Segunda-feira, 12 de Agosto de 2019

Quanto vale um boy?

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Um assessor de um gabinete governamental, além de tirar fotografias em pose de empreendedor com os braços cruzados, ganha entre três mil e tal e quatro mil e tal euros por mês.

Se for um puto, ou uma puta, que também as há, que nunca fez na vida a ponta de um corno para além da militância partidária, às vezes nem estudou, é uma fortuna. Se for alguém com uma carreira profissional sólida pode ser uma ninharia. O que os move quando se dedicam à causa pública para além do natural apelo de a servir? 

O porta-voz da ANTRAM, André Matias de Almeida, antes dos 30 anos já coleccionava lugares de nomeação política em empresas e instituições públicas controladas pelo amigo, o falecido secretário de Estado da Indústria João Vasconcelos. Cargos que ajudam a compôr o fim do mês dos titulares mas nada de especial, a não ser atestarem a sua condição de boys.

Contratado para porta-voz pela ANTRAM, a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias, os patrões dos motoristas de transporte de combustível que iniciaram hoje a greve, conseguiu colocar ao serviço da associação todo o governo, as instituiçoes tuteladas pelo governo como a GNR e a Polícia de Intervenção, e mais tarde talvez a direcção-geral dos Serviços Prisionais, toda a máquina socialista dedicada a investigar e expôr os podres de quem se mete com o PS, e ainda o presidente da República que nunca deixa passar uma oportunidade de aparecer como figurante nas encenações do governo actual de António Costa, ora ameaçando os motoristas de consequências a que a impopularidade da greve os poderá sujeitar, ora incitando os automobilistas a abastecerem antecipadamente as suas viaturas e a participarem nas zaragatas nas filas para os postos de abastecimento antes do início da greve.

Quanto vale então um boy para uma confederação patronal? Vale tudo, principalmente num regime em que vale tudo. A ANTRAM não podia ter escolhido melhor.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:44
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Sexta-feira, 19 de Julho de 2019

Uma história de teclados

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Eu vou contar uma história.

Quando acabei o curso comecei a carreira numa multinacional de informática e o primeiro cliente com quem trabalhei depois de um período de formação inicial foi a Polícia de Segurança Pública, que tinha acabado de montar um centro de informática no Comando Geral na Penha de França, e que tinha começado a informatização da sua actividade com a criação de uma base de dados de armas.

Na época os teclados normais não tinham cedilhas nem acentos, constituindo o suporte de hardware e software a teclados com esses caracteres uma opção que se chamava National Language Support que se pagava cara, na época tudo o que tinha a ver com informática era inimaginavelmente caro, e se tinha que instalar em acrescento ao sistema operativo.

Um dia perguntei ao pessoal da informática da PSP [e o pessoal da informática da PSP é outra história à parte que também merece ser contada, por ser quase exclusivamente composto por mulheres, porque tinha sido seleccionado entre os agentes que concorreram ao concurso interno através de testes psicotécnicos, e enquanto a maioria dos agentes tinha a escolaridade obrigatória muitas das agentes tinham o ensino secundário completo e estavam colocadas em locais onde o conhecimento de línguas era valorizado, como os aeroportos, e muitas delas estavam a completar o 12º ano para se candidatarem a cursos superiores, ou a candidatar-se à Academia da PSP para se formarem como oficiais da PSP, ou a frequentar universidades como trabalhadoras-estudantes] o motivo porque tinham optado pelo NLS.

Responderam-me "por causa das armas de caça".

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:55
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Sábado, 13 de Julho de 2019

O Serviço Nacional de Saúde é para ricos

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Fulana (nome fictício), que não tem ADSE nem seguro de saúde nem dinheiro para pagar do seu bolso cuidados de saúde no privado, e que persiste em engravidar contra o bom-senso da matriz cultural europeia de inspiração cristã, atingiu as 40 semanas de gravidez no início da semana e dirigiu-se à Maternidade Alfredo da Costa onde lhe disseram que se não entrasse em trabalho de parto até ao final de domingo regressasse lá para lhe induzirem o parto e a mandaram embora.

No domingo à tarde dirigiu-se à MAC onde tirou uma senha e foi vista por uma enfermeira na triagem às 4 da tarde e depois de esperar a sua vez por um médico às 8 da noite, que lhe disse que se não entrasse em trabalho de parto até terça-feira regressasse lá pare lhe induzirem o parto e a mandou embora.

Na terça à noite regressou à MAC, onde lhe disseram que estavam lotados e não a podiam atender, e lhe entregaram uma carta a dizer que devia ser acolhida com urgência numa unidade de saúde para lhe induzirem o parto e a mandaram embora.

Foi tentar a sorte no Hospital Amadora-Sintra, que queria evitar por ter tido lá a primeira filha e o parto ter sido particularmente penoso, onde lhe disseram que estavam lotados e não a podiam atender, e lhe deram uma carta a dizer que devia ser acolhida com urgência numa unidade de saúde para lhe induzirem o parto e a mandaram embora.

[Estas sucessivas idas e vindas e ordens de ir embora tentar a sorte npoutro lado foram vividas, lembro aos mais distraídos, por uma grávida de 41 semanas]

Fez as contas com a família e depois de inventariarem as poupanças que podiam mobilizar foi para o Hospital CUF Descobertas. Onde foi acolhida na terça à noite, o parto lhe foi induzido na quarta de manhã e decorreu rapidamente e sem qualquer problema, e de onde teve alta com o bebé na sexta-feira.

A recusa do acolhimento nas duas unidades de saúde do SNS, que no entanto custam os olhos da cara aos contribuintes, custou à família cerca de 3.200 euros. Se não os tivessem, teria tido que parir na rua.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:49
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Sexta-feira, 12 de Julho de 2019

Os novos mártires

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A direita não tem, graças aos bons préstimos do comunismo, falta de mártires, exactamente como a esquerda não a tem graças aos bons préstimos do fascismo, ou dos regimes autoritários de direita, para não melindrar os que por falta de rigor técnico ou por defesa da reputação própria não gostam que se designe genericamente de fascismo qualquer regime autoritário de direita, mesmo se o termo, mesmo que possa estar ferido de alguma inexatidão teórica, seja adequado para designar aqueles que designa por ser perfeitamente claro que são eles, e não outros, os nomeados.

