Terça-feira, 16 de Outubro de 2018

Conselhos às senhoras

Há uns bons anos, estava com uma senhora na cama, altas horas, e ela lia, apercebi-me, as cartas de Eça à sua futura mulher; eu um ensaio qualquer sobre um recanto obscuro do passado, ou umas tretas sobre as tendências do presente, que são as coisas que me entretêm há que tempos.

 

A senhora, às tantas, depositou o livro aberto na barriga e, fitando sem ver a parede em frente, murmurou no silêncio sepulcral do quarto: se um homem me escrevesse cartas assim apaixonava-me por ele!

 

Aquilo não me caiu bem. E, a despeito de Eça ser um dos santos no altar exíguo das minhas devoções, embarquei numa doutoral dissertação sobre a hipocrisia do autor, e o seu casamento por interesse na família dos condes de Resende. Creio até ter chamado à colação o exemplo de Teodorico Raposo que, depois de caído em desgraça, na Relíquia, casou com a irmã abonada do amigo Crispim. Conclui informando que Eça era incapaz de, escrevendo, não ser admirável. E que, se o papel era o de apaixonado, então era bem capaz de despertar a atracção romântica da madre Teresa de Calcutá, ainda por nascer.

 

Não convenci. E ficou por apurar se o silêncio desaprovador resultava de sono ou da constatação de uma putativa ciumeira.

 

Lembrei-me desta história por causa do texto da Spiegel que acusa Ronaldo. Está bem feito, o texto. E é tão convincente, como aliás todas as outras peças da mesma proveniência, que todas as feministas que conheço dão como adquirido que ele violou sem sequer se darem ao trabalho, as mais raivosas, de deixarem a clássica ressalva de ser necessária a provazinha da culpa em tribunal.

 

Sucede que nem todas as mulheres compram, sem mais, a tese da culpabilidade. E esta, por exemplo, que não tem frio nos olhos nem consta que sofra da doença do machismo denunciada pelo movimento Metoo, vê no relato  mais buracos do que num queijo Gruyère.

 

Eu também vejo. E como tenho pelo movimento feminista um respeito excessivamente moderado e pelos homens que nele se alistam, incluindo amigos meus, a forte suspeita de que o que querem é, enrolados na bandeira da modernidade pateta, agradar ao belo sexo a qualquer preço, acrescento:

 

O MeToo é uma americanice grotesca e interesseira que, a coberto de casos reais de violação e abusos, pretende dar às mulheres vantagens indevidas, que consistem no poder não sindicado de arruinar carreiras e reputações, e no deixar passar para a consciência social a ideia de que quem é acusado por uma mulher, se o crime for de índole sexual, tem os seus direitos de defesa automaticamente diminuídos;

 

O feminismo é de esquerda, mesmo quando subscrito por pessoas de direita, porque cede ao discurso dos “fracos” e dos “oprimidos” contra os “poderosos” e os “opressores”. É uma bandeira fabricada pela indústria de causas, a mais dinâmica neste dealbar do séc. XXI, alimentada pela comunicação social para vender e pelas redes sociais para que os cidadãos possam ventilar a sua indignada virtude;

 

Os inimigos expostos à execração são os mesmos de sempre, isto é, os que detêm poder e riqueza. É isto que explica que a empregada que diz que o patrão a assediou tenha automática audiência e serviços públicos prestimosos a investigar, mas o mesmo empenho não se verifique na repressão de práticas medievais como a mutilação genital feminina ou os casamentos forçados em comunidades muçulmanas ou ciganas;

 

Há cada vez mais mulheres educadas que, na competição por lugares que são naturalmente menos numerosos do que os pretendentes, descobriram que a reivindicação de quotas elimina concorrentes. Uma guerra dos sexos vem a calhar, sobretudo se o inimigo, por ser filho de umas, e marido, amante ou irmão de outras, não perceber que é de uma guerra que se trata.

 

Pergunta-se: todos os que viram e veem as suas carreiras destruídas por acusações eram culpados dos crimes de que foram acusados, e algum beneficiou realmente da presunção de inocência? Não, porque sofreram uma pena sem processo legal. Ou seja, o movimento feminista defende um retrocesso civilizacional, que é a equiparação dos putativos agressores sexuais a cristãos-novos acusados de judaísmo, e a consagração do princípio de que, para certos crimes, mais vale a eliminação de todos os potenciais criminosos do que o risco de que alguns fiquem por condenar.

 

De resto, não faltam por aí excitadas a defender que a violação, tal como a define o código penal português, precisa de ver a sua definição legal alargada, e a sua moldura penal agravada. Como se o agravamento da sanção penal para os crimes da moda alguma vez em algum lado tivesse feito mais do que arrastar consigo o agravamento de outras penas para outros crimes; e como se as grandes taxas de encarceramento, e a violência da resposta penal, fossem apanágio de sociedades pacíficas.

 

Querem importar americanices, minhas senhoras? Fiquem-se pelos blue jeans justinhos, se estiverem bem servidas de pernas, e pela coca-cola light, se não estiverem.

publicado por José Meireles Graça às 23:48
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

Banco de estiramento (continuação)

Senhora xxxxx xxxxxxx:

 

Notei a carta de V. Exª da refª supra, com data de 27 de Setembro mas apenas hoje recebida, que não agradeço por ser, como claramente é, um exemplo de má-fé e língua de pau.

