Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

Declaração de voto

O PSD e o CDS, que constituem o que em Portugal se chama “a direita” não são hoje, nem poderiam ser, o que eram quando nasceram. O primeiro nasceu para impedir que o revanchismo anti Velha Senhora descambasse numa Cuba europeia; e o segundo para atrair franjas de antigos situacionistas, católicos de vária pinta, embriões de liberais e reaccionários sortidos que convinha arregimentar a benefício do jogo democrático. Mas a Velha Senhora já quase ninguém a viveu e conheceu; e o que hoje se descreve como extrema-direita, entre nós e no exterior, nem remotamente põe em causa o regime democrático, apenas defende soluções públicas que não agradam ao complexo jornalístico-situacionista actual, feito de um socialismo mole regado a impostagens absurdamente altas, engenharias sociais fracturantes, Estados obesos, clientelas imensas e dirigismos bem-pensantes.

 

Para quem não viveu, é difícil imaginar as circunstâncias deste parto e as juras, sentidas ou hipócritas, que foi preciso fazer, sobretudo o CDS, de respeito pela democracia socialista, pela revolução de Abril e os seus capitães e, finalmente, pela Constituição que consagrou a sociedade sem classes. A qual, aliás, o CDS, com a coragem e coerência que o PSD não teve, não aprovou. Hoje, semelhante destino colectivo apenas permanece no preâmbulo, que os sucessivos revisores constitucionais deixaram incólume.

 

Esta ternurenta preservação, em que pese aos realistas que entendem que, por não ter conteúdo jurídico substantivo, é inócua, é pelo contrário sintomática: indicia o pecado original de o nosso xadrez partidário ter sido inquinado pela defesa do socialismo.

 

Mas foi, e está. A sociedade portuguesa actual, no score eleitoral absurdo de comunistas e radicais de esquerda, na promiscuidade do Poder com o grande capitalismo, na esmagadora camisa de forças regulatória, fiscal e interventiva que atrapalha o pequeno, e na opressiva opinião publicada ou televisionada, ainda é tributária dos primeiros anos do regime e do papel que então coube ao PS de partido-charneira.

 

É certo que o mesmo PS que arrastou sempre os pés para rever a Constituição, aceitando a cada nova revisão o que rejeitou na anterior, evoluiu recentemente para o respeito das contas públicas equilibradas. Uma cambalhota que contradiz o passado, as promessas eleitorais, e as profissões de fé no efeito multiplicador da despesa pública. Com isso roubou o principal capital político do PSD tradicional, reduzindo-se agora a destrinça a questões adjectivas de diferenças de carácter e de propaganda (Costa mente com facilidade e naturalidade, e conta com uma comunicação social atenta, veneradora e obrigada), rigor de contas (boa parte do alegado sucesso de Centeno assenta no empurrar de problemas para o próximo governo, quando não vindouros mais longínquos), grau de nepotismo (a colonização do aparelho de Estado por familiares e amigos atingiu com o PS níveis sem precedentes) e pouco mais.

 

É certo que o PSD de Rio não é o mesmo de Passos Coelho. E não é decerto um acaso o ódio virulento e persistente que a esquerda em peso dedica a Passos, e se manifesta sempre que este emerge do silencioso exílio a que com dignidade se remeteu. Passos, aliás, abundou nos idos de 2011 em declarações de índole liberal, defendeu a certo ponto, para geral escândalo, a revisão da Constituição, e deu provas como governante de não se impressionar com bonzos do capitalismo caseiro. É certo que nada ou quase fez pela reforma do Estado, mas não sabemos se no apertado colete de forças da troica havia espaço, tempo e imaginação para reformar fosse o que fosse, donde se lhe deu o benefício da dúvida. Além do que a reforma do Estado tropeça sempre nas imensas clientelas a ofender, numa opinião publicada hostil, e numa opinião pública formatada na dependência do Estado.

 

Passos, porém, e o PSD de Passos e Morgado, não são candidatos nestas eleições nem, presumivelmente, nas próximas – Rio sim. E, admitindo que as sondagens têm um mínimo de credibilidade (que um máximo não têm, estou certo), compreende-se que o eleitorado, que é conservador, não vá correr atrás de um socialista novo quando tem um velho à mão, que já deu provas (mais retóricas do que reais, mas a retórica conta) de se preocupar com os pobres. Razões por que, se eu fosse laranjinha, orientava desta vez o meu voto para um valor menos duvidoso, já que melhor do mesmo não chega – é preciso outra coisa.

 

Na outra coisa há agora a Iniciativa Liberal, que a comunicação social tem com zelo ignorado, como não ignorava o Bloco nos seus primórdios. Sucede porém que a IL, se arrebanha parte do que melhor há à direita, tem a liberdade de não se preocupar com a exequibilidade do seu programa porque realisticamente sabe que não chega a poder executá-lo. Portanto, o seu natural objectivo é difundir as boas ideias lá no terreno onde elas podem medrar, isto é, com certeza o CDS e em parte o PSD. As eleições são instrumentais para este mais do que legítimo propósito.

 

Na Iniciativa Liberal não está ninguém que conheça e de quem verdadeiramente não goste, e conheço muitos, e moram muitas ideias que subscrevo. E no CDS não apenas há gente por quem não morro de amores, como há ideias, e algumas práticas, no passado e no presente, que de liberal têm nada, e de fradesco ou social-democrata muito.

 

Resta todavia que a boa direita sempre morou no CDS, ou num PSD que agora está em banho-maria. E o país, que já perdeu muito por não lhe ter dado mais força, não tem nada a ganhar em enfraquecê-lo. A Iniciativa Liberal atrai, mas é como a amante nova, jovem, álacre e um pouco destravada – trocá-la pela legítima não é exactamente a melhor coisa que um conservador pode fazer.

 

Razões por que, no domingo, voto CDS.

 

PS: Não falo da Europa para não dar a impressão que levo a sério a ficção das eleições europeias. Estas eleições são uma sondagem em ponto grande. A mim basta-me para escolher.

publicado por José Meireles Graça às 23:50
link do post | comentar
Sábado, 18 de Maio de 2019

Um passeio primaveril

A 200 metros do meu portão passa uma ciclovia, agora ligada à, já antiga, que vai até Fafe, utilizando a quase totalidade do leito do caminho de ferro que foi desactivado em 1986 e que estava ao serviço desde 1907.