Mas hoje em dia há uma direita que não se satisfaz com os mártires do comunismo, que no entanto ainda continua a produzir mártires, nem se revê mais no combate da direita clássica ao comunismo em defesa da democracia liberal com economia de mercado, até prova em contrário a organização de sistema político e de sociedade mais livre e próspera de todas quantas foram experimentadas ao longo da história da humanidade, mas se reclama vítima de outros totalitarismos que encontra exactamente nas democracias liberais com economia de mercado do mundo ocidental em que vive e que se dedica a combater. A direita clássica combatia em defesa deste sistema, esta nova direita combate-o. O mais denunciado de entre eles é o totalitarismo do politicamente correcto.

Infelizmente para quem quer à viva força encontrar mártires, e felizmente para os mártires propriamente ditos, o politicamente correcto não dispõe dos instrumentos clássicos do comunismo e do fascismo para os produzir. Não prende nem tortura nem assassina as suas vítimas, não lhes arranca unhas nem olhos nem lhes parte ossos para lhes arrancar confissões ou declarações de arrependimento ou de conversão, não as obriga sequer a passar horas ou dias de pé em torturas de sono, não as condena a trabalhos forçados em regiões inóspitas onde a probabilidade de sobreviver ao cumprimento da pena é quase nula nem a internamentos em instituições psiquiátricas de onde se sai doido ou morto. A ofensa mais frequente com que o politicamente correcto os martiriza é do domínio do name calling: chama-lhes racistas, xenófobos, homofóbicos, misóginos, ou mesmo fascistas quando os quer injuriar genericamente sem se dar ao trabalho de procurar a injúria mais adequadas a cada circunstância específica.

É verdade que os vigilantes do politicamente correcto se eriçam e exigem punições exemplares para os que, por descuido ou com dolo, dizem coisas que lhes violam a exigência de um discurso bactereologicamente puro de focos de racismo, xenofobia, homofobia, misoginia ou outras fobias que combatem, por vezes formando grupos de linchamento verbal, mas apenas verbal, é verdade que os governos formam Comissões para satisfazer as exigências destes grupos preenchidas por gente que pensa do mesmo modo que eles, é verdade que as campanhas mediáticas de sensibilização para essas desigualdades estimulam as queixas e fazem aumentar o seu volume de ano para ano, mas também é verdade que quando chegam a tribunal a esmagadora maioria das punições aplicadas por essas comissões são neutralizadas. São mais as vozes do que as nozes.

Podemo-nos queixar de eles serem irritantes, podemo-nos queixar de lhes ser dada mais trela do que merecem, podemo-nos queixar da evidência de que se pudessem e dispusessem dos meios de repressão apropriados nos infernizariam a vida, e se viessem a conquistar o poder o fariam, mas dificilmente nos podemos queixar de vivermos martirizados por eles. Até porque não têm esse poder.

E portanto, sentindo necessidade de apresentar mártires e à falta de vítimas de ossos partidos ou olhos arrancados, ou escondidas em valas comuns, ou desaparecidas no oceano depois de terem sido lançadas de helicópteros, esta direita que combate o sistema tem de recorrer à criatividade para criar os mártires do politicamente correcto. E o melhor que tem arranjado é um inglês que se tornou conhecido como Tommy Robinson.

E quem é Tommy Robinson?

É um activista político inglês da classe operária, de 36 anos, de nome verdadeiro Stephen Yaxley-Lennon, que fez parte em tempos da English Defence League, um movimento de protesto da extrema-direita com historial de activismo violento contra o Islamismo militante, que significa mais ou menos um grupo de jovens que dedicam o seu tempo a andar à porrada na rua com grupos de jovens muçulmanos. Tem cadastro com condenações por diversos tipos de crimes, da violência em recintos desportivos, ou hooliganismo puro e duro, à fraude hipotecária, passando por uma tentativa de entrar nos EUA com um passaporte falso para contornar a impossibilidade de obter visto para o seu passaporte com o cadastro criminal que conseguiu acumular. Em suma, não é flor que se cheire, nem ninguém que se ambicionasse para genro. Mas tem, para a extrema-direita populista, e eu chamo-lhe assim sem preocupações de grande rigor taxonómico mas porque identifica bem aqueles de quem estou a falar, a vantagem de personificar a virtude das origens humildes que combatem os pecados das elites, e o curriculum vitæ de denúncia persistente do islamismo reforçada com doses industriais de cacetada em muçulmanos.

E de que é vítima Tommy Robinson?

De limitações da sua liberdade de expressão, uma forma de os seus defensores designarem uma série de desobediências a ordens de tribunais, por exemplo por ter organizado uma manifestação à porta de um tribunal onde eram julgados muçulmanos por crimes de pedofilia que o tribunal proibiu por assumir que poderia ser aproveitada pela defesa para pedir a anulação do julgamento por pressão ilegítima sobre o juri, ou por ter sido apanhado em sessões de um julgamento de gangs violentos a filmá-lo e transmiti-lo online, ordens que eles consideram serem motivadas para calar as suas denúncias dos crimes dos muçulmanos e da protecção que o sistema lhes proporciona.

Ora nas ordens jurídicas das democracias liberais ocidentais, e exceptuando as sentenças dos tribunais cíveis a ordenar o pagamento de dívidas que não são automaticamente assimiladas a ordens do tribunal para as pagar mas apenas a um pretexto necessário para os credores instaurarem novos processos de execução com mais custas judiciais e de patrocínio, e estas são a aberração e não a virtude, a desobediência a ordens de tribunais é tratada com mais dureza do que o conceito que parece relativamente inócuo de desobediência sugere, com penas de prisão. E o Tommy Robinson, com a acumulação de desobediências a ordens de tribunais, acabou por ser mesmo condenado a uma pena de prisão nesta nova vida de activista político. Correndo, defendem os seus defensores, risco de vida por ficar internado em estabelecimentos prisionais onde também estão internados os seus arqui-inimigos, os muçulmanos, como se ele fosse uma flor de estufa frágil e não um calmeirão que passou boa parte da vida a rachar cabeças a golpes de matraca, e até já as veio rachar a Guimarães.