 

Com efeito:

 1. Preenchi em momentos diferentes dois impressos diferentes, ambos do BancoCTT, ambos por exigência vossa e ambos entregues pessoalmente no vosso balcão em Fafe, narrando os mesmos factos. De ambos os impressos (um de 11 de Julho e o outro de 23 do mesmo mês) tenho recibo, razão pela qual a exigência de um terceiro impresso, ainda para mais requerendo expressamente a afixação de uma data posterior, e sob pretexto de que seria uma exigência da SIBS, é não apenas um abuso mas uma potencial desonestidade: poderiam VV. Exªs virem dizer depois que a reclamação não foi tempestivamente apresentada;

 2. Das várias vezes em que me desloquei, por exigência vossa, ao balcão local e ao posto da GNR, sempre perdi muito tempo e paguei estacionamento. Isto para resolver um problema que nada impedia pudesse ser tratado por e-mail; 

 3. Este assunto foi objecto, sempre da mesma forma redundante e acéfala, dos vossos e-mails de 19 de Julho, 23 de Julho (este acusa a recepção da segunda reclamação), 1 de Agosto e 5 de Setembro passados, o primeiro em resposta ao meu de 17 de Julho e os seguintes todos respondidos adequadamente;

 4. A sugestão, formulada no penúltimo parágrafo da sua carta acima referida, de me dirigir ao comerciante onde foi abusivamente utilizado o meu número de cartão de débito (e que aliás não sei quem é – Cherry China é o quê? – nem V. Exª indica onde fica) poderia passar por irónica. É apenas, porém, além de estúpida, insolente.

 

Reforçarei a queixa já apresentada no Banco de Portugal, pelo que valha; se tiver tempo e disposição, e existir serviço de reclamações, queixar-me-ei aos serviços da VISA.

 

A V. Exª felicito por não ser hábito as cartas, e os e-mails, virem com a fotografia de quem os subscreve. Se fosse, e na hipótese de ser titular de um módico de vergonha, teria que se deixar figurar com a cara enfiada num tacho.

 

Receba V. Exª, de cumprimentos,

 

Quanto baste.

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.

publicado por José Meireles Graça às 21:38
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Banco de estiramento

Sou do tempo em que para meter gasolina se perdia pouco tempo, não se sujavam as mãos nem se poluía o ambiente com luvas de plástico jogadas fora. Bastava uma gorjeta modesta para o abastecedor, que fazia ele próprio o troco para contas que eram quase sempre redondas.

 

O salário mínimo eliminou os abastecedores; o dinheiro vivo foi substituído pelo plástico, em nome de uma comodidade o mais das vezes ilusória; e nas bombas o cidadão orgulhoso exibe a carteira com o estendal dos cartões com os quais o banco o esbulha e o Estado lhe controla os movimentos, enquanto entope a fila para declarar com cidadã satisfação o seu número de contribuinte e introduz o código na maquineta.

 

O sonho dos estatistas é aliás acabar com o dinheiro vivo. E tempos virão, e não estão longe, em que o funcionário enxerido saberá com rigor quantos cafés tomo pela manhã, e quantos maços de tabaco compro, até ao momento em que um fascista qualquer (pode ser o actual ministro da saúde, ou o anterior, ou o ominoso ex-secretário de Estado Leal da Costa, a liberdade tem poucos amigos) decida que o celebrado SNS não pode servir do mesmo modo quem cuida e quem não cuida adequadamente de si, por muito que os vícios já estejam carregados de impostos.

 

Na prática, não é possível viver sem um banco. Sei porque tentei. E até o pobre diabo que não tem mais do que a sua reforma acaba por ser forçado a ter uma conta, para não se expor a filas intermináveis para descontar o vale postal. Salvo se for cigano, caso em que as filas podem, como nos hospitais, ser ignoradas.

 

O Estado agradece. E o banco também, que pilha com naturalidade as contas à sua guarda sob os mais diversos pretextos, sob a atenta supervisão de farinha do mesmo saco, paga a peso de ouro.

 

Há poucos anos escolhi portanto um banco que não cobrasse comissões, no caso o banco CTT.

 

Até agora, não me cobrou nenhuma. E satisfeito estava até que um dia me apareceu um débito sob a designação PayPal Cherry China, portanto de uma organização que nunca usei, para pagar a uma firma que não conheço uma despesa que não fiz, com um cartão que nunca me saiu do bolso para aquele efeito.

 

O incidente deu origem a uma inacreditável saga. E amanhã, para este post não ficar demasiado longo, publicarei o último e-mail que, farto desta gente até aos olhos, dirigi à atrevida que me escreveu a recomendar-me que me dirigisse ao “comerciante em causa”, como se eu soubesse quem é.

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publicado por José Meireles Graça às 22:03
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Domingo, 30 de Setembro de 2018

As inimigas de Kavanaugh

O objectivo deste trabalho é tentar demonstrar que a intervenção do direito penal, a partir de determinada altura, é inócua e não visa cumprir nenhum dos fins a que se propõe e que, no fundo, constituem os fundamentos da sua intervenção legitimadora. A partir desse “tempo”, que pode ou não coincidir com os prazos de prescrição consagrados pelo legislador ordinário, a intervenção do direito penal pode ser violadora dos princípios fundamentais que o legitimam.

 

No direito português, seja civil, penal ou fiscal, existe o instituto da prescrição. E no ponto 4.1 do estudo para que remete o link acima elencam-se as várias teorias que fundamentam a necessidade da sua existência (teorias que, a meu ver, são complementares e não alternativas).

 

O texto, que encontrei na internet por acaso, é prolixo e com frequência desnecessariamente obscuro. Mas são os senhores professores, e ainda bem, que redigem os códigos – um dos problemas que tem a diarreia legislativa avulsa sob a qual vivemos há décadas é que quem a emana tem com frequência formação jurídica deficiente, conhecendo mal o universo jurídico, mesmo quando calha estar na posse de alguns rudimentos de gramática.

 

Os códigos penais reflectem a história do nosso país no âmbito criminal, a sua tradição, as suas longínquas raízes no direito romano, e são tributários das várias doutrinas que foram sucessivamente influenciando as nossas elites no poder, na política e na academia.