 

O novo troço foi inaugurado em Setembro do ano passado, com a devida solenidade, isto é, presumo, com o discurso de circunstância da nulidade que sobraça(va) a pasta dos transportes e as eructações aldeãs do edil local.

 

“O objetivo desta intervenção é generalizar o uso da bicicleta na vida quotidiana dos vimaranenses, transformando-a num meio de transporte e não somente num veículo de lazer ou de desporto”, diz a notícia e pensam decerto as luminárias que promovem estas modernices.

 

Anteontem, com um sol radioso, fui investigar e caminhei por um pouco mais de 6 km, isto é, até à actual estação ferroviária de Guimarães, onde hoje acaba a linha que vem do Porto. É um bonito passeio porque não houve ainda tempo de poluir a paisagem – a linha estava protegida por uma zona non aedificandi e não havia particular apetência para construir perto do barulho e fumarada dos comboios. Veem-se, a nível quase sempre inferior porque o trajecto é numa encosta, novas urbanizações, geralmente com prédios abomináveis à la Souto Moura, mas sem bandalheiras e lixo no entorno, e com acessos e parques de estacionamento razoáveis.

 

A novel pista tem um piso impecável, irrepreensivelmente pintado num bonito bordeaux, com sinalética esclarecedora e abundante, e postes de iluminação negros, de design contido. O alcatrão acaba em guias de ferro discretíssimas e bem colocadas, as bermas têm largura uniforme e uma cuidada gravilha. Em suma, a execução é excelente.

 

A meio, parei numa esplanada de um café moderno, para um sumo de laranja que não havia, substituído por um fino de cerveja morta, um lanche ressequido e dois cigarros.

 

Quer dizer que o passeio durou pr’aí uma hora e meia. E neste espaço de tempo, a meio da tarde de um dia esplendoroso, vi três ciclistas.

 

A ideia de que numa cidade onde é tudo a subir e a descer, onde nos longos meses de Inverno faz um frio de rachar não tanto porque as temperaturas sejam muito baixas mas porque há vento e chuva, e onde no Verão as temperaturas sobem acima dos 30º,  possa haver um número significativo de pessoas que abandonem o carro, ou a motoreta, ou os transportes colectivos, a benefício da mitificada bicicleta, é um absurdo.

 

Absurdo que só se explica porque correm rios de dinheiro da Europa nos cofres municipais, e fortes correntes de ar pejado de alucinogénios entre as orelhas dos autarcas.

 

Estas brincadeiras custam milhões. Os milhões que não existem para coisas tão simples como tampas de saneamento à face dos pisos das estradas e arruamentos, e não salientes ou afundadas, ou acessos decentes e bem mantidos a zonas residenciais ou industriais. Isto numa longa lista de aplicações alternativas socialmente mais úteis de recursos públicos, mesmo dando de barato (eu não dou, mas não é disso que aqui trato) que diminuir impostos não é razoável e que a União Europeia é tão estúpida, e a nossa diplomacia tão impotente, que dinheiro só há para torrar em fantasias.

 

É de fantasias que se trata: jamais a população aceitará, se tiver outro remédio, que a medida do progresso é a deslocação por tracção animal, que tinha ficado lá atrás, até meados do séc. XX. E por muitos partidos verdes ejaculando propaganda pró-ambiente de China maoísta, injunções de médicos fascistas que esqueceram o juramento de Hipócrates para o trocar pela engenharia de costumes sadios, e esquerdistas sortidos que não descansam enquanto não construírem um homem novo, o raio da pista continuará deserta.

 

Estranho caso: A certo ponto quase toda a gente concordou que a construção das autoestradas sem tráfego assinalável foi uma malbaratação de recursos, e que as externalidades positivas foram uma invenção de políticos venais ou inconscientes. À escala local, as ciclovias não são um escândalo menor. Abençoado embora por quanto idiota sabe, melhor do que as pessoas, o que a elas convém, e ainda que as mesmas pessoas, por julgarem que o dinheiro não lhes sai do bolso, achem que as ciclovias são uma óptima ideia – para os outros.

publicado por José Meireles Graça às 16:53
link do post | comentar | ver comentários (1)
Segunda-feira, 13 de Maio de 2019

Disco riscado

Aquando da Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão do BES o país pasmou com a litania de trafulhas e mentirosos que viu desfilar para explicar o buraco que ainda andamos a pagar. Aquilo era gente paga a peso de ouro, cobertos de condecorações alguns deles, e que durante décadas povoou os jornais de economia e as revistas do beautiful people.

 

Ricardo Salgado, o mais consistente dos aldrabões, ficou definitivamente marcado como o epítome do vigarista-mor e está ainda enredado, e presume-se que até que morra, numa floresta de processos judiciais que se vão arrastando sem fim à vista.

 

Se for a um lugar público é seguro que pode contar com uma pateada e desacatos de reais ou imaginários ex-clientes lesados pelas moscambilhas que engendrou para evitar a débâcle. E os vexames a que se exponha contam com o aplauso unânime dos indignados, que são toda a gente. Esta aliás, se consultada, dirá furibunda que todas aquelas personagens deveriam estar na cadeia, o juiz que os condenasse atirar ao mar as chaves das celas, e os bens que ainda detenham, por si ou interpostas pessoas, confiscados a bem do interesse público.

 

O país governado pela opinião pública, ou o que dela se adivinha nas redes sociais, é um lugar violento, repassado de crime e castigo; e os procuradores da populaça, na nossa democracia representativa, fazem o possível para satisfazer a sua clientela eleitoral abundando na indignação contra estes malvados, que expõem ao ridículo em inquirições públicas (não que os inquiridos precisem de ajuda – eles próprios alimentam o escárnio,  com o expediente de não estarem calados, evidenciando o que lhes vai nas cabeças retorcidas e nas almas emporcalhadas).

 

A recente audição de Joe Berardo foi um clímax: a personagem exprime-se num português sumário, sob a desculpa de que é fluente em inglês, presume-se de apreciador de pintura, com toilette a condizer, é ingenuamente insolente na sua franqueza despudorada, e deixa de modo geral a ideia que nunca na vida terá ganho um cêntimo honestamente – uma bênção para os humoristas, que um exemplar destes, se fosse inventado, não seria credível. A gente chega a ponto de se esquecer que Berardo foi condecorado por dois presidentes da República, um deles com a reputação, provavelmente justa, de ter sido a mais proba das personagens que passou pelo lugar, que durante décadas foi apresentado como um exemplo de sucesso do capitalismo português, e que a colecção de lixo que juntou, sob conselho de um especialista metido a marchand, goza de sólida reputação nos cognoscenti de arte contemporânea, e de grande sucesso de visitas no edifício grotesco que Cavaco mandou construir para celebrar o seu consulado de dom Joãozinho Segundo europeísta.