Acresce que ele recebeu convites de activistas da alt-right americana para visitar os EUA que não lhe foi possível satisfazer por estar impedido de entrar nos EUA, por causa de ter sido apanhado a tentar entrar com passaporte falsificado como se devem lembrar. O que junta às limitações à liberdade de expressão e ao encarceramento com risco de vida as limitações à liberdade de circulação.

E ficou instituído o mártir desta direita, censurado, encarcerado em risco de vida, impedido de voar para o mundo livre, como se estivesse num Gulag.

Só que não está.

Ser objecto de name calling pelos vigilantes do politicamente correcto, mesmo sabendo que eles, se pudessem, lhe limpavam o sebo, não faz de ninguém mártir, tal como ser olhado de lado por declarar homofobia não faz de ninguém vítima de heterofobia, tal como ser condenado em tribunal por crimes cometidos não faz do réu mártir, mesmo sabendo-se que as prisões estão cheias de criminosos, alguns deles violentos, mas apenas um criminoso aos olhos do tribunal que o condenou.

E se esta direita a que eu chamo por economia de palavras a extrema-direita populista anda à procura de mártires entre quem não é realmente martirizado como tantos foram ao longo da história por razões religiosas, políticas, raciais ou mesmo sexuais, e alguns ainda são, mostra uma pieguice insuportável. E se os procura entre hooligans anda mesmo aos caídos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:20
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Quarta-feira, 3 de Julho de 2019

Os europeus, uma espécie em vias de extinção

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No dia em que foi escolhida para presidir à Comissão Europeia uma mulher com sete filhos, Ursula Von der Leyden, tenho andado a discutir nas redes sociais aquilo a que alguns gostam de chamar, e eu não, a invasão muçulmana.

Queixam-se os denunciantes da invasão muçulmana que a permeabilidade das fronteiras à imigração ilegal, o acolhimento de refugiados e os brandos costumes dos europeus, que não obrigam como eles pensam que deviam obrigar os imigrantes e refugiados muçulmanos a adaptarem-se à cultura europeia, ou àquilo que chamam a matriz cultural europeia de inspiração cristã, por exemplo impedindo o uso de vestes religiosas muçulmanas como as diversas formas de véu, que está em curso uma cruzada de islamização da Europa baseada na invasão do continente por muçulmanos, imigrantes e refugiados. Que por seu lado justifica um controlo rigoroso dos imigrantes e refugiados que se deixam entrar, numas versões, ou mesmo ao fecho hermético das fronteiras, noutras.

Tese abundantemente ilustrada nas redes sociais por histórias terríveis e odiosas, desde países em guerra civil travada pelos imigrantes e refugiados muçulmanos contra as populações locais, a surtos de crime, e de crime do mais odioso, como as violações em massa de mulheres brancas ou os casamentos forçados com crianças, a movimentos políticos organizados de imigrantes muçulmanos a exigir a instauração da sharia nos países europeus ocupados por eles. Histórias que raramente chegam aos mainstream media, ou não com a extensão e profundidade que as redes sociais lhes dão, para esconderem do povo as consequências do globalismo e do multi-culturalismo, dizem os que as divulgam nas redes sociais, porque são imaginadas, dizem outros que visitam esses países e não dão por guerras civis nem violações em massa nem casamentos de crianças. Ou através de teses que defendem que os voluntários que dedicam o seu tempo a tentar salvar náufragos no Mediterrâneo estão afinal coordenados com as redes de traficantes de imigrantes ilegais que lhes pagam a peso de ouro para levarem para portos europeus os imigrantes ilegais que eles embarcam em praias do norte de África.

Estas teses inspiram nas redes sociais inúmeros activistas anti-imigração, de que se podem destacar como exemplos conhecidos em Portugal a actriz Maria Vieira e a, não lhe conheço uma actividade certa mas posso-lhe chamar assim porque escreve em blogues, blogger Cristina Miranda, de que não estou em posição de identificar o perfil do Facebook por me ter bloqueado e portanto não lhe ter acesso mas que me dedicou estas simpáticas palavras que lhe agradeço publicamente, e partidos como o PNR ou o novo Chega (ou Basta? que me perdi nas mudanças de nome).

Para atalhar razões, defendem que o movimento de imigrantes e refugiados faz parte de uma conspiração muçulmana para invador e islamizar a Europa. E terão fundamento para pensar assim?

Do propósito e da orgânica do movimento migratório tanto podemos acreditar como acreditar que é uma teoria da conspiração. Eles, os imigrantes e refugiados, lá saberão se são soldados de um exército invasor para instaurar o islamismo na Europa, se meros seres humanos a fugir da miséria ou dos horrores de guerras mortíferas para tentarem oferecer às suas famílias um local decente onde consigam levar uma vida decente, como tantos portugueses fizeram em décadas passadas emigrando para a Europa e a América.

Sobre as consequências há quem tenha feito estudos.

Este, do Pew Research Centre, sobre o crescimento da população muçulmana na Europa, além de fazer um retrato da presença de muçulmanos em 2016, elaborou previsões baseadas em diversos cenários de políticas públicas relativamente à imigração, incluindo as mais radicais, a de fronteiras completamente abertas e a de fronteiras completamente fechadas à imigração.

