida um verdadeiro guia para a sobrevivência profissional de jornalistas num regime socialista.

Boas aquisições de competências!

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:02
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Segunda-feira, 16 de Abril de 2018

Os "subsídios" à prospecção do petróleo no Algarve

Os consumidores portugueses pagam uma das energias mais caras da Europa por a energia de origem renovável ser generosamente subsidiada através de tarifas de venda garantidas acima do preço de aquisição de energia em vigor no mercado grossista e, para algumas tecnologias de produção, largamente superiores ao preço de venda aos consumidores, que asseguram o retorno aos investidores que apenas investiram nas centrais de energia renovável graças a essa garantia.

E esses subsídios são pagos pela carteira dos consumidores actuais, através dos sobrecustos da Produção em Regime Especial, uma das parcelas dos Custos de Interesse Económico Geral que são debitados nas facturas de energia, e pela dos consumidores futuros, na parte deste sobrecusto que não é imediatamente debitada aos consumidores mas é transferida para o deficit tarifário. E pelo corpo das pessoas que não têm dinheiro para aquecer as suas casas no Inverno, nomeadamente pelo das que morrem de doenças evitáveis cuja incidência cresce significativamente quando há vagas de frio, as vítimas colaterais silenciosas dos esplendorosos sucessos das energias renováveis em Portugal.

Os CIEG ascendem a cerca de um terço do custo total da energia, e a parcela do sobrecusto da PRE custuma oscilar entre mil e mil e quinhentos milhões de euros por ano.

Um dia, e se o poder político lho permitir, a justiça chegará talvez a alguma conclusão sobre se o caso de sucesso das energias renováveis em Portugal, que é o tema das palestras patrocinadas pela EDP leccionadas pelo ministro que montou este negócio na Universidade de Columbia, foi apenas populista e imoral, por as vantagens e as conquistas da energia renovável serem largamente divulgadas mas os custos escondidos em rúbricas da factura de energia com siglas que os consumidores tendem a não entender, ou mesmo atirados para os consumidores futuros sem lhes perguntar se estarão dispostos a suportá-los, ou se envolveu também a prática de crimes.

Para já limitamo-nos a registar sucessivas e sonantes vitórias, celebradas por todos, a começar pelos ambientalistas que acreditam que com o incremento das energias renováveis o planeta se salvará do inferno do aquecimento global e das alterações climáticas, pelos geo-estrategas que aceditam que com ele a nossa dependência dos produtores de combustíveis fósseis, quase todos pouco recomendáveis, se libertará, e pelos tolos que vibram com o anúncio de recordes, sejam eles da maior feijoada cozinhada numa ponte suspensa ou da maior número de horas a consumir exclusivamente energias renováveis, e pagam silenciosamente por eles.

Este ambiente de celebração universal tem, no entanto, uma interrogação irritante a perturbá-lo: e se nós, em vez de importarmos petróleo, tivessemos possibilidade de exportar petróleo? e se em vez de o dinheiro do petróleo queimado longe da vista noutras paragens do mundo para onde o exporta fazer de nós um paraíso socialista, como Angola ou a Venezuela, fizesse de nós um inferno capitalista como a Noruega, o país mais verde do mundo, aquele que segundo reza a lenda que tem mais Tesla per capita e onde já está instituída a proibição de cortar árvores?

Como em quase todas as perguntas, a resposta certa é depende.

Antes e acima de tudo, depende de haver petróleo explorável em condições economicamente competitivas. Como a generalidade dos mercados de commodities, o petróleo é produzido em diferentes partes do mundo recorrendo a diferentes tecnologias adaptadas às condições de extracção de cada local, umas de custo mais reduzido e outras de custo mais elevado, e a produção ajusta-se à procura desactivando ou reactivando os produtores de custo mais elevado em função de os custos de produção deixarem de ser ou voltarem a ser cobertos pelos preços de venda no mercado. Se um local tem petróleo que se pode extrair com custos menos elevados pode valer a pena investir na extracção, porque o investimento terá um retorno assegurado por uma produção permanente. Se não, nem vale a pena pensar no assunto.