 

Berardo disse, a dado ponto, que a operação com o BCP foi o “pior desastre da sua vida”.  Foi. Sucede porém que, não fora o ambiente do tempo, e era desastre ao qual teria sido poupado. Porque Berardo foi induzido – a história, mais do que plausível, conta-a aqui o meu colega de blogue. Claro que, no processo, Berardo contava com gordas mais-valias, e estas eram a moeda de troca para servir de peão a Sócrates e à sua camarilha, que se faria pagar com nomeações de protegidos para lugares regiamente remunerados, adjudicações de obras faraónicas aos empreendedores do regime, e comissões pantagruélicas para ele e os outros capos – a ideia de que Sócrates pôde agir sem que as suas segundas e terceiras figuras nunca suspeitassem de nada pode ser, e é, engolida pelo eleitorado distraído com o futebol, que é quase todo, mas sofre de patente inverosimilhança.

 

Quer dizer que o depoimento de Berardo na Comissão de Inquérito nos pode ter dado uma incontrolável vontade de rir, mas disso só não viria mal ao mundo se estivéssemos conscientes de que estamos a rir de nós, porque o lugar do depoente deveria ser ocupado pelos que escolhemos, e continuamos a escolher, para nos pastorear, isto é, socialistas de vária pinta e feitio.

 

Foi assim com Berardo. E com Salgado, foi muito diferente? Convém lembrar que o Banco Espírito Santo, nacionalizado em 1975, só começou um atribulado processo de reprivatização em 1986, com o apoio de uma instituição francesa porque o capital se havia evaporado (os revolucionários de 1975 não tinham conseguido acabar com os pobres, que de resto era o seu objectivo secundário, mas tinham conseguido acabar com os ricos). O capitalismo hiperconservador e sólido da Velha Senhora foi substituído pelo capitalismo assente na dívida e na engenharia financeira, com grande sucesso – o BES chegou a deter mais de um quinto do mercado bancário, mais de dois milhões de clientes e o primeiro lugar no crédito às PMEs. Mas a crise de 2008 veio expor não apenas um gigante com pés de barro mas uma construção delirante de perdas ocultas numa floresta de empreendedorismos familiares sortidos, tudo num contexto de promiscuidades com o poder do dia.

 

Isto significa que Salgado pode ter sido um Ícaro financeiro a quem, por ter subido de mais, depressa de mais, derreteu a cera das asas. Outro o ambiente político e social, outra a supervisão, e a crise abalaria sem necessariamente destruir.

 

Resta saber se destes dois desastres se retiraram lições. Não retiraram, desde logo porque a condenação pública, e a virtuosa indignação que a acompanha, obscurece o facto de que nada, absolutamente nada, garante que desastres da mesma envergadura não se possam repetir. Porque ao condenar os autores materiais dos crimes, onde os há, sem curar de identificar quem devia ter sabido e não soube, quem devia ter agido e não agiu, para não falar de quem foi cúmplice no melhor dos casos por omissão, o que se está a fazer é criar as condições para que os insucessos se voltem a repetir.

 

Dir-se-á que, não existindo já praticamente bancos nacionais, o BCE se encarregará de garantir que na banca, doravante, vigarices e loucuras não haverá. É uma fé extraordinária: o pessoal decisório é o mesmo ou da mesma igualha, oriundo das mesmas coudelarias, e no crédito à habitação e ao consumo não há sinais sérios de mais prudência; os gestores continuam a ser remunerados principescamente, com descaso da existência ou não de ajudas do Estado, e com a passividade deste perante os patentes abusos na cobrança de serviços bancários a depositantes indefesos, como se houvesse alguma contrapartida na remuneração de depósitos; e na supervisão continua a mesma gente proveniente do meio supervisionado ou, pior, de uma Academia que recobre uma ignorância quase sempre fatal dos mecanismos da criação de riqueza com albardas doutorais frequentemente esquerdizantes.

 

Os americanizados, que são legião, julgam que com a reforma das leis penais e processuais, diminuindo os direitos dos arguidos e enchendo as cadeias de condenados, se resolve o problema. Como se, no sol terreno que lhes serve de farol, que são os EUA, houvesse falta de troca-tintas financeiros; e como se atropelos à separação entre património das pessoas singulares e colectivas (patentes no caso de Berardo) não implicassem, por extensão, a multiplicação dos abusos que, já hoje, a Autoridade Tributária e a Segurança Social praticam sob o piedoso nome de reversões.

 

Na próxima crise cá nos encontraremos, com outros protagonistas e histórias muito diferentes, com a secreta esperança de novos Berardos que proporcionem copiosas barrigadas de riso. E pode ser que, então, já haja meios para os trancafiar expeditamente, e lhes catar o que, real ou putativamente, tenham ao sol.

 

Costa, hoje, confessou-se “chocado” pelo “desplante” de Berardo, do mesmo modo e pelas mesmas razões que cristãos-novos iam assistir aos autos-de-fé da Inquisição – não fosse alguém julgá-los heréticos; e Marques Mendes, uma aguadeira do regime, resume bem: Berardo teve um “tratamento que parece privilégio”. Não faz porém as perguntas, nem as denúncias, certas: i) Quem lho deu, e porquê; ii) Onde estão as pessoas que estavam por trás dos paus-mandados que lho deram; iii) Por que acreditamos que as mesmas pessoas, isto é, Costa e a sua entourage, não são capazes de engendrar os mesmos desastres, sob outra forma porque as circunstâncias serão diferentes, mas com o mesmo pano de fundo de promiscuidade entre o Estado e a economia, que é a receita que julgam que convém ao país?

publicado por José Meireles Graça às 19:58
link do post | comentar
Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

Movimento 5.7

Ontem o Movimento 5.7 promoveu uma conferência no Porto com o tema “A Europa e o Futuro”.

 

Os participantes eram Rui Moreira, Rui Ramos e Miguel Morgado.