 

É possível que haja alguma distância entre o que acham hoje os penalistas e o que acha a multidão; e há um crescente mal-estar entre uma opinião pública cujas chamas de indignação são em permanência reavivadas por uma comunicação social histérica e sensacionalista e as decisões dos tribunais, cujos agentes aplicam leis que a maioria não conhece, não seria capaz de interpretar correctamente, e cujos fins não são, no âmbito criminal, o olho-por-olho de Hamurabi que parte da populaça julga dever ser a Justiça.

 

Apesar de tudo, das doutrinas vai passando alguma coisa para a consciência social; e no nosso modo de ser, como no de outros povos latinos, o puritanismo, felizmente, não medrou, como não medrou a obsessão com o crime e castigo. Temos outras taras mas essas não – são coisas, entre todos, de americanos.

 

É por isso que quando, por causa de uns amassos com uma estagiária na Sala Oval, o presidente Clinton passou as passas do Algarve para não ver o seu mandato cassado, todo o episódio deu uma grande vontade de rir à Europa e América do Sul católicas. Tecnicamente, os amassos não foram o problema, foi ter o presidente mentido a respeito deles; mas, nas nossas velhas sociedades saudavelmente hipócritas, há perguntas que não se devem fazer mas às quais, se forem feitas, só se pode razoavelmente responder com aldrabices.

 

Temos agora um outro episódio lúbrico, que é o do candidato a juiz do Supremo Tribunal Kavanaugh, que terá molestado sexualmente uma rapariga de 15 anos quando tinha 17, em 1982.

 

A ser verdade o que li, isto é, que foi um dos juízes que interrogaram Clinton, e que lhe terá perguntado se se veio na boca de Monica Lewinski, haverá nesta trapalhada uma justiça poética.

 

Fora a poesia, porém, e fora a guerrilha política que fez com que Clinton fosse crucificado por ser democrata (isto é, modernamente, a versão americana de um socialista) e faz com que Kavanaugh o esteja a ser por ser republicano (isto é, de direita), o caso está a ser tratado também aqui não pelo seu lado cómico, não por ser a americanice grotesca que é, mas como mais um episódio da gloriosa luta pela igualdade entre os sexos.

 

O episódio: uma mulher, que durante 36 anos não disse nada, declara, ao tomar conhecimento de que Kavanaugh era candidato ao Supremo, que quando era uma miúda de 15 aquele a molestou sexualmente numa festa. Ouvida no Senado, foi convincente na sua sinceridade quanto descreveu o incidente, e omissa no que toca a provas – circunstanciais, testemunhais ou outras quaisquer. O denunciado nega tudo, em termos igualmente convincentes ainda que, em certo passo, com incontida ou fingida comoção.

 

Que deve pensar uma pessoa com a cabeça em cima dos ombros?

  1. A patente sinceridade de um queixoso é insuficiente para condenar seja quem for seja ao que for. Não apenas não há crimes sem provas como não tem havido falta, desde que a ciência forense incorporou no seu arsenal as provas de DNA, de absolvições de condenados que o foram com testemunhos absolutamente seguros de testemunhas visuais que se vieram a revelar objectivamente falsos;
  2. Trata-se de um julgamento, mesmo que finjam que o não é. Quando homens podem ver prejudicada a sua carreira, e a sua reputação, por causa da acusação da prática de ilícitos graves, estamos a falar de penas. E portanto tudo o que seja menos do que a exigência normal em estados de direito para o processo penal é insuficiente;
  3. Quem é vítima de um crime deve queixar-se. Se não se queixa por achar que a queixa é inútil, ou lhe pode acarretar maiores prejuízos do que o silêncio, não é ainda assim aceitável que, mudadas as circunstâncias, se conserve calada por décadas até ao momento em que a revelação lhe pode trazer vantagens. Sensata era a pergunta que dantes os oficiantes faziam aos convidados na cerimónia do casamento: Quem tiver motivo… que fale agora ou se cale para sempre;
  4. Kavanaugh deve ser nomeado. Se o não for, está encontrada a maneira de impedir, num país em que boa parte do aparelho do poder executivo, judicial e mesmo policial resulta de eleição ou homologação por eleitos, a selecção democrática – basta arranjar queixosas.

Toda esta história nada deveria ter a ver connosco. Mas tem porque as modas americanas chegam cá, e cada vez mais depressa. Ora, a ideia de que a queixa de uma mulher, se for contra o comportamento sexual de um homem, não precisa de mais provas do que as que oferecia um cidadão temente a Deus quando se queixava à Inquisição de um cristão-novo, é uma intolerável deriva dos costumes e um retrocesso civilizacional.

 

É assim que devem ser vistas boa parte das feministas contemporâneas – Torquemadas de saias, em cruzada pela nova pureza de sangre. Mesmo que as não usem, mesmo que reivindiquem às vezes coisas razoáveis, e mesmo que muitos de nós calem o dissenso porque esperamos que a moda passe, porque todos somos filhos de uma mulher e maridos ou amantes de outras, e finalmente porque sem elas o mundo acaba.

 

Mesmo que não acabasse, não teria qualquer interesse. Conviria porém que não o infernizassem.

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publicado por José Meireles Graça às 21:15
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

Mulheres e homens

Há mulheres feias, bonitas, mentirosas, sinceras, ignorantes, cultas, estúpidas, inteligentes, de bom coração e más como as cobras.

 

E há senhoras feias, bonitas, mentirosas, sinceras, ignorantes, cultas, estúpidas, inteligentes, de bom coração e más como as cobras.

 

Há homens feios, bonitos, mentirosos, sinceros, ignorantes, cultos, estúpidos, inteligentes, de bom coração e maus como os escorpiões.

 

E há senhores feios, bonitos, mentirosos, sinceros, ignorantes, cultos, estúpidos, inteligentes, de bom coração e maus como os escorpiões.

 

Hum, mulheres e senhoras, homens e senhores. E como se distinguem uns dos outros?

 

Entre homens e mulheres não há dificuldades, por causa de certos sinais exteriores (por causa de certos sinais interiores também, na minha opinião, mas Deus me livre de ir por aí, que não sou da subespécie doida temerária). Se bem que a coisa seja ainda mais complicada porque há uma minoria de mulheres que acham que são homens, outra de homens que acham que são mulheres, e outras que se acham homens e mulheres de parte inteira mas quereriam desempenhar, no processo de reprodução, o papel do sexo oposto. Deixemos em paz, para os estudos de género subsidiados, estas candentes matérias, que disso não quero falar.

 

Disso não quero falar. E das diferenças entre mulheres e senhoras, ou homens e senhores também não, por uma razão simples: quem estiver em condições de entender a explicação não precisa dela; e quem precisar jamais entenderá.

 

Aaaaaaaaah, e exemplos, a ver se a gente se entende ou se desentende de vez?

 

Álvaro Cunhal, um potencial criminoso comunista, era um senhor; e Jerónimo de Sousa, um potencial criminoso comunista, é um homem. Passos Coelho, possivelmente o menos mau dos primeiros-ministros da democracia, é um senhor; e António Costa, a grotesca e sebosa figura que pincha à cabeça da geringonça, é um homem (ou talvez nem isso, apenas um homenzinho). O número dois, ou três, ou lá o que é, do PSD, o hesitante Fernando Negrão, é um senhor; e o seu patrão um homem.

 

Querem exemplos de mulheres e exemplos de senhoras? Não dou, que já acima declarei que não sou doido. É que até mesmo no meu partido há as duas variedades, e sou amigo de representantes de ambas. Mas, vá lá, pronto, no Bloco, assim de repente, não vejo uma única senhora. E mulheres também vejo poucas, aquilo é mais raparigas. E aquele tipo de Coimbra que é deputado, falha-me agora o nome, é homem ou senhor? Hesito, mas não hesito nos colegas: são ganapos.

 

Hum hum, e no PS? Bem, estava a ver a SicN e zás, aparece uma entrevista a Ana Gomes. Foi por isso que me lembrei das mulheres.

publicado por José Meireles Graça às 20:58
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Gringos

Não sou americanófilo: detesto coca-cola, uma mistela açucarada que provoca prisão de ventre; não tenho um indevido respeito por Warhol, ou pela cultura pop; gostando muito de automóveis, acho a generalidade dos americanos do pós-guerra uma grande piroseira; não aprecio familiaridades de trato indiscriminadas, que desvalorizam a amizade e a intimidade de quem a merece ou tem; não acho que o sucesso seja a medida de todas as coisas; confundo os génios contemporâneos da música rock ou dos outros géneros populares uns com os outros, apenas lembrando bem os da minha adolescência; não aprecio a maioria das séries enlatadas americanas; e, sem estar certo de o conseguir sempre, há muito que aprendi a ligar mais ao valor das coisas que ao seu preço.

 

Se a vida me tivesse imposto a emigração como forma de abandonar a pobreza ou fazer uma carreira, e se tivesse escolha, os EUA não figurariam em nenhum dos dez primeiros lugares; e, se para fazer uma formação académica, surgisse uma oportunidade de a acabar numa instituição prestigiada americana, encararia o tempo passado naquele abominável país como um exílio.

 

Tudo isto, e mil coisas mais, está ainda no domínio do superficial. Mas não o está o lado puritano da sociedade americana, a sua religiosidade generalizada, a violência bárbara das suas instituições criminais e penais, o respeito acéfalo pela lei, qualquer lei, e pelas polícias, a obsessão com o crime, o castigo, o sexo e a moda, o grau de judicialização absurdo de todo o conflito trivial, e a importância excessiva da opinião pública, transportada com pouca mediação para o sistema de decisão política e judicial.

 

Ou seja, boa parte do que execro é o que muitos dos meus amigos admiram e, pior, gostariam de importar, que Deus lhes perdoe.

 

Porém: Foram os EUA que vieram salvar a Europa de si mesma, duas vezes no século passado; que nos protegeram, e ao nosso modo de vida, desde o pós-II guerra até à implosão da URSS; que nas ciências, incluindo as sociais,  e na tecnologia, têm liderado o mundo, apenas há pouco (desde que Deng Xiaoping renovou o comunismo pelo expediente de lhe manter o nome e as instituições enquanto instaurava o capitalismo) se adivinhando um rival; que na música, no entretenimento, na moda (eu uso blue jeans, essa é que é essa), no ensino, até na literatura (ou pelo menos na edição) e nas Artes, têm dominado. E, finalmente, que têm servido como um magneto para os deserdados do mundo, e para os cérebros sem futuro, que querem todos ir para lá.

 

Ou seja, eu não quereria ir; mas toda a gente quer.

 

Toda a gente quer porque lá há oportunidades; e em outros sítios não. Importa portanto perceber por que razão elas lá estão.

 

Os pais fundadores da América (John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison e George Washington) pertenciam à elite dos colonos brancos. E nenhum deles ignorava a história da Europa, de cujos emigrantes eram descendentes, e menos ainda as razões porque os seus ascendentes europeus tinham emigrado. Quis o destino, e as circunstâncias, que fossem homens de excepção. E os ares do tempo, o mesmo que inspirou a Revolução Francesa, mas sem a carga das instituições do Velho Regime, das tradições e da vizinhança de países hostis, permitiram-lhes desenhar uma Constituição que acomodasse a liberdade religiosa, o laissez-faire na economia, o respeito da propriedade privada, o império da lei com a igualdade dos cidadãos perante ela, os direitos dos Estados federados e a separação dos três poderes.

 

Era boa, a Constituição. Tanto que, após a vaga inicial de 10 emendas, em 1791, apenas houve mais 17 (ou 16, porque uma emenda revogou outra), e o conjunto está ainda em vigor. O país era pródigo em riquezas naturais, como outros. Mas, ao contrário dos outros, não havia uma aristocracia hereditária, mas havia uma imensidão de terra para arrotear e explorar, já meia deserta dos locais que as infecções haviam dizimado (o que restava foi cristãmente exterminado ou acantonado em reservas), e a essa tarefa se dedicaram vagas sucessivas de emigrantes brancos, oriundos pela maior parte do Velho Continente, sobretudo Irlandeses, Ingleses, Escoceses, Italianos e outros. Tinham como denominador comum a língua, que quando não era o inglês aprendiam, as instituições, o respeito pelas tradições e cultura das diferentes comunidades, que era a única maneira de conviverem sem guerras, e o cristianismo, em múltiplas denominações mas sobretudo nas protestantes com sua a ética de trabalho.

 

Havia, sobretudo no Sul, negros, emigrantes forçados. E estes eram escravos, o tempo da sua libertação formal havia de vir mais tarde, com a Guerra Civil. O do seu reconhecimento como cidadãos na posse de plenos direitos ficaria já para os anos sessenta do séc. XX; a tentativa dos poderes públicos para, através de medidas de discriminação positiva, melhorar a condição social do negro, para as décadas seguintes; e o falhanço clamoroso dessas tentativas para os nossos dias.

 

Foi com a liberdade económica, o respeito da propriedade, o influxo de emigrantes ambiciosos e trabalhadores, susceptíveis de se integrarem, que o país cresceu e se tornou na primeira potência económica e militar no mundo. E quando, muitos anos mais tarde, o presidente Kennedy, especialista em frases sonoras e ocas, declarou no seu discurso inaugural: “And so, my fellow Americans: ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country” já na Europa se estava a enraizar um Estado Social onde os cidadãos são educados de pequeninos a pensar precisamente o oposto.

 

A eleição de Obama representou a ultrapassagem definitiva do racismo difuso, uma conquista civilizacional e um marco na história americana. Mas sendo a personagem, como era, o mais parecido com um socialista europeu que um presidente americano pode ser, deixou um rasto de intervencionismo na economia e de estatização da vida social (com o felizmente falhado Obamacare, por exemplo) que, se aprofundado, saparia a flexibilidade, a agressividade e o dinamismo da economia. Dito de outro modo: que anularia exactamente parte daquela diferença que faz que a América seja rica e poderosa, enquanto os seus vizinhos do Sul fornecem levas de emigrantes clandestinos oriundos de países onde a retórica oficial, e a prática política, são de justiça social, igualitarismo e estatismos sortidos.

 

O motto de Trump, “make America great again” não foi feito possivelmente a pensar em nada disto, mas antes no desequilíbrio comercial dos EUA com os seus parceiros comerciais, em particular a futura superpotência rival, o desemprego crónico de antigas cidades industriais em ruínas, a estagnação dos salários da classe média, o multilateralismo internacional das decisões que afrontam interesses americanos, e o sufocante newspeak a que se convencionou chamar discurso politicamente correcto.

 

Trumpista é agora um insulto, do qual, com bonomia do meu lado, tenho sido objecto na minha limitada esfera de conhecimentos e amizades. E o Donald dos tuítes torrenciais e contraditórios, do vocabulário limitado e primário, das reacções intempestivas, e do inacreditável mau gosto, decerto não ajuda quem não tenha uma posição de princípio contra a maioria das suas posições.

 

Sucede que, quando foi eleito, escrevi um texto que acabava assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim. E, se não for, também não perco o sono”.

 

Um ano depois, constatava que Trump, afinal, já tinha para apresentar uma lista de sucessos. E agora que está envolvido em duas guerras, uma comercial e outra para conservar o direito de selecionar os reforços do plantel americano, e impedir que os EUA se transformem num México em ponto grande, talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida. Porque, sendo certo que os políticos de esquerda costumam ser julgados pela bondade e superioridade das suas intenções, e abstraindo dos resultados quase sempre desastrosos, deveriam os de direita preocupar-se menos com questões adjectivas e mais com os resultados.

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publicado por José Meireles Graça às 23:32
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Maquineta avariada

A maquineta custou para cima de dois milhões de euros, era à época o último grito, os dois tipos que receberam formação para trabalhar com ela ficaram impressionados com a sofisticação do equipamento, os horários finlandeses e a merda da comida local.

 

Prudentemente, fizemos um seguro contra avarias. E, embora destas houvesse muitas, e a assistência se revelasse caríssima, abstivemo-nos de as reportar por caberem dentro da utilização e desgaste normais.

 

Até que, em 2013, catrapum, um badagaio total.

 

Veio o especialista e deu um veredicto, e um orçamento, desagradáveis: a coisa ficaria bem acima de 40.000 euros, mas só desmontando é que se podia apurar a extensão dos estragos, e tal operação implicava a deslocação de técnicos estrangeiros durante xis dias, a tanto por cabeça e dia, mais viagens.

 

Inteirada destes tristes sucessos, a companhia de seguros ligou o complicador: papeladas, relatórios, trocas de e-mails. E, após peritagem por um técnico que nomeou, informou que era necessário desmontar a máquina para apurar o custo real da reparação, que ao técnico em questão, que do assunto sabia sobretudo que tinha de agradar a quem o contratou, “parecia” estar orçamentado com manifesto exagero.

 

Informámos que a desmontagem custaria em si um montante elevado, constante aliás do orçamento que havíamos apresentado, e que entendíamos dever ser a seguradora a suportar tal custo; que não víamos nenhum inconveniente em que ela escolhesse outra firma, e não o representante da marca, para efectuar a reparação, desde que garantisse o resultado; e que o arrastar de pés que toda a indecisão nos estava a provocar ocasionava um prejuízo para o qual não deixaríamos de exigir indemnização.

 

Seguiu-se a troca da correspondência em língua de pau em que as companhias – as que conhecemos – estão especializadas. E em 2014 foi interposta a competente acção judicial, da qual não ouvimos mais falar até aí há pouco menos de um ano, quando o tribunal exigiu concretização dos prejuízos (tarefa aliás quase impossível, por razões que aqui não cabem).

 

Um dia chegou a notificação para toda a gente comparecer no passado dia 10 de Maio no tribunal. E lá se pediu às testemunhas, das quais a principal era um ex-trabalhador colocado na Itália, o sacrifício.

 

Da companhia veio um advogado simpático; ao nosso foram dadas instruções para aceitar, se lhe fosse proposto um acordo extrajudicial, um mínimo de determinado montante; e após rapidíssimas negociações foi acordada uma indemnização de 34.000,00 euros.

 

A juíza homologou o acordo, no qual a seguradora se comprometia a enviar “no prazo de 30 dias” um cheque daquele valor para “o escritório do “ilustre mandatário da autora”; o representante da empresa, que era este vosso criado, apôs a sua conceituada assinatura; a juíza sorriu: e todos, menos a senhora, fomos ao snack ali perto, debaixo de um sol radioso.

 

Fez-se justiça? A juíza achará decerto que sim, acaso não foram as partes que desistiram do conflito? O advogado da companhia achará decerto que sim, então a companhia não acabou por pagar muitíssimo menos do que teria pago se aceitasse a reclamação de há cinco anos, e os prejuízos, fora o que poupou em juros? O advogado da empresa achará decerto que sim, então não conseguiu uma indemnização de valor superior àquela que o cliente o havia autorizado a aceitar?

 

Eu acho que não, que não se fez justiça. Os juízes sobrecarregados apreciam acordos, que não dão trabalho, em lugar de sentenças, que dão; os advogados, que não querem desagradar aos juízes, porque não ganham nada com isso, também os preferem, se puderem evitar julgamentos; as companhias de seguros, cientes destes factos, especializaram-se em deixar seguir ao menor pretexto as coisas para tribunal, certas de que não correm quaisquer riscos reais, e só podem ganhar com tais práticas; e as empresas, como os cidadãos, sabem que um mau acordo é preferível a um julgamento de resultado incerto, e que os meios de que dispõe uma companhia de seguros, especializada nestas mascaradas, excedem quase sempre aqueles dos que as demandam.

 

Ao trigésimo dia chegou, não o prometido cheque, mas um recibo: só assinando recibos declarando que se recebeu o que não se recebeu, portanto emitindo um documento falso, é que as companhias pagam. E não pagam logo, é preciso levar o recibo a um sítio qualquer e esperar que façam uma transferência.

 

É claro que eu, se fosse juiz e pudesse deixar de o fazer, não homologaria um acordo que junta a prepotência ao abuso, e no mínimo informaria os senhores advogados que não eram precisos 30 dias, nem recibos falsos, nem assinaturas, nem chatices.

 

E é claro que existe uma entidade de supervisão das seguradoras à qual pode recorrer quem quer que, por ingenuidade, imagine que as entidades de supervisão supervisionam alguma coisa em Portugal. Mas a mesma experiência que leva os cidadãos prudentes a aceitar acordos injustos também aconselha a que não se perca tempo e recursos com entidades que existem para fingir que servem a celebrada defesa do consumidor.

publicado por José Meireles Graça às 16:27
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

Sucedâneo

Laurence J. Peter não estava, mas poderia estar, a pensar em Rui Rio quando inventou o princípio que leva o seu nome.

 

Rio foi um excepcional presidente de câmara, muito melhor do que quem o precedeu, quem veio a seguir e qualquer das nódoas que têm ocupado a mesma cadeira na capital, incluindo os dois velhacos que por lá passaram em estágio para a presidência da república um e para a chefia do PS e do governo, o outro.

 

Saneou as contas do município; hostilizou os bonzos da cultura, tratando com desprezo e arrogância a parasitagem dos subsídios; e pôs o capo local do futebol no lugar que a ele, e aos seus colegas dos outros dois grandes, naturalmente compete.

 

Fez isso ganhando eleições, com o que provou que não é preciso lisonjear nem a gente da cultura nem a do futebol nem a da comunicação social para o conseguir, desde que o eleitor acredite na seriedade de propósitos e na capacidade de os realizar. Convém ainda, para conseguir o primeiro mandato, que o antecessor não tenha caído no goto do munícipe, como era o caso no Porto de 2002.

 

Mas isso é nas eleições concelhias, nas nacionais outro galo canta: a quase totalidade dos eleitores depende, directa ou indirectamente, do Estado, para que este os sustente, lhes arredonde o fim do mês, ou lhes crave mais ou menos bandarilhas no lombo sofrido de contribuinte; e qualquer ignoto secretário de Estado tem mais poder no dedo mindinho para beneficiar ou prejudicar um grupo de cidadãos no país do que o senhor presidente da câmara, com o corpo todo, para fazer o mesmo num município.

 

No tempo já decorrido desde que Rio tomou conta do PSD quem tinha ilusões perdeu-as: o homem tem como ambição atrelar o PSD ao PS, com o meritório propósito de afastar da governação os pés comunista e demente do tripé geringôncico; e conta com os seus quadros, e a sua reputação de seriedade e de apreciador de contas à moda do Porto, para fazer um segundo lugar honroso numa coligação centrista, e ganhar créditos para um primeiro nas eleições seguintes.

 

É pelo menos o que diz gente subtil. Sucede que mesmo que o PSD não fosse, como sempre foi, um saco de gatos dos quais uma parte, a melhor, tem anticorpos anti-PS; mesmo que na giga-joga da baixa política Costa não fosse um cinturão negro, contrastando com a alvura do de Rio: o país não pode ter esperança de romper com a situação deprimente da sua dependência dos juros artificiais que o BCE garante, da sua dívida pública que resiste tenazmente a qualquer redução sustentada, do seu Estado que não se reforma e faz a economia crescer poucochinho, não obstante o bodo dos fundos europeus e a sorte grande do turismo, enquanto o PS, e o resto da esquerda, não fizerem um estágio na oposição de pelo menos dois mandatos, e idealmente uma geração. 

 

Resumamos: o PS é parte do problema, não da solução. E portanto é errada qualquer estratégia de contemporização, Rio é um líder a prazo, e quem não for socialista de raiz, ou não comprar o paleio demagógico do virar a página da austeridade e o resto da propaganda com que o PS pinta de cor de rosa a dança do país à beira do abismo pode fazer melhor do que abster-se, e votar no CDS.

 

Entretanto, não vem mal ao mundo se Rio se lembrar de acertar uma, e foi esse o caso com o estudo “Uma política para a infância”. O texto não chega a 90 páginas e o palavreado escusava de ser em oficialês, mas tem gráficos que o aligeiram e não escamoteia mas pelo contrário ilustra convincentemente a bomba-relógio demográfica em que nos deixamos acantonar.

 

Tencionava comentar o documento medida a medida e abalancei-me, Deus me perdoe, a ir lá atrás ver o abono de família, o digno avô dos apoios aos pais com filhos – convém ter uma perspectiva histórica para tudo. E encontrei um precioso estudo, de 2009, de um Gabinete de História Económica e Social, que se lê bem e desfaz algumas ideias feitas sobre o assunto, a começar pela data do primeiro  abono – 1942. Mas entretanto calhou ler nesta notícia do Eco que “o financiamento deste projeto acontecerá por via de ganhos de eficiência no sistema de educação até porque ‘as crianças que têm um bom início têm uma menor probabilidade de repetir o ano”; e pouco depois, nesta notícia do Observador, o próprio Rio esclarece que não faz a menor ideia de onde vai buscar os 500 ou 600 milhões de euros que a coisa custa por ano.

 

E perdi a vontade de sequer pensar muito no assunto. Porque o problema do inverno demográfico é grave e merece estudo e medidas. Mas o do endividamento do país ainda é mais e prometer às pessoas resolver seja que problema for sem o casar com os constrangimentos da dívida é transformar as eleições em leilões de bens emprestados.

 

De resto, como os prometidos apoios são até aos 18 anos de idade, conviria ter a certeza de que o país não vai falir pela quarta vez nesse período, porque das anteriores o Estado não hesitou em cortar no que se estimava adquirido, via inflação nas duas primeiras e via cortes propriamente ditos na última.

 

Ora, para fazer leilões de bens furtados, como é o caso quando se prometem coisas a uns e se agravam impostos a outros; e para acrescentar à moscambilha bens a crédito, suposto que haja quem o conceda, já temos o PS, que é o artigo genuíno. Não precisamos de um sucedâneo.

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publicado por José Meireles Graça às 19:27
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Domingo, 6 de Maio de 2018

O cartaz

Irene-02.jpg

 

O cartaz criou uma tal comoção que durante quase dois dias milhares de pessoas o viram nas redes sociais; nas caixas de comentários dos jornais que o reproduziram uma quantidade de leitores insultou a moça com excesso de maiúsculas, pontos de exclamação e vernáculo, e défice de gramática, enquanto outros a defendiam com arreganho e as mesmas armas; e, consagração suprema, Pacheco Pereira requisitou a papeleta para a acrescentar, supõe-se que em lugar de destaque, ao depósito onde mistura algumas coisas úteis com quantidades prodigiosas de lixo, na biblioteca de Alexandria das irrelevâncias que designa como Ephemera.

 

Os dizeres, que mereceriam ser vertidos em bronze numa qualquer escultura pós-moderna instalada numa rotunda de um concelho progressista, eram os seguintes: “Farta até a cona de gerar a mais-valia dos homens. Trabalho reprodutivo sustenta o capital.”

 

Isto é forte, mas infelizmente não se percebe: até à cona porquê? Não deveria ser até à ponta dos cabelos, como está consagrado para significar que se quer ir de um extremo a outro? Porquê parar a meio, como se estivesse com as pernas fresquíssimas mas a cabeça, o tronco e os braços moídos, ou estes em estado de grande vigor mas as pernas num molho?

 

Leitores incautos como eu imaginaram que a azougada e simpática gorduchinha estivesse a falar de prostituição, e a identificasse com a mais-valia da satisfação sexual egoísta dos homens, aparecendo a reprodução e o capital no texto porque realmente não se pode negar que as putas não trabalham de graça, nem que, sem conas, não há partos e por conseguinte reprodução.

 

Raciocínio retorcido e altamente insatisfatório, decerto. Mas, que diabo, são vinte e dois aninhos de idade, é a geração mais bem formada de sempre, e no contexto do 1º de Maio e daquela boa gente festiva e demente do Bloco, querer senso e ideias escorreitas seria uma exigência despropositada.

 

Engano meu. Que, tropeçando por acaso nesta entrevista, fiquei a saber que as amigas da rapariga, que é espanhola, a ajudaram a traduzir os dizeres; que, ignorantezinhas como são, imaginaram que nestas praias onde a modernidade chega com atraso toda a gente soubesse que trabalho reprodutivo significa, no dialecto da seita, maternidade; e que há mercado para a ideia de que deve haver um salário para a reprodução biológica, mas também outras actividades como “cuidar das crianças, de quem está doente, limpar, lavar, cozinhar”. “Tudo isso é trabalho necessário para que sejamos indivíduos produtivos social e economicamente”. É por isso, conclui a activista, que este tipo de encargos “sustenta o capital”.

 

Temos então que os capitalistas, investindo, criam riqueza apenas para si, donde a sua existência é meramente parasitária; que os maridos, ou pais, não contribuem suficientemente para a educação e sustento da prole, mesmo que sejam trabalhadores por conta de outrem, razão pela qual se têm de ir buscar recursos a outro lado, e esse é o do capital; e que os capitalistas, a somar às suas outras perversões, têm a de esperar pela calada e traiçoeiramente que as mulheres tenham filhos com o inconfessado propósito de, logo que bem nutridos e tratados, os explorarem impiedosamente.

 

Donde virá o salário que as mulheres com filhos devem auferir Irene não diz, e o jornalista esqueceu-se de esclarecer esse detalhe, assim como ficamos sem saber qual o montante justo de semelhante retribuição, se será proporcional ao número de filhos, se não haverá diferenciação consoante a qualidade reprodutiva das futuras mães, e outros pormenores do maior relevo. Mas o assunto haverá de entrar na ordem do dia, visto que há em Lisboa uma organização, a Assembleia Feminista daquela localidade, que se encarrega de promover esta e outras causas femininas e sociais; assim como existe inclusive um organismo europeu, o Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE) que esclarece as massas sobre o que se deve entender por trabalho reprodutivo.

 

Sempre a aprender. Se bem que a activista Irene diga que “isso a que chamam amor é trabalho não pago”. Julgava, ingenuamente, que trabalho de amor pago era o das, com licença, putas.

 

E só não me junto ao coro dos indignados que assim a trataram porque não tive, mas podia ter tido, uma filha assim voluntariosa, gordinha, blocazinha e patetinha. E, se a tivesse tido, veria estes dislates com a mesma ternura que suponho aos pais dos moços do Maio de 68, que se anda a celebrar: não lhes cortaram a mesada; sorriram às proclamações, aos desacatos, aos paralelepípedos levantados das ruas, e às abundantes libações. Sabendo que, um mês volvido, tudo ficaria na mesma, logo que os calceteiros consertassem os pavimentos e os lixeiros removessem as garrafas vazias.

publicado por José Meireles Graça às 17:51
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Terça-feira, 10 de Abril de 2018

A bola é redonda

Tem sido no facebook um sem-fim de piadas foleiras sobre o Beppe Grillo do Sporting, para o qual tenho dado com gosto o meu contributo. Bruno de Carvalho terá como dirigente desportivo bastantes qualidades e pessoalmente muitas, mas como figura pública tem uma que sobreleva as demais, que consiste em ser um cómico involuntário, a variedade que dá mais vontade de rir. O homem julga que aquele mundo da bola, em que vive, tem mais importância do que o Serviço Nacional de Saúde; o Sporting mais do que a Autoridade Tributária ou a Santa Casa; ele mais do que o procurador-geral da República; e as tricas em que não cessa de se enredar mais do que os sarilhos de que Trump não se consegue libertar.

 

Queria, o pobre, reformar o futebol, um mundo tradicionalmente corrupto, como se isso estivesse ao alcance de um chefe de claque, uma contradição tão patente como a de um comunista querer assegurar a liberdade de expressão para não-comunistas.

 

Não conseguiu, nem podia. A corrupção no futebol existe porque satisfaz necessidades: vende horas intermináveis de debate e a notoriedade de não-pessoas que, sem isso, seriam anónimas, além de quantidades invejáveis de jornais desportivos que sustentam uma miríade de jornalistas; engrandece dirigentes, que adquirem o estatuto equívoco de Al Capones de trazer por casa, porque se se desse o caso de serem sérios seriam trucidados como ingénuos; unta as mãos e alimenta as carreiras de figuras obscuras de empresários e facilitadores, quando não os próprios dirigentes; fornece uma desculpa, e confortáveis sentimentos de auto-compaixão, às massas de fãs de clubes menores, que não veem a caterva de jogadores preguiçosos e ineptos que recheiam o plantel da equipa da terra mas veem, porque para não ver precisavam de ser cegos, as arbitragens tendenciosas em favor dos três grandes; e reforça o sentimento tribal de pertença a um dos três clubes que inclinam tradicionalmente o campo a seu favor, e que por serem os com maiores recursos discutem entre si o campeonato, atribuindo-se a vitória a um deles consoante o sucesso das manobras que nos bastidores garantem em certas épocas árbitros amigos.

 

Previsivelmente, sportinguistas que noutras áreas da vida se portam com um módico de gravidade reagem como os católicos fanáticos quando se lhes goza o Papa, os economistas quando se lhes discute a ciência e as feministas quando se lhes põem reservas às quotas: ficam possessos. Um amigo, cordato e civilizado, destratou-me por ter dito, no Facebook, que

 

Os sócios do Sporting são cómicos: queixam-se da demência do demente que elegeram. Os socialistas que reelegeram Sócrates também se queixam da desonestidade dos políticos.

 

Não faz mal: uma das razões porque os adeptos vão ao futebol é porque nos estádios se podem comportar como selvagens, que ninguém leva a mal. E a paixão clubista, bem vistas as coisas, é uma desculpa muito melhor do que outras para a malcriadez: seria decerto um consolo saber, quando Costa insulta Cristas no Parlamento, que o faz por ser do Benfica, e não pela razão chã de ser simplesmente grosseiro e mal-educado.

 

Terei pena se Bruno for embora: o homem é o bruto mais simpático que conheço e escasseiam, no nosso país onde crianças cancerosas recebem quimioterapia em corredores gelados, motivos de galhofa. E a única consolação, e esperança, é que se fala, para o substituir, do bombeiro Marta, homem com a truculência bastante, o verbo inspirado e a grosseria q.b. para fazerem um digno sucessor. Milita a favor deste candidato ainda o facto de, sobre a sua especialidade, que são incêndios, não dizer praticamente senão asneiras, donde talvez os sportinguistas concluam que, de futebol, é capaz de entender alguma coisa.

publicado por José Meireles Graça às 22:52
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