Depois, se o retorno do investimento estiver assegurado, depende dos danos ambientais e paisagísticos resultantes da exploração. A que distância é da costa? as plataformas seriam visíveis ou estariam para lá do alcance visual? a extracção em condições normais polui significativamente? a poluição em condições normais é neutralizável e a que custos? quais são os riscos de ocorrerem acidentes? quais são as consequências de acidentes, se ocorrerem? quais os custos?

Estas duas questões seriam as mais determinantes para se fazer um primeiro juízo do que poderíamos ganhar, tanto em termos económicos, como até ambientais, e é atentar ao exemplo na Noruega para o perceber, e de quanto nos custaria, tanto em custos directos, como em custos ambientais, produzir petróleo.

Mas há outras de enquadramento menos linear.

E a contribuição do petróleo português para o aquecimento global, ou efeito de estufa, ou alterações climáticas? Há quem acredite que está provado que o consumo de combustíveis fósseis contribui para estes fenómenos e que estes fenómenos se estão a verificar e constituem ameaças credíveis, há quem não acredite neles nem nelas, e há quem ache que não tem informação suficiente e suficientemente credível para perceber se eles são reais e se as ameaças que colocam são credíveis.

Para os segundos, as duas primeiras questões permitem responder à pergunta inicial sem mais considerandos: se as receitas esperadas ultrapassam os custos esperados, avança-se.

Para os primeiros, as duas primeiras questões nem sequer se chegam a colocar: qualquer que seja o balanço entre proveitos e custos, a ameaça à sobrevivência do planeta torna qualquer novo invstimento na exploração de petróleo indesejável.

Os terceiros, os indecisos, podem ainda acrescentar dúvidas às que já têm. Se Portugal começasse a produzir petróleo em condições de custos competitivas o consumo global de petróleo, e os danos consequentes que eles não têm informação para dar por garantidos mas também não para excluir, seria significativamente incrementado? Não seria aumentado na dimensão da produção portuguesa, porque o incremento de produção a custos competitivos colocaria fora de mercado os produtores com custos mais elevados, e o aumento do consumo seria limitado ao resultante da redução de preço de mercado que a saída destes produtores poderia determinar no custo marginal de produção, que passaria a ser determinado pelo produtores com os custos mais elevados, mas inferiores aos deles, que ficassem no mercado. Sem conhecer as formas das curvas da oferta e da procura os terceiros indecisos não têm modo de estimar o aumento do consumo que a entrada de um novo produtor provocaria no mercado, mas sabem que seria marginal e não da dimensão do acréscimo de capacidade de produção do novo produtor.

E que influência têm estes três grupos nos processos de tomada de decisão pública sobre este assunto?

2018-04-16 Petróleo Algarve.jpg

Os primeiros têm a superioridade moral do lado deles. Estão a salvar o planeta e a humanidade. A sua missão é tão importante que não têm espaço para duvidar da sustentação científica que a justifica. Claro que há aquecimento global, e claro que, se a tendência monótona crescente verificável nas estatísticas no caso de haver aquecimento global não for tão evidente assim, há pelo menos alterações climáticas, uma hipótese à prova de bala porque o clima se altera permanentemente. Claro que quem não acredita ou sequer duvida do aquecimento global ou das alterações climáticas é tão burro que também deve acreditar no creacionismo ou no geocentrismo do sistema solar. Além de ser egoísta por se estar nas tintas para o destino da humanidade, é mau como as cobras porque está ao lado da Santa Inquisição que não hesitava em torturar e matar para impedir o progresso científico. E é claro que quem está nesta posição de superiordade moral a combater a maldade e o obscurantismo é mais ruidoso do que quem não está, e os argumentos que esgrime no debate são tão convincentes que é arriscado para os poderes públicos atravessarem-se no seu caminho. É melhor ser-se reconhecido por salvar o planeta do que por destruí-lo. Este grupo tem, portanto, alguma capacidadede influenciar os decisores públicos, se não pelo endoutrinamento, pelo menos pelo receio de parecerem politicamente incorrectos.

Os segundos não a têm, pelos mesmos motivos porque os primeiros a têm. Podem ser ruidosos na mesma medida em que os foguetes e os ranchos folclóricos nas festas de Verão o são, mas não conseguem recolher grande reconhecimento como credíveis. Publicamente são associados a gente egoísta, burra e má, e, pior ainda, ligados aos interesses dos negócios. Nenhum político ousa confessar simpatia por eles, com a excepção que confirma a regra do Donald Trump.