 

Para quem não saiba, este Movimento agrega quem, no espaço da direita democrática e não-socialista, queira discutir e ver discutir fora de peias partidárias assuntos de interesse colectivo. E corresponde a um sentimento difuso de que, no sufocante ambiente social e político da geringonça, há valores de direita que, nem que seja pela negativa – não somos socialistas – justificam encontros, palestras, debates, em suma, que nos conheçamos melhor, já que os adversários, e por que o são, conhecemos nós bem.

 

Como está a decorrer uma campanha eleitoral para as europeias, o assunto é oportuno.

 

Não está ainda disponível o podcast do encontro, por isso falo de memória. Mas vou já dizendo que, como esperava, os três palestrantes são europeístas convictos, e a moderadora (que, felizmente, não conhecia) da variedade militante, com, porém, diferenças de grau e de ângulo. E como eu acho a união europeia uma construção impossível e, se fosse possível, indesejável, digamos que o conjunto das intervenções não caiu particularmente bem na minha alma sensível.

 

Um ponto prévio: em Portugal toda a gente, com excepção dos comunistas, é europeísta. À Europa se atribuem as autoestradas, o SNS, a melhoria das condições de vida, o extraordinário benefício de podermos pagar com a mesma moeda dos alemães sem passar pela humilhação de a cambiar com uma local provavelmente cotada ao quilo, o Erasmus, as estrelas rock que incluem Portugal nos seus roteiros, os frequentes prémios internacionais no âmbito cultural, e todo o internacionalismo, e toda a modernidade, que conferem aos portugueses a enraizada convicção que Portugal é uma Dinamarca com ligeiramente menos dinheiro.

 

Tudo isto é falso, ou no mínimo uma verdade distorcida. Porque progresso houve em quase toda a parte, o que decorre da evolução da ciência e da tecnologia, e nada permite a certeza absoluta de que a famosa TINA da troica (There Is No Alternative) se aplique também ao caminho inelutável da integração europeia. E o progresso português recente é menor, nos últimos vinte anos, e não maior, do que o do resto do mundo e do que o do resto da Europa, cuja importância mundial não cessa ela própria de diminuir. Para utilizar uma linguagem cavaquista, a carruagem portuguesa no comboio da UE é cada vez mais próxima da última; e este vai mais devagar do que os outros.

 

Depois, o português que aqui não encontra emprego ou sequer uma remuneração condigna, vai, naturalmente, para a emigração, e esta é facilitada pela livre circulação; e, como disse com satisfação um dos conferencistas (creio que Rui Moreira) quase toda a gente tem hoje um filho que casa no estrangeiro, ou um parente que lá se radicou.

 

Este sentimento é tão esmagador que – Deus me perdoe – se houvesse um referendo em Portugal que perguntasse aos portugueses se queriam empandeirar as suas instituições estatais (presidência da república, assembleia da república, tribunais) por troca de um subsídio de 20.000 milhões de euros/ano, estes responderiam entusiasmados que sim, com a condição de o gauleiter ser louro, os juízes bebedores de cerveja morna e a legislação traduzida – como, em parte, já é.

 

Rui Ramos deteve-se longamente no Brexit, e confessou-se escandalizado por uma matéria de tanta transcendência ter sido decidida por uma maioria circunstancial de 4 pontos (52 contra 48%, num contexto em que a maioria dos jovens não votou, ou votou esmagadoramente a favor da permanência); e, se bem percebi, acha mal que escolhas desta complexidade possam ser feitas por uma opinião pública volátil, condenando a comunidade britânica a consequências gravosas que, por provocarem arrependimento, só podem ser sanadas com um novo referendo. Um que dê (suposição e conclusão minhas) um resultado inverso, caso em que a exiguidade da maioria já não terá verdadeiramente relevância, por o eleitorado ter finalmente feito a opção certa.

 

Rui Moreira também vê com maus olhos o Brexit, pelas mesmas razões, isto é, o Brexit é uma coisa que nos chateia, pá, os filhos da Ilha não são fiáveis nem sabem o que lhes convém (interpretação – muito – livre minha), e aproveitou para se lançar numa diatribe contra a disfuncionalidade do euro. Segundo Moreira (e eu, já agora) é uma moeda alemã que serve os interesse alemães, inconveniente para economias frágeis, mas a única maneira de a corrigir é aumentar massivamente as transferências para as economias periféricas, isto é, fazer crescer o orçamento da União para níveis americanos, exemplar federação onde estados como o Montana e o Wyoming recebem transferências significativas. Os outros dois intervenientes guardaram neste ponto um silêncio presumivelmente discordante, decerto porque um e outro entendem que a moeda única, por implicar uma gestão sã – isto é, sem défices – das contas públicas, já está mais do que suficientemente justificada.

 

Miguel Morgado, aparentemente o menos europeísta dos três, preferiu acentuar a importância do artº 50º do tratado de Lisboa, que consagrou o princípio de os Estados se poderem retirar da União, e que foi invocado pelo Reino Unido há dois anos, uma lembrança muitíssimo oportuna nas circunstâncias. Nas outras intervenções tinha perpassado uma sobranceria, para não dizer desprezo, em relação a esses malditos ingleses mais velhos, uma gente desconfiada de construções supranacionais e inconscientemente agarrada a nacionalismos obsoletos.

 

Na fase de perguntas, quis saber onde os conferencistas colocavam limites aos progressos da integração, agora que já se fala de “harmonização” fiscal e de exército europeu. Quase me fiquei pela pergunta porque a moderadora, incompreensivelmente com muito menos predisposição e gosto do que eu para me ouvir, me cortou nos prolegómenos, precaução que todavia não adoptou com o interpelante seguinte.

 

Rui Moreira confessou-se veementemente contra a competição fiscal, que acha desonesta; Miguel Morgado deu uma resposta algo críptica, mas na qual se podia perceber que, excepto quanto às implicações do euro, a Europa dele é a das nações, pelo que não vê com bons olhos um tal exército; e Rui Ramos disse nada.

 

Muito mais se disse, quem quiser que vá ver na página do Movimento.

 

Encerrada a sessão, fui a uma cervejaria na avenida da Boavista com alguns dos marcados reaccionários com que me dou. E, a páginas tantas, disse a um deles, que admiro pela acutilância da escrita e a independência das opiniões: Já viste que bom que seria se não houvesse a esquerda comunista e socialista? Sem sair da direita, já temos divergências que chegue.