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Sobre a presença de muçulmanos na Europa em 2016 apurou que ascendem a 4,9% da população, sendo o país onde ela é mais importante a França, o que é natural numa antiga potência colonial com colónias no norte da África, com 5,7 milhões de muçulmanos correspondentes a 8,8% da população. Os outros países onde há maior peso percentual de muçulmanos são os países prósperos do centro e norte da Europa que historicamente atraem imigração, nomeadamente a portuguesa, como a Alemanha, o Benelux, o Reino Unido, a Suíça e a Suécia. Com menos peso a Itália, que no entanto assumiu a vanguarda da resistência à entrada de imigrantes com o governo Salvini que criminaliza o salvamento de náufragos no Mediterrâneo a pretexto de os barcos que os salvam estarem envolvidos nas redes de traficantes de imigrantes ilegais. E com um peso próximo de zero e só semelhante ao dos países de leste Portugal, o que sugere que os portugueses que fazem da imigração muçulmana uma obsessão, e há-os como os que enumerei antes, parecem tomar como suas preocupações que têm relevância noutros países mas nenhuma em Portugal, ou seja, parecem engravidar pelos ouvidos nas redes sociais.

Estes números para a proporção de muçulmanos e a sua diferença face à percepção das populações estão em linha com os resultados do inquérito realizado pela Comissão Europeia em 2016 sobre a assimetria entre o número de imigrantes percebido pelas populações dos diversos países da Europa e o real, que explicam melhor do que o número real de imigrantes a orientação das políticas públicas face à imigração.

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Mas a aferição da adequação e eficácia das políticas públicas faz-se pelos seus efeitos.

E o estudo prevê que no cenário radical de encerramento das fronteiras à entrada de novos imigrantes, que nem na Itália de hoje em dia está a ser praticado, a proporção de imigrantes na Europa crescerá dos 4,9% actuais para 7,4% em 2050, um aumento de 50%, e na Itália mais de 70%, de 4,8% para 8,3%.

Porquê? Por uma razão muito simples, os imigrantes continuam a ter filhos a taxas normais, enquanto os europeus têm cada vez menos e abaixo da taxa que garante a reposição dos níveis demográficos.

Para garantir a reposição dos níveis demográficos e a estabilidade da população todas as pessoas devem ter em média dois filhos. O número requerido é na realidade um pouco superior para compensar efeitos adversos para a demografia como a mortalidade antes de começar a ter filhos, mas para efeitos de simplificação pode-se admitir que são dois por casal. O que significa que por cada casal com apenas um filho deve haver outro com três. Ou por cada casal sem filhos, ou por cada duas pessoas que não chegam a formar casais, dois casais com três ou um com quatro. E significa também que se uma geração de casais tiver em média apenas um filho em vez de dois a população se reduzirá para metade a longo do ciclo de vida dessa geração, para um quarto ao fim de duas gerações, e para um milésimo ao fim de dez. E este parágrafo é simplesmente Aritmética que não está sujeita a opiniões nem preferências. É assim.

Já no caso extremo de a Europa escancarar as portas à imigração a população muçulmana na Europa poderá atingir os 14%, uma em cada sete pessoas, curiosamente a proporção que será atingida na Itália, com valores mais elevados na Suécia onde se aproximará de um terço e nos países mais ricos do centro da Europa onde se aproximará de um quinto. Cerca do dobro dos valores esperados com fronteiras fechadas, por seu lado 50% superiores aos actuais.

O que significa que mesmo com fronteiras abertas a população muçulmana ainda estará muito longe de ser maioritária em 2050, e com fronteiras fechadas ainda será substancialmente superior à actual. A invasão muçulmana está longe de parecer votada ao sucesso, e o fecho da Europa aos imigrantes não estancará o crescimento da população muçulmana na Europa.

Porquê? Pela razão apontada antes. A ameaça que a Europa enfrenta não é a invasão muçulmana para substituir a prazo a população europeia ou para lhe impor os seus valores, é a extinção da espécie por não se conseguir ou não se querer reproduzir aos níveis mínimos para assegurar a sua subsistência.

E porque é que os europeus têm cada vez menos filhos? Não é fácil encontrar uma explicação. Talvez porque se apaixonaram pela prosperidade material inédita na história de que usufruem actualmente e prefiram gastar o dinheiro em casas e carros bonitos e férias em destinos exóticos a gastá-lo em fraldas e pediatras e colégios se tiverem filhos? E água muito mais cara por metro cúbico, já agora? Talvez se tenham convencido que ter filhos é um serviço prestado à comunidade que não devem prestar gratuitamente, sem apoios, sem subsídios, sem condições? Por uma razão não é certamente, pelas condições materiais que têm à sua disposição, porque os imigrantes ganham em média muito menos, têm em média muito menos estabilidade laboral, e continuam a ter filhos a níveis normais. A razão da queda de natalidade dos europeus parece ser mais cultural do que material.

O problema da Europa não se resolve proibindo a imigração e deixando os imigrantes naufragarem e morrerem no Mediterrâneo, o que aliás está em grave contradição com os valores humanistas da matriz cultural europeia de inspiração cristã de cuja defesa contra a ameaça muçulmana se reclamam os detractores da imigração, não se resolve adoptando políticas de imigração adequadas às necessidades de mão-de-obra das economias, o que soa a planificação da economia que sempre foi um método de não resolver problemas mas de criar outros que se somam aos originais, e não se resolve submetendo os imigrantes à aceitação dos valores culturais europeus ou aceitando-os em função da proximidade entre os seus valores e os europeus. O problema da Europa resolve-se tendo filhos.

Se os europeus não os passaram e ter sistemática e sustentadamente a níveis que asseguram a reposição dos níveis demográficos, os tais mais de dois filhos em média por casal, continuarão a abrir voluntariamente um vazio demográfico que um dia será ocupado por quem lhes sobreviver, não lhes caberá a eles escolher quem os deverá substituir quando um dia se extinguirem, e é até patético pensarem que têm legitimidade e capacidade para o fazer. Se desaparecerem a Europa será de quem ocupar o vazio deixado por eles.