Se os políticos se interessam pelo mundo dos negócios, e mesmo pelas variantes mais inconfessáveis do mundo dos negócios, a melhor alternativa que têm é declarar-se publicamente do lado dos primeiros e montarem discretamente negócios com os segundos. Aliás, foi assim que foi montada a indústria das energias renováveis em Portugal.

E eu? Eu sou dos terceiros. Não tenho informação suficiente para acreditar para além de qualquer dúvida que esteja a ocorrer aquecimento global ou da dimensão que possa estar a atingir, que resulte da actividade humana e por isso possa ser controlado intervindo nela, e que tenha as consequências catastróficas que lhe são apontadas. Não tenho a certeza que se Portugal fosse produtor de petróleo o consumo global de petróleo pudesse ter um incremento significativo. Não gostaria de ter plataformas de exploração de petróleo no horizonte visual de uma das regiões mais bonitas e bem preservadas de toda a costa portuguesa, mas não sei a que distância é que há intenção de as colocar se se vier a descobrir petróleo na região e se seriam visíveis ou não. Admito que se fossem instaladas teriam condições de segurança ambiental e de prevenção de acidentes tão rigorosas como as melhores. Não sei se a eventual exploração de petróleo na costa portuguesa seria pouco, ou razoavemente, ou muito rentável.

Se todas estas dúvidas tivessem respostas positivas gostaria que Portugal fosse um produtor de petróleo, tanto pelo incremento da qualidade de vida que poderia proporcionar às gerações actuais e às futuras, como principalmente pela oportunidade de libertar as gerações futuras da dívida que as actuais miseravelmente lhes legaram. Incluindo mais uma, a dívida tarifária.

Mas isto tudo veio a propósito de quê?

2018-04-16 CAN-E Subsidies Award.jpg

A Climate Action Network Europe, uma associação internacional de 120 associações ambientalistas de 25 países, acabou de atribuir a Portugal a medalha de ouro nos European Fossil Fuel Subsidies Awards 2018, que denuncia os apoios financeiros a energias sujas por governos de países europeus, pela atribuição ao consórcio Galp/ENI da licença para fazer uma sondagem de prospecção de petróleo ao largo da costa de Aljezur, galardão que foi prontamente noticiado e comentado pelas associações ambientalistas portuguesas associadas, nomeadamente a Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero, agora representada e presidida pelo eterno ambientalista Francisco Ferreira, recém transferido da Quercus. As associações embientalistas parecem ter uma dinâmica multiplicadora semelhante à que exibiam durante o PREC os partidos maoistas ou, de uma maneira mais geral, os da esquerda revolucionária, mas adiante.

Estes prémios têm uma clara intenção de paródia, na linha que agora tem estado na moda nas esquerdas modernas que em Portugal têm sido condignamente representadas pelas engraçadinhas do Bloco, e sobre a preferência pela comédia como estratégia de comunicação para denunciar atentados ambientais não tenho nada a apontar.

Mas, que eu tivesse dado pelo fenómeno nas minhas leituras em diagonal, o consórcio Galp/ENI não vai receber nenhum subsídio do Estado português para fazer a prospecção para que lhe foi atribuída uma licença, que provavelmente até lhe terá custado bom dinheiro. Vai financiá-la do seu bolso, e vai assumir integralmente o risco de não encontrar nenhuma jazida suficientemente prometedora para valer a pena explorar. E irá, assumo eu, ficar numa posição privilegiada para, se a encontrar, obter a licença para a explorar, pagando ao Estado português a parte justa do valor do petróleo que conseguir aí produzir. Assumirá o risco todo da prospecção, e será remunerada pela margem obtida na comercialização do petróleo, se a prospecção tiver sucesso, ou a fundo perdido, se não tiver. Já o Estado português não assumirá risco nenhum, e ficará com uma fonte de rendimento abundante se a prospecção tiver sucesso, e com a informação que não tem, se não tiver. Vai ganhar sempre, em dinheiro ou em conhecimento, sem gastar nada.

Sem receber nenhum subsídio, porque carga de água haveria o consórcio Galp/ENI de conquistar um prémio pelo subsídio que não recebeu? O site da associação explica. A associação assume como subsídio "any form of government action or public intervention which lowers the cost of fossil fuel energy production or consumption", ou seja, qualquer licença para prospecção de petróleo, seja ela paga por um governo, seja exclusivamente a expensas da empresa licenciada para a fazer, tenha ela sucesso e encontre jazidas de petróleo exploráveis a custos competitivos, tenha insucesso e seja um investimento perdido pela empresa, por ter o potencial de encontrar jazidas de petróleo que pode ser produzido a custos inferiores aos de outros produtores, é considerada um subsídio. Com uma definição destas tudo o que o governo faz pode ser considerado subsídio desde que contribuia para reduzir o custo de algum bem. Menos os subsídios às energias renováveis, estes por não caberem na definição de "fossil fuel energy production".

Chamar subsídio à licença para pesquisar petróleo na costa algarvia é uma burla. Que o populismo ambientalista vai tratar de pôr a render nestes dias sem tratar de esclarecer o público sobre o que é que designa exactamente por "subsídio". E o público vai acreditar que os contribuintes andam mesmo a transferir dinheiro que lhes custa tanto a ganhar para os cofres as grandes empresas petrolíferas. As burlas costumam resultar, e tanto melhor quanto mais burros são os burlados..

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:17
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2018

Uma colecistectomia por via laparoscópica no privado demora menos que mostrar as análises no público

Eu podia-vos contar que tirei a vesícula por ter uma pedra.

Mas, habituado que estou a instruir-me lendo comentadores e cronistas com a cultura e a eloquência de um Pacheco Pereira, e não estou a falar de honestidade intelectual nem de lucidez, que podendo dar a uma crónica que resumidamente chama mongos aos trumpistas um título como "A vitória do Pavlov", lhe chama antes "A vitória do dr. Ivan Petrovich Pavlov", um título que a qualquer pessoa menos culta do que ele obrigaria a uma pesquisa prévia na Wikipedia para descobrir o nome completo do homem, e não sei se ele próprio não terá necessitado de o fazer para nos enriquecer o conhecimento com esta preciosa informação, e a semeia com palavras complicadas como  "factóides", "Ersatz" ou "tribalização", não me resigno a contá-lo nestes termos simples.

Vou-vos antes revelar que fui submetido a uma colecistectomia por via laparoscópica para resolver sem mais problemas uma litítase vesicular sintomática. E vou também procurar dizer uma ou outra asneira para o mimetizar, que também as diz, por exemplo quando, por se sentir suficientemente à vontade, chama, sem previamente ter confirmado no Google, Cambridge Analytics à Cambridge Analitica.

E porque é que vos conto isto, que irá directamente para o meu dossier na Cambridge Analytica, se é que ela se interessa por mim e pelo que eu digo? Por razões pessoais e por razões colectivas.

 

Primeiro vamos às razões colectivas.

Como se devem lembrar, na penúltima consulta a que recorri da minha médica de família do Centro de Saúde do SNS de que sou utente para me passar o atestado médico necessário para revalidar a carta de condução, no dia 29 de Agosto de 2017, ela tinha-me receitado, apesar de eu não me queixar de nada e aquela consulta ter motivações meramente administrativas, uma série de análises e exames para avaliar em profundidade a minha situação clínica. Que eu decidi, por não sentir urgência especial nessa avaliação, realizar em estabelecimentos públicos ou com convenção com o SNS, demorassem o tempo que demorassem. Algumas, as análises e o electrocardiograma, fi-las logo no dia 1 de Setembro. Para a ecografia abdominal contactei vários prestadores convencionados e o mais cedo que consegui fazer a marcação foi para o dia 6 de Dezembro. No decorrer do exame o radiologista revelou-me que tinha uma pedra na vesícula que pode provocar inflamações com alguma gravidade pelo que me aconselhou a ponderar extrair a vesícula por laparoscopia. Logo no dia da realização desse exame dirigi-me ao centro de saúde para marcar a próxima consulta e consegui marcação para o dia 23 de Fevereiro de 2018.

Ou seja, entre a consulta em que a médica de família do SNS me receitou análises e exames e a consulta em que lhe pude mostrar os respectivos resultados mediaram 178 dias, meio ano em números redondos.

Na consulta a médica explicou-me as vantagens de realizar preventivamente a extracção da vesícula para não correr o risco de ter que a fazer de urgência no caso de ocorrer uma inflamação que pode evoluir para grave, explicou que o procedimento cirúrgico da laparoscopia é relativamente pouco traumático, se bem que realizado com anestesia geral, e prontificou-se a passar-me uma guia para marcar uma consulta de cirurgia no hospital de minha área de residência. Eu agradeci-lhe a oferta, mas expliquei-lhe que andava aterrado com a incidência de infecções hospitalares fatais em hospitais públicos, que os tempos de espera típicos para consultas de especialidade em hospitais públicos não eram encorajadores para quem ambicionava fazer uma intervenção que, para ser efectivamente preventiva, devia ser realizada com brevidade, e que tinha possibilidade de a realizar num estabelecimento privado, de modo que declinei.

Ao chegar a casa telefonei primeiro a um amigo médico para me recomendar um cirurgião que desse conta da coisa, e depois para o hospital privado onde esse cirurgião dá consultas e opera, e marquei consulta com ele para o dia 26 de Fevereiro, o dia útil seguinte. E na consulta marcámos uma consulta de anestesiologia para o dia 2 de Abril e a cirurgia para o dia 5 de Abril, que depois foi adiada para o dia seguinte.

Ou seja, entre a primeira tentativa de marcação da consulta de cirurgia e a realização da cirurgia num hospital privado decorreram 42 dias, mês e meio em números redondos.

Eu não vou sequer especular quanto tempo esperaria pela minha cirurgia se optasse, nomeadamente por ser forçado a optar por falta de alternativas, pela sua realização num estabelecimento público, nem os riscos que poderia eventualmente correr de agravamento da situação clínica ao longo dessa espera, ou se a esperança de vida restante aos quase sessenta e um anos seria suficiente para ainda poder ter esperança de chegar a ser operado.

Basta-me constatar que no sistema público o ciclo consulta, análises e exames, consulta, demora meio ano, e no privado o ciclo marcar consulta, ser operado, dura um mês e meio para saber sem a mais ténue sombra de dúvida que em Portugal construímos uma sociedade com classes, onde socialistas, bloquistas e comunistas sem classe nenhuma fazem o que podem, e na circunstância actual são eles que podem, para impedir as pessoas que não têm meios, os pobres, de ter acesso aos cuidados de saúde minimamente dignos acessíveis aos que os têm, incluindo eles próprios, não hesitando em negar-lhes o direito humano mais básico, o direito à vida, para satisfazer o capricho de ter um sistema exclusivamente público que não dê lucro a privados.

 

Depois, as razões pessoais, que podem ter alguma utilidade a quem eventualmente se vier a encontrar numa situação semelhante.

A vesícula não é um orgão vital, é apenas um reservatório para a bílis que é produzida no fígado, e não a ter não perturba por aí além a qualidade de vida, e a extracção da vesícula, que antigamente se fazia pelo método clássico de cortar a barriga, tirar e coser, faz-se hoje por um procedimento cirúrgico muito menos agressivo, a laparoscopia.

Consiste na introdução através de um furinho feito na região do umbigo de uma câmara dotada de iluminação que permite mostrar num écran a imagem do interior do ventre, e de mais três furinhos em três pontos da barriga onde são introduzidos os instrumentos que permitem cortar e extrair a vesícula. A cirurgia é feita com anestesia geral, e os furinhos não são suturados mas tapados com uma espécie de cola que, como qualquer cicatriz, sai com o tempo. A anestesia geral dura cerca de uma hora e meia, e poucas horas depois da cirurgia deve-se experimentar levantar e ensaiar pequenos passeios a pé, acompanhado da coluna de soro fisiológico. Normalmente fica-se internado uma noite, até porque no pós-operatório são administrados medicamentos injectáveis, e tem-se alta no dia seguinte, mas também pode ser feita em ambulatório. Tem-se alta sem recomendações especiais de inactividade ou dieta, a não ser respeitar o desconforto que eventualmente se sentir se se fizer um esforço que não se deve.

Os meus três maiores receios eram, por ordem de importância, que é inversa da ordem pela qual os verbalizava, a dor, a anestesia geral, porque nunca tinha feito nenhuma, e as infecções hospitalares.

Dor, não posso dizer que tenha sentido. Não é mentira dizer que o momento mais doloroso foi o da introdução do cateter na veia do pulso ao chegar ao bloco operatório. Quando acordei da anestesia sentia a barriga vagamente dorida, se bem que com a noção que se espirrasse ou tossisse ou meramente pigarreasse podia ter uma dor violenta. E quando a enfermeira do recobro me veio perguntar por dores na escala de zero a dez respondi-lhe, depois de lhe ter primeiro perguntado se ainda estava sob o efeito de algum analgésico para perceber se devia esperar que piorasse e ela ter esclarecido que já não estava sob o efeito de nada, com um um. E quando a enfermeira do piso apareceu no quarto às sete da manhã a oferecer analgésicos para o caso de estar a sentir dores, disse-lhe que não estava. Algum cuidado para não correr riscos, mas nada de traumático.

A anestesia geral também não me perturbou. Quando estava no bloco perguntei ao anestesista se já estava a ser anestesiado quando comecei a ver o tecto em movimento e ouvi-o responder que sim, e no momento de vigília seguinte o tecto era diferente, pelo que percebi que já tinha terminado a cirurgia e estava no recobro. Como podia mexer o pescoço sem desconforto entreti-me a ver os écrans com os sinais vitais que tinha por trás da cama, prestando especial atenção às medidas de tensão arterial que eram feitas a intervalos de mais ou menos 10 minutos e tinham valores que me pareciam catitas, depois consegui localizar o relógio na parede oposta da enfermaria e expandi o meu âmbito de análise vendo passar o tempo, e ainda consegui ampliá-la mais a analisar também os écrans dos sinais vitais dos outros doentes do recobro cujos écrans conseguia ver da minha cama. Manias de engenheiro. Fiquei com algumas falhas nas memórias da cirurgia. Quando veio falar comigo a tal enfermeira do zero a dez contei-lhe que a primeira recordação que tinha depois da anestesia era de alguém a perguntar "vamos-lhe dar antibiótico?" e de alguém a responder que não, e ela contou-me que tinha assistido à cirurgia e essa conversa tinha sido no início e não no fim. Também lhe perguntei se estava na cama ou na maca, porque tinha reparado nas protecções laterais, e ela confrmou que estava na cama e que quando me tinham mudado da maca para a cama estava acordado ede olhos abertos, e tinha colaborado na mudança, facto que não me ficou na memória. Algumas falhas na memória, portanto, mas nada de problemático.

Infecções hospitalares também parece que, por estar vivo, vos posso dizer que não apanhei.

2018-04-11 Hospital da Luz.jpg

De resto, nunca tinha dormido hum hospital, mas tive a sorte de apanhar um vizinho catita e conversador, um fiscal de finanças reformado que mal eu cheguei do bloco operatório pediu à filha para recolher a cortina para nos conhecermos, e depois ficámos em amena cavaqueira até que à uma da manhã uma auxiliar nos veio pedir para falarmos mais baixinho porque a nossa conversa se ouvia no corredor, e nunca tinha comido num hospital, mas o jantar até não foi nada mau, umas tiras de carne de porco envolvidas em couve lombarda à maneira de salsichas em couve lombarda, acompanhadas de arroz, tanto elas, como ele, bastante aceitáveis. Ao pequeno almoço ainda estava em dieta hipolipídica mas fui almoçar em casa e a dieta acabou, aliás com a concordância e mesmo incentivo do médico quando me deu alta: "Faça o que se sentir confortável a fazer, defenda-se quando o corpo lhe sinalizar que está a passar o risco".

De modo que deixo aqui uma palavra de conforto a quem se veja na iminência de fazer uma colecistectomia por via laparoscópica. Não há razão para grandes preocupações.

 

PS. Repararam? Eu disse entreti-me, recortando as duas letras ve à palavra entretive-me. O Pacheco Pereira diz obteram, recortando as duas letras iv à palavra obtiveram. Eu acho que ve e iv se podem bem considerar equivalentes, pelo que se me esforçar consigo chegar aos pés dele, pelo menos nas asneiras em Português. Estou motivado e confiante.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:50
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