 

Ele concordou com entusiasmo. Com o que a noite acabou numa nota de boa disposição.

publicado por José Meireles Graça às 19:14
link do post | comentar
Quinta-feira, 4 de Abril de 2019

Cavaquistão revisitado

Anteontem, por ocasião do lançamento de um livro de Joaquim Miranda Sarmento sobre finanças públicas, Cavaco Silva emergiu das catacumbas onde se entretém a redigir tomos ilegíveis sobre as maravilhas da sua pessoa e acção política, e falou.

 

Disse várias coisas, e das que disse saliento: "Como se tem vindo a verificar, a prática de 'jobs for the boys' é muito negativa para o país e para os portugueses”; “O actual leque salarial da função pública, que no passado se apelidava de albanês, é bem reflexo da hipocrisia e cobardia de boa parte da classe política portuguesa"; “O saldo das contas públicas tal como o das contas externas não é objeto da política económica em si próprio (...) Não faz qualquer sentido que o saldo das contas públicas continue a ser um tema dominante da política orçamental portuguesa"; "Não posso deixar de ligar a perda de receita com a descida do IVA da restauração à acentuada degradação da qualidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O benefício concedido ao setor da restauração está a ser pago pelos utentes do SNS sob forma de degradação da qualidade dos serviços que lhes são prestados, utentes que não dispõem de rendimentos para recorrer aos privados". “A esta medida, o antigo governante associou também a descida das 40 para as 35 horas de trabalho semanal para os trabalhadores do setor da saúde, para concluir: ‘É assim claro que a degradação dos serviços públicos da saúde se deve a decisões políticas erradas tomadas, provavelmente, com propósitos eleitoralistas"; e “Estas medidas de profunda injustiça, atingindo sobretudo cidadão de baixos rendimentos, foram aprovadas não só pelo PS, mas também pelo PCP e pelo BE, o que ilustra bem a hipocrisia de partidos que procuram iludir os portugueses com falsos discursos de defesa dos mais desfavorecidos".

 

Isto disse, e tenho-me divertido com o frenesim que tomou conta dos jornais e das redes sociais, os primeiros porque estão enxundiados de esquerdistas sortidos e as segundas porque lá mora gente que nutre pelo homem o mesmo ódio visceral que vota a Portas, a Passos Coelho, e a quem quer que seja que não reze no altar do abrilismo socialista, nas suas várias capelas, e que tenha tido o desplante contranatura de governar.

 

A máquina socialista mexeu-se. E hoje o Polígrafo (uma organização que, em números redondos, tem acertado no que já se sabia e omitido ou manipulado aquilo que mais interessava esclarecer), pressuroso, estadeia uma capa do Independente de 7 de Fevereiro de 1992 onde se denunciam as quinze mulheres que quando Cavaco era PM foram nomeadas para lugares de confiança política. E diz, com fina ironia: “Ora, se agora Cavaco repugna os ‘jobs for the boys’, no tempo em governou não se opunha aos ‘jobs for the girls”. Foi pena não acrescentar que a nomeação de todo este mulherio era bem o sintoma de fortes sentimentos feministas avant la lettre, que era para a gente se rir com vontade.

 

Claro que há uma diferença de grau e de essência entre o passado e o presente: quinze não são quarenta ou cinquenta; e ministros pai e filha, e marido e mulher, não são meras secretárias ou adjuntas de não sei quê. O PS de Sócrates, cujo pessoal foi quase integralmente recuperado pelo PS de Costa, é o partido corrupto por antonomásia, e esta colonização gargantuesca do aparelho de Estado é o corolário lógico da impunidade com que o eleitorado, anestesiado pela propaganda e por esmolas, brinda os abusos.

 

Hoje por hoje, Cavaco conta com a minha benevolência: quem põe a esquerda a rabiar, e denuncia o evidente oportunismo do PCP e do Bloco com a autoridade de quem ganhou e reganhou eleições, e além disso fez o que pôde para impedir o ascenso da camarilha golpista que acaparou o poder, tem direito a que eu ponha uma surdina nas reservas.

 

Porque, se não, tinha que dizer:

 

Só se poderia ligar a redução do IVA para a restauração à degradação do SNS se as receitas daquele imposto estivessem afectas àquele Serviço. Mas não estão, nem podem estar, porque isso ofenderia o princípio de não consignação de receitas fiscais. E mesmo que, na realidade, a medida de redução tenha sido demagógica, por corresponder apenas a uma promessa eleitoral para ganhar votos, e não se justificar a discriminação positiva do sector restaurador, nada impedia que houvesse cortes de despesas inúteis do Estado. Cavaco, nisso, não fala, nem pode: o seu magistério sempre assentou no pressuposto de que o Estado obeso, investidor, dirigista, dinamizador e visionário, é a pedra de toque do progresso.

 

Agora que o PS, por obediência aos ditames de Bruxelas e medo dos credores e da quarta falência, se reconciliou com a ideia do défice zero, talvez deixe de fazer sentido que o saldo das contas públicas continue a ser um tema da política orçamental. Mas é irrealista esperar que o único resultado realmente positivo que o PS pode apresentar – a redução do défice – deixe de ser objecto de propaganda. É certo que o país nunca crescerá mais do que aqueles que lhe estão mais próximos no PIB por cabeça sem reduções da carga fiscal; e estas só são possíveis com défice ou cortes. Mas ao défice Cavaco diz, e bem, t’arrenego; e dos cortes não fala, mas é pena.

 

Finalmente, e quanto “à hipocrisia e cobardia de boa parte da classe política portuguesa”, talvez Cavaco pudesse ter a bondade de explicar onde estão os recursos para pagar adequadamente aos seus estimados funcionários superiores sem emagrecer a máquina. Mas não explica: será por hipocrisia e cobardia?

publicado por José Meireles Graça às 22:28
link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 26 de Março de 2019

Lendas do sul

Uma lenda persistente corre em Lisboa: no Norte é que se come bem!

 

No Norte ninguém diz que em Lisboa é que se come bem. Mas não falta quem, no Norte, tenha pela cozinha alentejana um fraco, e o Alentejo, como é geralmente sabido, fica a sul – ao menos a sul de Lisboa, e, já se vê, do Norte.

 

Donde, não seria má ideia entendermo-nos sobre o que é “comer bem”, a ver se percebemos se isso tem ou não a ver com pontos cardeais.