Em que é que os ajuda fecharem a imigração ou controlarem-na a níveis adequados às necessidades da economia e garantirem a integração cultural dos imigrantes? É um cuidado paliativo. Tem a vantagem de controlar a dor a níveis suportáveis ou cómodos e a desvantagem de retirar ao doente o sentido de urgência da cura para garantir a sobrevivência. É um engano, uma perda de tempo e energia que atrasa o ataque ao problema real.

Se a Europa quer sobreviver não tem que resistir à invasão muçulmana, tem simplesmente que ter filhos em vez de continuar a não os ter ao mesmo tempo que os imigrantes os continuam a ter, porque nesta história são eles as pessoas normais guiadas pelo sentido mais básico da biologia, o sentido de preservação da espécie.

Se não os tiver tanto lhe dá que quando se extinguir venham muçulmanos, como coelhos, ou moscas. Foi incacaz de sobreviver e não estará cá para saber quem lhe sucederá. Não mereceu sobreviver.

Neste cenário sombrio, muito mais negro, por conduzir a uma morte certa, do que o de uma invasão muçulmana, é de celebrar a nomeação de uma presidente da Comissão Europeia, um dos lugares com mais influência na definição de políticas públicas na Europa, de uma mulher com sete filhos. Talvez não esteja tudo perdido.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:52
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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

Já não há Minhotas

Eu nasci e vivi toda a vida em Lisboa, não há ninguém mais lisboeta do que eu, mas sou minhoto dos dois costados, do Alto Minho, das vilas banhadas pelo Rio Minho de Melgaço e Monção, passei todas as férias grandes até ao fim da adolescência em Melgaço, e sou do tempo em que os minhotos sovavam militantes e incendiavam sedes dos partidos políticos que desconfiavam, com razão ou sem ela, na medida certa ou com algum exagero, que lhes ameaçavam o património.

E aprendi desde novo as histórias das heroínas do Alto Minho que se distinguiram, invariavelmente, na liderança da resistência das populações das vilas fortificadas aos sitiantes castelhanos. A Inês Negra de Melgaço que, depois de um cerco tão longo que tanto sitiados como sitiantes estavam exaustos, propôs resolver o cerco andando à pancada com uma das mulheres sitiantes, e depois de a sovar eles levantaram o cerco e retiraram, e a maior de todas, a Deuladeu Martins de Monção que, perante a iminência de acabar a farinha, andou pela vila a recolher toda a que havia, cozeu pão e foi para o alto das muralhas atirá-lo aos castelhanos e anunciar que de onde aquele vinha havia muito mais, o que, também exaustos como estavam, os convenceu a levantar o cerco e a ir embora.

Isto eram as Minhotas que cresci a evocar e admirar, e a ter a prudência de não me meter com elas.

Hoje as minhotas elegem governantes e autarcas do Partido Socialista.

Quando um certo governante socialista megalómano e nem sempre demasiado honesto decidiu deixar para a posteridade a sua marca passando um rolo compressor no país que estava e eregindo no seu lugar um país moderno, líder na nova economia, nas competências tecnológicas e nas energias verdes, as minhotas foram-lhe na cantiga e, dos vinte e quatro deputados eleitos pelos distritos do Minho, ofereceram-lhe doze.

Do país moderno fazia parte também, e desde que ele, chegado da província e habilitado e experimentado nas artes do projecto de habitações, tinha conseguido socializar com as elites culturais da capital, uma exigência arquitectónica que o país que estava não estava à altura de satisfazer. E nomeadamente o prédio Coutinho de Viana do Castelo. E tratou de lançar um projecto ambicioso para alindar as cidades portuguesas, talvez por motivos de exigência estética, talvez para estimular a actividade económica no sector da construção e nos sectores associados como os dos projectos de arquitectura e engenharia, o programa Polis. Através da criação de uma rede de empresas como, para alindar a cidade de Viana do Castelo, a VianaPolis (assim tudo pegado).

A VianaPolis decidiu que o maior problema que era necessário resolver para alindar a cidade era o prédio Coutinho.

Eu nunca reparei por aí além no prédio Coutinho, se bem que ele seja visível à distância, e nunca estive próximo nem dentro dele, não tenho uma ideia precisa da qualidade de construção. Esteticamente não me parece extraordinariamente feio nem bonito, não me parece muito diferente dos edifícios de bairros construídos em Lisboa como a Portela. Se eu fosse um traficante de droga disposto a investir em património imobiliário preferiria investir o meu dinheiro em solares, que não faltam na região. Mas se fosse de classe média, ou imigrante com algum dinheiro amealhado depois de anos de trabalho lá fora mas insuficiente para comprar a empresas sediadas em paraísos fiscais apartamentos em prédios reabilitados com classe e sem olhar a custos, não me pareceria aberrante comprar lá um apartamento. Uma coisa assim para remediados.

E os moradores que lá compraram as casas viram-se de repente ameaçados pelo governante-rolo-compressor que lhes queria demolir o prédio e libertar espaço para eregir a sua utopia arquitectónica através da empresa VianaPolis criada para o expropriar e demolir, para além de albergar ou contratar à peça gente para desenhar a nova cidade. A maior parte, provavelmente ponderando que não tinha capacidade para resistir à investida de uma empresa muito mais poderosa do que eles e propriedade do governo e do município acabou por ceder à ameaça e aceitou entregar os seus apartamentos, mas uma minoria resistiu ao longo de décadas às investidas do governo, da Câmara Municipal e dos tribunais que a queriam expulsar e expropriar compulsivamente.

Até que acabou o prazo determinado para serem despejados.

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Não vale a pena repetir a história que tem sido sobejamente relatada, como aqui, por um proprietário de uma fracção no prédio. Os moradores estão barricados nas suas casas e não permitem a entrada aos burocratas que lá estão para tomar posse administrativa delas protegidos por agentes da autoridade e empresas de segurança privadas, e sabem que se sairem as portas das suas casas serão arrombadas, as fechaduras mudadas, e não conseguirão voltar a entrar. Pelo que permanecem dentro de casa há dias. Cá fora a sociedade VianaPolis mandou-lhes cortar a água, a luz e o gás, e não deixa entrar ninguém no prédio, nem para lhes levar alimentos nem para prestar cuidados sanitários e de saúde aos moradores de idade avançada que lá estão barricados. E os familiares só lhes têm conseguido fazer chegar água e alimentos através de sacos içados por cordas das varandas. Como num cerco medieval.

Como num cerco medieval como os de Melgaço e Monção.

Nesta luta desigual e degradante o sitiante é protegido pelo anonimato. Ao contrário dos políticos e dos autarcas que são, estando a comunicação social virada para o fazer, escrutinados até aos fundilhos, os burocratas da empresa VianaPolis que dirige o cerco e a guerra aos moradores são anónimos, não são interpelados nem questionados pelos jornalistas pelas indignidades que ordenam, não são reconhecidos nem apontados na rua, na escola dos filhos ou na missa como os facínoras que querem matar os velhotes do prédio. São anónimos.

Mas os anónimos também têm nome, e se a comunicação social lhes preserva o anonimato e a privacidade não temos motivos para a secundarmos. Olhemos então para o presidente da sociedade VianaPolis e deixemo-lo sair do anonimato.

O presidente executivo da VianaPolis chama-se Tiago Moreno Delgado e é irmão do secretário de Estado das Infraestruturas do ministério liderado pelo marido da chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. É portanto um socialista instalado na teia. Mas a teia das famílias socialistas é tão densa e confusa que dela não se podem extrair grandes conclusões sobre as qualidades técnicas e humanas do gestor. Mas tem uma qualidade que no PS actual é muito valorizada. É um grande mamão nas tetas dos contribuintes. Em 2010 conseguiu impingir por ajuste directo de 75.000 euros a "Prestação de serviços no âmbito da coordenação dos projectos e empreitadas previstas no âmbito das actividades desenvolvidas pelo Programa Polis Litoral Norte" durante o prazo de 365 dias à Parque Expo ao mesmo tempo que era director da Parque Expo. Estando dotado da competência de mamar nos dois lados ao mesmo tempo e fazendo parte das famílias certas pode-se considerar perfeitamente integrado no regime socialista.

E as minhotas?

As minhotas, em vez de lhe invadirem o palácio para o sovarem e expulsarem violentamente da cidade, estão muito caladinhas a assistir ao cerco, a deixar exaurir os velhotes de solidão, escuridão, fome e fraqueza até se renderem e entragarem as suas casas ao sitiante.

As minhotas de hoje não são as Minhotas do meu tempo.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:03
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2019

Os twelve steps do caminho para o socialismo na Saúde

2019-06-14 Marta Temido.jpg

O caminho para o socialismo na Saúde tem doze passos:

1. Começa-se com hospitais com gestão privada que oferecem aos utentes do SNS cuidados melhores e a custo mais baixo para os contribuintes que os de gestão pública.

2. Deixam-se, com reduções de horas trabalhadas que provocam faltas de pessoal e cativações que não permitem comprar consumíveis nem manter os equipamentos a funcionar, os utentes dos hospitas públicos ao abandono.

3. É-se apanhado a aldrabar listas de espera para consultas e cirurgias com consequências mortais para os doentes cujos cuidados foram adiados que morreram à espera de os receber.

4. A culpa é do Passos.

5. Quer-se fazer cumprir o preceito ideológico que diz que todos os estabelecimentos do SNS devem ter gestão pública.

6. Mas os que têm gestão pública funcionam mal, e pior que os que têm gestão privada.

7. Monta-se uma manobra de divisão.

8. Revela-se ao país com justa indignação que os hospitais geridos por PPP internam doentes nos refeitórios e nas casas de banho.

9. Anuncia-se a não renovação dos contratos de gestão dos hospitais com PPP, os malandros que metem os doentes nos refeitórios e casas de banho.

10. Faz-se, para aproveitar a maioria circunstancial de esquerda, uma lei que obrigue as futuras maiorias para todo o sempre, baptizando com o nome de Lei de Bases da Saúde, e com este nome blindando-a contra futuras mudanças de ideias.

11. Para o Marcelo não chatear, que ele ameaça mas depois amansa facilmente, e para alimentar alguma ilusão de variedade na oferta eleitoral da esquerda e, com ela, alargar o mercado a todos os segmentos, os que querem PPP e os que não querem PPP, deixa-se cair a proibição de PPP para todo o sempre, mas previne-se que só em casos excepcionais é que poderá voltar a haver.

12. Em Outubro, se até lá não houver catástrofes naturais, os combóios, o metro e os cacilheiros ainda não tiverem todos parado ou afundado, e a justiça for suficientemente lenta a investigar crimes e teias de corrupção para ainda haver socialistas em liberdade, ganham-se as eleições.

Mission acomplished, e os doentes que se f.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:56
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Sexta-feira, 31 de Maio de 2019

Perdoa-me

O primeiro episódio do programa "Perdoa-me", da SIC.

No próximo episódio o ministro Pedro Nuno Santos vai pedir perdão aos eleitores por tratar da vidinha dele, da da mulher, e da das mulheres dos amigos ao mesmo tempo que se está cagando para as deles, apesar do o secretário de Estado garantir que em Londres ainda é muito pior.

2019-05-31 Pedro Nuno Santos jota esse.jpg

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:07
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Quinta-feira, 30 de Maio de 2019

Feios, porcos e maus - ao menos que se lhes exijam responsabilidades

2018-05-03 Feios porcos e maus, veneno de ratos.jp

A história conta-se em poucas palavras. Aos 22 anos V. filmou-se, ou deixou-se filmar, a ter relações sexuais. Depois casou e empregou-se, seguiu a vida. Aos 27 o filme apareceu nas redes sociais, talvez colocado pelo co-protagonista? e foi descoberto e começou a ser circulado pelos colegas da empresa, que cuidavam de apontar "é aquela ali". Ela assustou-se mas o mundo continuou a andar à roda (eu sou heliocentrista e tenho a convicção por razões da ciência da Mecânica que a Terra anda à roda num movimento de rotação sobre o eixo e não é o resto do universo que todos os dias anda à roda dela), até a cunhada, que também trabalhava na empresa, o ter visto e o ter ido mostrar ao irmão, o marido de V.. E V., com vergonha, suicidou-se.

Vamos não discutir se o facto de ainda haver gente com vergonha em pleno século XXI é uma excentricidade, porque a pior das pessoas com vergonha é melhor do que a melhor das que não a têm.

Que papel tiveram na morte dela o autor da publicação original do filme nas redes sociais e todos os que, por maldade ou galhofa, o fizeram divulgar até ele chegar aonde chegou? O mesmo que tem num pelotão de fuzilamento o soldado a quem calha o cartucho vazio: mataram-na sem a bala ter saído da arma que todos lhe apontaram para a matar.

O que merecem?

[Aqui abro um parêntesis para opinar sobre justiça.

Não há ninguém mais exigente do que eu de rigor na prova para considerar legítimo condenar um criminoso. Lamento muito dizê-lo mas, apesar de estar convicto e sem a mais pequena sombra de dúvida que o ex-primeiro ministro socialista José Sócrates é um criminoso e de desejar a sua punição tanto quanto qualquer outra pessoa que considere a corrupção merecedora de condenação, necessito de informação muito mais sólida do que consegui ver publicada em todas as notícias  publicadas pela comunicação social sobre o processo ao longo dos anos para me convencer que há provas suficientemente sólidas para o condenar. E sem provas prefiro que ele seja solto a que seja condenado para satisfazer o alarido da multidão e limpar uma imagem que a justiça acumulou ao longo de décadas, talvez com alguma justiça, de ser tolerante com os poderosos. E tenho até noção que há crimes quase impossíveis de provar com solidez, nomeadamente os que são cometidos em privado e que só são testemunhados pela vítima e o criminoso, como grande parte dos crimes sexuais e de violência doméstica, e que esta posição de princípio de algum modo pode dificultar ou mesmo impedir a aplicação de justiça nalguns desses crimes, mas é o meu princípio e não é daqueles que estou disponível para substituir se tiverem outros melhores. É pior punir um inocente do que deixar partir um criminoso, e não é apenas por ser injusto para o injustamente punido, é mesmo por, sinalizando que inocentes podem ser punidos em vez deles, a justiça incentivar os criminosos.

Já relativamente à graduação das penas sou mais medievo. O princípio "olho por olho, dente por dente" não é injusto, é justo. Não é justo cortar a mão a um ladrão, mas não é injusto cortá-la a quem cortou a mão a outro. Sou muito céptico relativamente à pena de morte mas não é por não considerar que determinado tipo de criminosos não a merece, mas pelo risco do erro judicial que qualquer cedência no princípio da exigência da prova torna possível. De resto, qualquer pena é irreperável. A de morte por motivos óbvios (eu também não acredito na ressurreição), mas qualquer dia encarcerado numa cela à espera de ser ouvido por um juiz ou qualquer dia de prisão preventiva à espera do julgamento e de uma possível condenação são irrecuperáveis como dias em liberdade, às vítimas ninguém os tira.]

Merecem, portanto, um processo justo em que se apure com todo o rigor se fizeram alguma coisa que tenha contribuido efectivamente para a morte de V., como partilhar o filme nas redes sociais, mostrá-lo aos colegas e amigos, deixá-la perceber que faziam do filme motivo de galhofa, fazê-lo chegar aonde, ao ter chegado, a induziu ao suicídio. Uns por dolo, outros por negligência, todos por cretinice. A gentleman never tells, e estes cretinos não passaram de filhos da puta.

E, se fizeram, merecem ser responsabilizados pela morte dela e, na impossibilidade de fazer justiça recorrendo a uma bomba de neutrões que os levasse todos para lhe fazerem companhia, como mereciam, é da mais elementar justiça serem condenados a penas de prisão, é ainda mais justo se foram internados na ala dos sodomitas, e realmente justo seria internarem-nos lá, filmarem-nos a serem sodomizados e publicarem os filmes nas redes sociais. Olho por olho, dente por dente. Mas levá-los a julgamento por terem partilhado o filme em vez de os deixar sair sem um arranhão depois de a terem matado de vergonha já não será muito mau, e está ao alcance da justiça e do enquadramento legal que lhe determina as competências.

Esta situação [divulgação de um filme privado que os participantes quereriam manter privado] tem alguma coisa em comum com com uma praga que nos últimos anos entrou a pés juntos no debate público, a divulgação de notícias falsas nas redes sociais para incutir opiniões e, em determinados casos, encorajar à acção quem as toma por verdadeiras. Que é o facto de quem o faz, ou quem defende que quem o faz não deva ser penalizado por fazê-lo, não estar a fazer mais do que dispôr da sua liberdade de expressão do modo que bem entende, divulgando mentiras ou o filme pornográfico da colega de trabalho, e a liberdade de expressão dever ser inalienável.

A liberdade de expressão é, se me perguntarem a minha opinião, inalienável.

Posto isto, que a divulgação de informações íntimas pode provocar danos graves às vítimas da devassa ficou mais do que provado no suicídio de V., e não seria sequer preciso um fim tão trágico para haver danos, qualquer pedido de divórcio, crise conjugal, arrufo ou até um não te convido para a minha festa em querendo ela ir à festa dele poderiam ser danos originados pela brincadeira, mesmo que fosse apenas parva e não mal intencionada.

A divulgação de notícias falsas também tem, e a de notícias que insinuam comportamentos tão censuráveis ou perigosos de grupos de cidadãos que pode encorajar outros a reagir contra eles, eventualmente de modo agressivo, pode ter consequências tão trágicas como, ou muito mais trágicas do que, o suicídio de V..

Tem havido atentados terroristas cometidos por gente, normalmente com pouca capacidade de discernimento e alguma predisposição para a violência, e há sempre gente assim em todo o lado, que foi radicalizada nas redes sociais através de notícias falsas que lhes incutiram a convicção que enfrentam ameaças graves, às vezes a convicção que estão no meio de uma guerra de civilizações de que os mais apáticos ou distraídos não se conseguem aperceber mas que eles e quem os informa sabem que está em curso, e que é vital reagir com determinação e urgência a essas ameaças para salvar alguém, eventualmente salvar a civilização.

Não sei o que é que os clérigos das mesquitas onde são radicalizados os novos terroristas islâmicos, os da vaga anterior eram filhos de família oriundos das teocracias do petróleo que viajavam em primeira classe ou de jacto privado, lhes dizem, que histórias lhes contam, como conseguem convencê-los que as pessoas que lhes propõem ou eles se predispõem a matar indiscriminadamente são uma ameaça que merece ser debelada, nem estou muito interessado em saber, mas certamente terão capacidade de os convencer com factos que elas merecem o destino que tiverem. Até porque não frequento mesquitas.

Não sei de que se convenciam uns aos outros os terroristas de extrema-esquerda de há umas décadas atrás, mas também passaria certamente por pintar as vítimas como a tal nível desumanas que era melhor eliminá-las do que não o fazer, mesmo que fossem bebés de colo que um dia poderiam crescer para se tornarem fascistas ou capitalistas. Até porque não frequentava círculos de activismo da extrema-esquerda nessas décadas.

Mas sei de alguns casos recentes de radicalização de terroristas a partir de pessoas normais através de notícias falsas devidamente enquadradas por interpretações sugeridas que os levam à conclusão que só mesmo a passagem à acção directa pode salvar alguém ou o mundo das ameaças que os convencem que são graves e iminentes. Até porque frequento as redes sociais e vejo circular notícias como as que os radicalizam. E até tenho deixado por aqui e por aqui algumas reflexões e preocupações sobre o fenómeno da disseminação de notícias falsas.

Alguns casos de radicalização chegam a ser cómicos, pelo menos para quem se consegue abstrair da tragédia em que podem terminar. Como o do pacato pai de família que a frequência de redes sociais da alt-right convenceu que a cave da pizzeria Comet Ping Pong em Washington era usada para encarcerar crianças por uma rede de pedofilia gerida por Hillary Clinton, o género de "história que os mainstream media escondem pelo que não vale a pena tentar confirmá-la nas notícias", e decidiu libertá-las, viajando 6 horas até Washington e entrando na pizzeria a disparar uma arma automática, para os entendidos uma AR-15, para os leigos uma espécie de G-3, felizmente sem ter atingido ninguém. Depois de se render pacificamente explicou que se tinha rendido por ter verificado que afinal não havia lá crianças presas. Exceptuando a descomunal falta de bom-senso requerida para alguém acreditar que era possível a secretária de Estado do governo americano dirigir uma rede de pedofilia e a facilidade assustadora de se deixar sugestionar ao extremo de criar uma convicção tão sólida sobre a autenticidade da situação imaginária que só a acção directa a poderia resolver, o autor do atentado podia até ser um pai de família decente que agiu na melhor das intenções acreditando estar a salvar crianças de um inferno. Mas transformou-se num terrorista, e podia ter feito inúmeras vítimas. E acabou condenado numa daquelas penas que nos EUA são para fazer doer. Deu cabo da vida dele, e da da família.

E que papel tiveram no atentado cometido por um cidadão que até nem tinha perfil de criminoso o autor da publicação original da notícia falsa nas redes sociais e todos os que a fizeram circular sustentada por argumentos que a faziam parecer sólida e à prova de dúvidas até ela chegar aonde chegou? O mesmo que tem num pelotão de fuzilamento o soldado a quem calha o cartucho vazio: cometeram-no sem as balas terem saído da arma que todos apontaram para o cometer.

E que legitimidade tinham eles para inventar e divulgar uma notícia falsa que fazia acreditar a quem a tomasse por verdadeira que no local do atentado havia vítimas que era necessário libertar? Toda. Todos, exercendo a sua liberdade de expressão, tinham legitimidade para divulgar a notícia falsa, acreditando nela ou não.

E como lidar então com as consequências que podem eventualmente resultar do acolhimento como credível de uma notícia falsa que os autores devem ter a liberdade de divulgar sem colocar em causa a liberdade de expressão? Responsabilizando-os pelas consequências.

Como o tribunal espanhol vai avaliar que papel e que responsabilidade tiveram os colegas de trabalho de V. na sua morte, e que punição criminal eventualmente poderá ser apropriada para os confrontar com essa responsabilidade, quem coloca no exercício da sua liberdade de expressão notícias falsas a circular também deve ser responsabilizável se elas eventualmente tiverem consequências más.

Liberdade e responsabilidade são dois conceitos sem os quais não queremos ser forçados a viver, mas que só têm sentido quando usados em conjunto. Um sem o outro é caminho certo para o disparate.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:29
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Terça-feira, 28 de Maio de 2019

Famílias socialistas

Já tenho ponderado dedicar uma série de artigos à defesa da família com que tempero as minhas concepções muito liberais dos costumes, e poucas vezes tenho visto nestes já 62 anos de vida defender a família com a determinação comovente, quase obsessão, com que o PS que hoje está defende as famílias dos seus.

Mas para evitar meter-me num assunto que depois é tão vasto que dificilmente conseguiria estar à altura de dar conta do recado mesmo que não fizesse mais nada para além de escrevinhar neste blogue, tenho-me refreado. Por outro lado sei que, refreando-me, cometo uma injustiça por omissão.

Vou hoje, a título de excepção, homenagear uma família socialista e, nela, todas as famílias socialistas.

2019-05-28 Fernando Freire de Sousa e Elisa Ferrei

O marido da vice-governadora do Banco de Portugal que diz que o dinheiro do Estado é do PS participou no grande assalto à CGD e é presidente da CCDR Norte.

Deixo aqui a minha singela mas sentida homenagem a esta encantadora família.

 

* Fotografia roubada à revista Caras

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:32
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