 

Ponhamos de lado a cozinha gourmet. Não só no Minho, ou Trás-os-Montes, ou nas outras províncias a norte, os restaurantes gourmet são raros (não tanto como desejaria, mas não é o meu propósito entreter-me a cascar nessa cozinha para desnacionais metidos a besta) como em Lisboa não faltam. Não, não é de cozinha conceptual que está a falar, quem fala, quando gaba o que se come cá por cima.

 

Do que está a falar é de tradição. E é verdade que em Bragança, ou Fafe, ou Vila Real, ou Braga, ou Porto, inúmeros outros locais, se encontram restaurantes (mas não para quem apenas procura sem perguntar a quem saiba) onde se cozinha como se cozinhava dantes, sem estados de alma, sem teorias, sem marketing, sem recomendações de jornais e sem ambições de enriquecer, que o negócio só não é modesto precisamente para quem é levado no andor da publicidade dos gastrónomos com coluna nos semanários e, frequentemente, sem a outra coluna, a vertebral, o que os leva a aceitar a oferta da refeição a troco de crítica favorável.

 

O respeito da tradição, e o respeito das regras da arte, chegam se estivermos a falar de comer bem. Não chegam se estivermos a falar de templos da comida. Porque uma coisa é um cozido à portuguesa, dos vários que existem consoante as regiões, com, por exemplo, o muito sanitário porco do supermercado e outra o mesmo cozido com porco criado a lavadura ilegal e morto ilegalmente por processos que arrepiam os votantes do PAN e os apreciadores de animais fofos; uma coisa é uma comum salada com vinagre comum e outra a mesma salada com vinagre feito em casa; assim como o arroz de pica-no-chão criado em explorações, mesmo que com alimentação sã, não é  mesma coisa que o mesmo arroz com animal criado em semi-liberdade e cevado a farelo e couve. Ou seja, boa parte da alta cozinha não mora na cabeça de criadores, mas em práticas que a vida moderna tornou obsoletas, a legislação ilegais e as polícias do gosto higienizado clandestinas.

 

Mas – lamento desiludir os lisboetas – em Lisboa também se come bem. Não no sentido de restaurantes genuinamente de quinta, ou que lá se abastecem, que de todo o modo são raríssimos em qualquer lado e que naquelas partes suspeito que talvez existam mas não conheço. Mas no sentido de comida despretensiosa mas feita com competência e artigos frescos. Caro, é certo, mas em Lisboa a vida está cara.

 

No fim de semana passado fui a Lisboa para a apresentação do Movimento 5.7. Casa cheia, organização competente, discursos oportunos e bem engendrados de três declinações diferentes da direita, assistência entusiasta de gente cansada do socialismo sufocante em que vivemos.

 

Depois, fui a uma cervejaria. Ninguém em seu juízo se lembra de gabar as  cervejarias onde se come marisco decente e pratos de snack tradicional (tradicional sim, a cervejaria é o fast-food avant-la-lettre e é preciso ser adolescente, autêntico ou retardado, e ter acne, para lhe preferir as batatas fritas pré-congeladas e a carne mastigada que se serve nos McDonald’s do nosso descontentamento). As ostras eram excelentes. E o pica-pau (à antiga, dizia a lista) era feito com lombo macio e saboroso, com o molho que a casa recomenda e que, aposto, é o mesmo há décadas. Um lisboeta murmurou: não é como em Matosinhos, mas não está mal! Não estava mal, de facto, e ainda bem que em Matosinhos não é bem assim – não há nenhuma razão para que cada terra não cultive a sua diferença.

 

No dia seguinte, fui almoçar a um restaurante popular (popular na amesendação e na frequência – uma cliente estava vestida com o equipamento do Benfica, que Deus lhe perdoe – mas os preços eram um pouco salgados) e vieram para a mesa ostras, um arroz de lingueirão, linguadinhos fritos com açorda e jaquinzinhos fritos. Tudo fresquíssimo, confecção canónica.

 

Então, em que ficamos? Por que carga d’água os locais, que veem facilmente na cidade superioridades que não existem, e que tendem a ser, mais vezes sim do que não, terrivelmente paroquiais, desconfiam dos seus estabelecimentos?

 

A meu ver, a multiplicação absurda de restaurantes para servir o turista, servindo o lixo a que se convencionou chamar cozinha internacional; mais o falso rústico e o falso tradicional, fundado por gente empreendedora que de comer sabe pouco e de cozinhar ainda menos; as cadeias internacionais que chegam com conceitos;  a prodigiosa quantidade de textos, programas de televisão, notícias em torno do tema da restauração, opiniões de nutricionistas, entendidos, amadores e especialistas:

 

Tudo concorreu para este sentimento de que é necessário regressar à autenticidade. E como lá no Norte está o campo, e a gente que diz palavrões, e esse povo que não é moderno, nem cosmopolita, nem socialista, tem que estar, fatalmente, a boa cozinha.

 

Fantasias. Que de socialistas há avonde, isso é praga que aterrou no país todo, mas boas cozinhas nem por isso. Salvo se, já se vê, inquirirem junto deste vosso criado, que todavia também em Lisboa começa a estar habilitado a ministrar conselhos.

publicado por José Meireles Graça às 15:13
link do post | comentar
Terça-feira, 19 de Março de 2019

Marcelo

A Marcelo chamei, no facebook, um “básico”. Uma boa amiga (feminista, das que me restam – algumas, mais radicais, já me puseram a um canto, sob a cominação de “machista”) discordou, achando que ele, de básico, não tem nada.

 

Não tem, de facto. O escrever à flor dos dedos nem sempre propicia a melhor escolha das palavras.

 

Pior: outras pessoas cuja opinião respeito, e que ademais conheceram o homem pessoalmente, descrevem-no como “brilhante”.

 

À minha amiga, que não me comprou o discurso, respondi como segue. E como ninguém duvida de que Marcelo se vai recandidatar, e que a recandidatura será um passeio, parece-me a altura boa para me repetir e explicar como vejo a peça. Razões por que, além de um perverso gosto meio masoquista de me ver isolado na opinião, aqui vai:

 

Marcelo sempre me pareceu um equívoco: não tem, numa vida de escrita e de magistrado da opinião, um dito original, uma frase ou pensamento que não seja uma cedência ao ar do tempo, uma recomendação de um livro que valha a pena porque provavelmente nunca leu senão badanas ou best-sellers; não tem sobre o país, a UE e o mundo senão ideias comuns a qualquer medíocre recém-licenciado em relações internacionais; e o brilhantismo que se lhe reconhece em táctica política decorre da manipulação, em que é mestre, e do faro político para lhe permitir cambalhotas com validade a seis meses. É brilhante - um brilho de lantejoulas. E a sua simpatia, que se toma por natural, não é mais do que um expediente de angariação da admiração de multidões beatas para lhe lisonjear o ego desmedido - quem gosta de toda a gente não gosta de ninguém. A ideia que tem da estabilidade é que é um fim em si e não um meio, porque não sabe para quê. Não é comunista, é crente (provavelmente para garantir a salvação, que aquela peça não dá ponto sem nó) e daria um bom rei constitucional. É um péssimo presidente e deixará, provavelmente, boa memória, como deixam frequentemente os bons vendedores de banha da cobra que não foram descobertos.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 21:14
link do post | comentar | ver comentários (3)
Quarta-feira, 13 de Março de 2019

In memoriam

Fui hoje à terra do meu avô paterno, para o enterro de uma filha dele. Morte devida há muito, que uma doença debilitante e dolorosa tinha transformado a vida num calvário, todavia suportado com um estoicismo, suspeito, alimentado a fé.

 

Era uma tia que tomou conta de mim num tempo que não lembro, por ser muito novinho. E contou-me, já muito doente e acamada, que o bebé, desde que lhe enchessem adequadamente o bandulho e estivesse seco, queria era dormir, embalado pela camioneta em que se fazia o traslado de uma aldeia para outra, cujas passageiras miravam com encanto o sossego do anjinho, espantadas, parece, com as longas pestanas que eram o enlevo dela.

 

Isto me disse de mão dada comigo, a voz já fraca, imensamente contente pela minha rara visita.

 

Não sei o que foi feito das pestanas e receio que o sono nem sempre seja tão descansado como, a acreditar na história, já foi.

 

Tivesse eu a mesma fé, e a mesma tranquila generosidade que a levou a servir os outros toda a vida – o marido, a filha, o irmão, meu Pai, que assistiu nos últimos meses de vida, e estaria certo de que do lado de lá encontraria as palavras certas para lhe agradecer, se do lado de lá ainda é preciso falar.

 

E daí talvez não, a não ser com uma licença especial. Que se no Além houver a justiça que neste falha, não estaríamos decerto no mesmo lugar.

 

Adeus, tia Fernanda.

publicado por José Meireles Graça às 16:44
link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019

Desserviço Nacional de Saúde

O Serviço Nacional de Saúde é um sucesso socialista: foi concebido como sendo universal e tendencialmente gratuito, carácter que lhe vinha da Constituição (artº 64º).

 

Foi um triunfo, nos anos iniciais, ao melhorarem-se espectacularmente os indicadores de mortalidade infantil e esperança de vida, entre muitos outros, mesmo que a evolução científica e tecnológica, além de progressos no saneamento e nos hábitos de higiene, também tenham desempenhado o seu papel, habitualmente desconsiderado.

 

Na comparação com outros países, que é a que interessa quando se quer medir o desempenho, bastará dizer que Portugal, no indicador esperança de vida, ocupava em 2017 o 22º lugar em 201 países, à frente por exemplo da Alemanha, Dinamarca ou Reino Unido. É obra: só no futebol, e mesmo assim apenas enquanto Ronaldo não esgotar o prazo de validade, é que o nosso país se afasta do lugar que lhe cabe na hierarquia dos países medida em PIB por cabeça, onde aqueles três países estão naturalmente muito à frente de nós.

 

A Constituição poderá ser socialista deliberadamente, e a maioria dos cidadãos inconscientemente, mas o sector privado da Saúde nunca deixou de existir e crescer. Isso explica que o clamor que de há uns anos a esta parte tem vindo em crescendo contra o SNS não tenha o carácter explosivo que teria sem os privados: estes amortecem, para quem tenha seguros ou sistemas particulares como a ADSE ou os SAMS e muitos outros, as consequências da degradação,  obsolescência e esgotamento dos estabelecimentos de propriedade pública e os seus crescentes e desumanos prazos, falhanços e insuficiências.

 

Nada que surpreenda: o socialismo acaba, como se sabe, quando acaba o dinheiro dos outros. E como o establishment interiorizou finalmente que défices não, e intui que não pode continuar a aumentar a ordenha da vaca leiteira dos impostos indirectos, sob pena de o eleitor se aperceber que está a ser sangrado em vida, há um grande mal-estar. Daí a guerra com a ADSE e as greves cirúrgicas dos enfermeiros: o Poder não pode ceder porque não tem dinheiro para ceder; e a tentação cresce de demonizar os privados e tachar os trabalhadores públicos de serventuários de interesses obscuros.

 

O jornalismo, como é vulgar em situações de crise, vai colher a opinião dos senadores, e estes são entre nós, quase sempre, gente que caucionou durante décadas o tipo de políticas que na economia, na saúde, na justiça e no resto, nos trouxeram à condição, para a qual caminhamos velozmente, de lanterna-vermelha da Europa.

 

Constantino Sakellarides é um desses: fala muito e imprecisamente, e não tem na realidade nenhuma ideia nova sobre a forma de resolver os problemas com que se defronta o SNS: mais orçamento, mais isto e mais aquilo e mais senso – o dele – com menos reivindicações, esta a receita que ministra, envolta em frases evasivas e enigmáticas.

 

Confesso: Desmontar o chorrilho de meias verdades, equívocos, vacuidades e imprecisões da entrevista seria como andar à paulada a gambozinos no meio do nevoeiro. Dispenso-me.

 

Num ponto, porém, foi clara: o jornalista quis saber o que pensava Constantino do que disse Rui Ramos no Observador, onde se referia “a uma ideologia do SNS que teria ódio ao negócio da saúde e uma velha obsessão do socialismo com a estatização dos setores básicos da economia”.

 

O que Rui Ramos disse só não é um truísmo porque em Portugal, infelizmente, nem os factos contrariam as crenças esquerdistas. Pois o velho senador riu, e declarou:

 

É difícil encontrar tanto preconceito numa só frase! As pessoas não conhecem a história da saúde, não conhecem porque é que com a Revolução Industrial nós tivemos segurança social, porque é que a segurança social nos países mais avançados evoluiu de uma certa forma e nos países do sul da Europa evoluiu de uma forma diferente. O SNS não foi uma pessoa que num dia se sentou e disse ‘temos de ter um Serviço Nacional de Saúde’. Não foi um pecador que numa noite de desvario se sentou e criou um monstro. Isso que me leu, tenho pena que tenha sido escrito por uma pessoa com um background académico”.

 

Fantástico: as universidades, hoje e desde há poucas décadas, são mais vezes sim do que não coios de lunáticos e marxistas reciclados em engenheiros de costumes e magos da economia vudu, mas nem todas nem todos ꟷ Rui Ramos não faz parte da seita. Mas é historiador, e isso dá vontade de rir a Sakellarides, que é “professor” de políticas e administração de saúde, tem uma extensa carreira como funcionário do que está e julga conhecer bem a história da segurança social, provavelmente porque tresleu sobre o assunto meia dúzia de livros de autores suspeitos.

 

Não há outra gente? Há, claro. Mas não são de esquerda, e a nossa tragédia é esta: continuamos a querer resolver problemas com quem faz parte deles.

publicado por José Meireles Graça às 19:45
link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Greve ao senso

Nos regimes comunistas não há greves. No sector privado não porque não há sector privado; e no público também não porque estando o povo trabalhador no poder o trabalhador propriamente dito não pode fazer greve contra si mesmo. Impecável lógica. Daí que, quando há tentativas de greves os inspiradores e aderentes acabem invariavelmente num qualquer gulag. Se não for assim o regime acaba, como acabou na Polónia de Jaruzelski quando o Pacto de Varsóvia já abria fendas por todos os lados e o Solidariedade andava por lá a arreganhar os dentes.

 

O povo em Portugal está no poder mas poucochinho, através do PCP e do BE, e portanto ainda há a possibilidade de greves. Na realidade, como reconhece candidamente este antigo fanático comunista, e actual fanático socialista e europeísta, referindo-se à greve cirúrgica dos enfermeiros:

 

(i) no caso dos serviços públicos, os trabalhadores não correm o risco de as suas greves porem em causa a sua existência e os seus próprios postos de trabalho, como sucede nas empresas privadas, sabendo que o Estado não pode encerrar os serviços públicos e despedir o pessoal; (ii) como as greves nos serviços públicos afetam maciçamente os respetivos utentes, em especial os de menores rendimentos, os governos veem-se muitas vezes forçados a ceder às reivindicações, mesmo que elas sejam despropositadas e orçamentalmente ruinosas”.

 

Tem razão. Sucede porém que quem ouvir os enfermeiros não acha as reivindicações despropositadas. E mesmo que não se compre o argumento da bastonária de que o governo não cede aos enfermeiros mas cede aos bancos (um assunto que dá pano para mangas mas do qual não me vou ocupar aqui) resta que os enfermeiros apenas usam contra o governo a sua própria retórica do virar a página da austeridade. A austeridade não acabou, como se sabe, apenas foi substituída pela loucura da redução de cinco horas do horário semanal, umas reversões aqui e ali, um aumento de taxas e de receitas induzidas pela diminuição do desemprego e pelo pálido crescimento económico, e uma intensa barragem de propaganda enquanto o nosso Ronaldo das Finanças se assegurava com mão férrea de que os orçamentos aprovados pela maioria geringonceira eram desrespeitados a benefício da redução do défice – o diagnóstico anda aí pela pena dos economistas sérios, uma raridade na Academia e nos jornais.

 

Então, que propõe o preclaro jurista coimbrão? A reversão do horário das 35 horas para as 40, em nome da igualdade entre o sector público e o privado, e que se lixem os sindicatos e a bastonária? A cedência, mesmo que negociada, e que se lixe o défice? A mesma cedência mas compensada com cortes na despesa pública, a indicar?

 

Não. A criação de um regime diferente para os sindicatos da função pública. E Vital não pega na coisa, como dizem os franceses, com as costas da colher:

 

“Sem pôr em causa substantivamente o direito à greve, há margem, por exemplo, para maior antecedência do pré-aviso, limites à duração das greves, interdição de greves parciais (como a greve às cirurgias), comunicação individual prévia dos trabalhadores que vão fazer greve (para permitir aos serviços adaptarem-se às greves). Além disso, pertencendo o direito à greve diretamente aos trabalhadores e não aos sindicatos, é de equacionar a hipótese de a declaração de greve sindical só abranger os seus próprios associados, tornando necessário um referendo em cada estabelecimento público para habilitar os demais trabalhadores a fazer greve.

 

Eh lá, gosto disto. E eu acrescentava a obrigatoriedade de o referendo ser em escrutínio secreto, mas mesmo sem isso já arremato. Somente, ao contrário de Vital, não quero os trabalhadores públicos com menos direitos, no âmbito do uso da bomba de neutrões que a greve é, do que os do sector privado, razão pela qual estas alterações, a fazerem-se, deveriam ser para todos os trabalhadores.

 

Mas é claro que para todos os trabalhadores não pode ser porque valha-me Deus, as conquistas de Abril, a Constituição e não sei quê. Nem para os públicos, aliás, até agora: nenhum socialista se lembraria de uma tal revolução se a greve dos enfermeiros não tivesse vindo pôr a nu que, como ainda não temos um regime comunista, das duas uma: ou se limitam severamente as greves no sector público ou se privilegiam as PPPs da Saúde, e se generaliza a ADSE, de forma a que uma greve não possa paralisar uma parte esmagadora da prestação de cuidados de saúde por estes não serem prestados, como deviam, pelo sector privado em múltiplos estabelecimentos.

 

Não fui eu quem concebeu o SNS, nem sou eu quem o defende com a configuração que tem. Mas é uma saborosa ironia que um socialista de impecáveis credenciais venha defender o que sempre defenderam os comunistas: no público greves não; no privado sim, desde que não exista.

publicado por José Meireles Graça às 21:43
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Marxismo Cultural o tanas:-» BOYS E GIRLS DE SOROS...
E prontos...Manuel Vilarinho Pires gastou algum do...
Que a Igreja é humana, faz parte da definição. Uma...
No vosso 'post' «Um passeio primaveril» escrevi al...
José Meireles Graça, o seu apontamento é bom, expl...

Arquivos

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cds

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desigualdade

dívida

educação

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds