Quinta-feira, 4 de Abril de 2019

Cavaquistão revisitado

Anteontem, por ocasião do lançamento de um livro de Joaquim Miranda Sarmento sobre finanças públicas, Cavaco Silva emergiu das catacumbas onde se entretém a redigir tomos ilegíveis sobre as maravilhas da sua pessoa e acção política, e falou.

 

Disse várias coisas, e das que disse saliento: "Como se tem vindo a verificar, a prática de 'jobs for the boys' é muito negativa para o país e para os portugueses”; “O actual leque salarial da função pública, que no passado se apelidava de albanês, é bem reflexo da hipocrisia e cobardia de boa parte da classe política portuguesa"; “O saldo das contas públicas tal como o das contas externas não é objeto da política económica em si próprio (...) Não faz qualquer sentido que o saldo das contas públicas continue a ser um tema dominante da política orçamental portuguesa"; "Não posso deixar de ligar a perda de receita com a descida do IVA da restauração à acentuada degradação da qualidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O benefício concedido ao setor da restauração está a ser pago pelos utentes do SNS sob forma de degradação da qualidade dos serviços que lhes são prestados, utentes que não dispõem de rendimentos para recorrer aos privados". “A esta medida, o antigo governante associou também a descida das 40 para as 35 horas de trabalho semanal para os trabalhadores do setor da saúde, para concluir: ‘É assim claro que a degradação dos serviços públicos da saúde se deve a decisões políticas erradas tomadas, provavelmente, com propósitos eleitoralistas"; e “Estas medidas de profunda injustiça, atingindo sobretudo cidadão de baixos rendimentos, foram aprovadas não só pelo PS, mas também pelo PCP e pelo BE, o que ilustra bem a hipocrisia de partidos que procuram iludir os portugueses com falsos discursos de defesa dos mais desfavorecidos".

 

Isto disse, e tenho-me divertido com o frenesim que tomou conta dos jornais e das redes sociais, os primeiros porque estão enxundiados de esquerdistas sortidos e as segundas porque lá mora gente que nutre pelo homem o mesmo ódio visceral que vota a Portas, a Passos Coelho, e a quem quer que seja que não reze no altar do abrilismo socialista, nas suas várias capelas, e que tenha tido o desplante contranatura de governar.

 

A máquina socialista mexeu-se. E hoje o Polígrafo (uma organização que, em números redondos, tem acertado no que já se sabia e omitido ou manipulado aquilo que mais interessava esclarecer), pressuroso, estadeia uma capa do Independente de 7 de Fevereiro de 1992 onde se denunciam as quinze mulheres que quando Cavaco era PM foram nomeadas para lugares de confiança política. E diz, com fina ironia: “Ora, se agora Cavaco repugna os ‘jobs for the boys’, no tempo em governou não se opunha aos ‘jobs for the girls”. Foi pena não acrescentar que a nomeação de todo este mulherio era bem o sintoma de fortes sentimentos feministas avant la lettre, que era para a gente se rir com vontade.

 

Claro que há uma diferença de grau e de essência entre o passado e o presente: quinze não são quarenta ou cinquenta; e ministros pai e filha, e marido e mulher, não são meras secretárias ou adjuntas de não sei quê. O PS de Sócrates, cujo pessoal foi quase integralmente recuperado pelo PS de Costa, é o partido corrupto por antonomásia, e esta colonização gargantuesca do aparelho de Estado é o corolário lógico da impunidade com que o eleitorado, anestesiado pela propaganda e por esmolas, brinda os abusos.

 

Hoje por hoje, Cavaco conta com a minha benevolência: quem põe a esquerda a rabiar, e denuncia o evidente oportunismo do PCP e do Bloco com a autoridade de quem ganhou e reganhou eleições, e além disso fez o que pôde para impedir o ascenso da camarilha golpista que acaparou o poder, tem direito a que eu ponha uma surdina nas reservas.

 

Porque, se não, tinha que dizer:

 

Só se poderia ligar a redução do IVA para a restauração à degradação do SNS se as receitas daquele imposto estivessem afectas àquele Serviço. Mas não estão, nem podem estar, porque isso ofenderia o princípio de não consignação de receitas fiscais. E mesmo que, na realidade, a medida de redução tenha sido demagógica, por corresponder apenas a uma promessa eleitoral para ganhar votos, e não se justificar a discriminação positiva do sector restaurador, nada impedia que houvesse cortes de despesas inúteis do Estado. Cavaco, nisso, não fala, nem pode: o seu magistério sempre assentou no pressuposto de que o Estado obeso, investidor, dirigista, dinamizador e visionário, é a pedra de toque do progresso.

 

Agora que o PS, por obediência aos ditames de Bruxelas e medo dos credores e da quarta falência, se reconciliou com a ideia do défice zero, talvez deixe de fazer sentido que o saldo das contas públicas continue a ser um tema da política orçamental. Mas é irrealista esperar que o único resultado realmente positivo que o PS pode apresentar – a redução do défice – deixe de ser objecto de propaganda. É certo que o país nunca crescerá mais do que aqueles que lhe estão mais próximos no PIB por cabeça sem reduções da carga fiscal; e estas só são possíveis com défice ou cortes. Mas ao défice Cavaco diz, e bem, t’arrenego; e dos cortes não fala, mas é pena.

 

Finalmente, e quanto “à hipocrisia e cobardia de boa parte da classe política portuguesa”, talvez Cavaco pudesse ter a bondade de explicar onde estão os recursos para pagar adequadamente aos seus estimados funcionários superiores sem emagrecer a máquina. Mas não explica: será por hipocrisia e cobardia?

publicado por José Meireles Graça às 22:28
link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 26 de Março de 2019

Lendas do sul

Uma lenda persistente corre em Lisboa: no Norte é que se come bem!

 

No Norte ninguém diz que em Lisboa é que se come bem. Mas não falta quem, no Norte, tenha pela cozinha alentejana um fraco, e o Alentejo, como é geralmente sabido, fica a sul – ao menos a sul de Lisboa, e, já se vê, do Norte.

 

Donde, não seria má ideia entendermo-nos sobre o que é “comer bem”, a ver se percebemos se isso tem ou não a ver com pontos cardeais.

 

Ponhamos de lado a cozinha gourmet. Não só no Minho, ou Trás-os-Montes, ou nas outras províncias a norte, os restaurantes gourmet são raros (não tanto como desejaria, mas não é o meu propósito entreter-me a cascar nessa cozinha para desnacionais metidos a besta) como em Lisboa não faltam. Não, não é de cozinha conceptual que está a falar, quem fala, quando gaba o que se come cá por cima.

 

Do que está a falar é de tradição. E é verdade que em Bragança, ou Fafe, ou Vila Real, ou Braga, ou Porto, inúmeros outros locais, se encontram restaurantes (mas não para quem apenas procura sem perguntar a quem saiba) onde se cozinha como se cozinhava dantes, sem estados de alma, sem teorias, sem marketing, sem recomendações de jornais e sem ambições de enriquecer, que o negócio só não é modesto precisamente para quem é levado no andor da publicidade dos gastrónomos com coluna nos semanários e, frequentemente, sem a outra coluna, a vertebral, o que os leva a aceitar a oferta da refeição a troco de crítica favorável.

 

O respeito da tradição, e o respeito das regras da arte, chegam se estivermos a falar de comer bem. Não chegam se estivermos a falar de templos da comida. Porque uma coisa é um cozido à portuguesa, dos vários que existem consoante as regiões, com, por exemplo, o muito sanitário porco do supermercado e outra o mesmo cozido com porco criado a lavadura ilegal e morto ilegalmente por processos que arrepiam os votantes do PAN e os apreciadores de animais fofos; uma coisa é uma comum salada com vinagre comum e outra a mesma salada com vinagre feito em casa; assim como o arroz de pica-no-chão criado em explorações, mesmo que com alimentação sã, não é  mesma coisa que o mesmo arroz com animal criado em semi-liberdade e cevado a farelo e couve. Ou seja, boa parte da alta cozinha não mora na cabeça de criadores, mas em práticas que a vida moderna tornou obsoletas, a legislação ilegais e as polícias do gosto higienizado clandestinas.

 

Mas – lamento desiludir os lisboetas – em Lisboa também se come bem. Não no sentido de restaurantes genuinamente de quinta, ou que lá se abastecem, que de todo o modo são raríssimos em qualquer lado e que naquelas partes suspeito que talvez existam mas não conheço. Mas no sentido de comida despretensiosa mas feita com competência e artigos frescos. Caro, é certo, mas em Lisboa a vida está cara.

 

No fim de semana passado fui a Lisboa para a apresentação do Movimento 5.7. Casa cheia, organização competente, discursos oportunos e bem engendrados de três declinações diferentes da direita, assistência entusiasta de gente cansada do socialismo sufocante em que vivemos.

 

Depois, fui a uma cervejaria. Ninguém em seu juízo se lembra de gabar as  cervejarias onde se come marisco decente e pratos de snack tradicional (tradicional sim, a cervejaria é o fast-food avant-la-lettre e é preciso ser adolescente, autêntico ou retardado, e ter acne, para lhe preferir as batatas fritas pré-congeladas e a carne mastigada que se serve nos McDonald’s do nosso descontentamento). As ostras eram excelentes. E o pica-pau (à antiga, dizia a lista) era feito com lombo macio e saboroso, com o molho que a casa recomenda e que, aposto, é o mesmo há décadas. Um lisboeta murmurou: não é como em Matosinhos, mas não está mal! Não estava mal, de facto, e ainda bem que em Matosinhos não é bem assim – não há nenhuma razão para que cada terra não cultive a sua diferença.

 

No dia seguinte, fui almoçar a um restaurante popular (popular na amesendação e na frequência – uma cliente estava vestida com o equipamento do Benfica, que Deus lhe perdoe – mas os preços eram um pouco salgados) e vieram para a mesa ostras, um arroz de lingueirão, linguadinhos fritos com açorda e jaquinzinhos fritos. Tudo fresquíssimo, confecção canónica.

 

Então, em que ficamos? Por que carga d’água os locais, que veem facilmente na cidade superioridades que não existem, e que tendem a ser, mais vezes sim do que não, terrivelmente paroquiais, desconfiam dos seus estabelecimentos?

 

A meu ver, a multiplicação absurda de restaurantes para servir o turista, servindo o lixo a que se convencionou chamar cozinha internacional; mais o falso rústico e o falso tradicional, fundado por gente empreendedora que de comer sabe pouco e de cozinhar ainda menos; as cadeias internacionais que chegam com conceitos;  a prodigiosa quantidade de textos, programas de televisão, notícias em torno do tema da restauração, opiniões de nutricionistas, entendidos, amadores e especialistas:

 

Tudo concorreu para este sentimento de que é necessário regressar à autenticidade. E como lá no Norte está o campo, e a gente que diz palavrões, e esse povo que não é moderno, nem cosmopolita, nem socialista, tem que estar, fatalmente, a boa cozinha.

 

Fantasias. Que de socialistas há avonde, isso é praga que aterrou no país todo, mas boas cozinhas nem por isso. Salvo se, já se vê, inquirirem junto deste vosso criado, que todavia também em Lisboa começa a estar habilitado a ministrar conselhos.

publicado por José Meireles Graça às 15:13
link do post | comentar
Terça-feira, 19 de Março de 2019

Marcelo

A Marcelo chamei, no facebook, um “básico”. Uma boa amiga (feminista, das que me restam – algumas, mais radicais, já me puseram a um canto, sob a cominação de “machista”) discordou, achando que ele, de básico, não tem nada.

 

Não tem, de facto. O escrever à flor dos dedos nem sempre propicia a melhor escolha das palavras.

 

Pior: outras pessoas cuja opinião respeito, e que ademais conheceram o homem pessoalmente, descrevem-no como “brilhante”.

 

À minha amiga, que não me comprou o discurso, respondi como segue. E como ninguém duvida de que Marcelo se vai recandidatar, e que a recandidatura será um passeio, parece-me a altura boa para me repetir e explicar como vejo a peça. Razões por que, além de um perverso gosto meio masoquista de me ver isolado na opinião, aqui vai:

 

Marcelo sempre me pareceu um equívoco: não tem, numa vida de escrita e de magistrado da opinião, um dito original, uma frase ou pensamento que não seja uma cedência ao ar do tempo, uma recomendação de um livro que valha a pena porque provavelmente nunca leu senão badanas ou best-sellers; não tem sobre o país, a UE e o mundo senão ideias comuns a qualquer medíocre recém-licenciado em relações internacionais; e o brilhantismo que se lhe reconhece em táctica política decorre da manipulação, em que é mestre, e do faro político para lhe permitir cambalhotas com validade a seis meses. É brilhante - um brilho de lantejoulas. E a sua simpatia, que se toma por natural, não é mais do que um expediente de angariação da admiração de multidões beatas para lhe lisonjear o ego desmedido - quem gosta de toda a gente não gosta de ninguém. A ideia que tem da estabilidade é que é um fim em si e não um meio, porque não sabe para quê. Não é comunista, é crente (provavelmente para garantir a salvação, que aquela peça não dá ponto sem nó) e daria um bom rei constitucional. É um péssimo presidente e deixará, provavelmente, boa memória, como deixam frequentemente os bons vendedores de banha da cobra que não foram descobertos.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 21:14
link do post | comentar | ver comentários (3)
Quarta-feira, 13 de Março de 2019

In memoriam

Fui hoje à terra do meu avô paterno, para o enterro de uma filha dele. Morte devida há muito, que uma doença debilitante e dolorosa tinha transformado a vida num calvário, todavia suportado com um estoicismo, suspeito, alimentado a fé.

 

Era uma tia que tomou conta de mim num tempo que não lembro, por ser muito novinho. E contou-me, já muito doente e acamada, que o bebé, desde que lhe enchessem adequadamente o bandulho e estivesse seco, queria era dormir, embalado pela camioneta em que se fazia o traslado de uma aldeia para outra, cujas passageiras miravam com encanto o sossego do anjinho, espantadas, parece, com as longas pestanas que eram o enlevo dela.

 

Isto me disse de mão dada comigo, a voz já fraca, imensamente contente pela minha rara visita.

 

Não sei o que foi feito das pestanas e receio que o sono nem sempre seja tão descansado como, a acreditar na história, já foi.

 

Tivesse eu a mesma fé, e a mesma tranquila generosidade que a levou a servir os outros toda a vida – o marido, a filha, o irmão, meu Pai, que assistiu nos últimos meses de vida, e estaria certo de que do lado de lá encontraria as palavras certas para lhe agradecer, se do lado de lá ainda é preciso falar.

 

E daí talvez não, a não ser com uma licença especial. Que se no Além houver a justiça que neste falha, não estaríamos decerto no mesmo lugar.

 

Adeus, tia Fernanda.

publicado por José Meireles Graça às 16:44
link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019

Desserviço Nacional de Saúde

O Serviço Nacional de Saúde é um sucesso socialista: foi concebido como sendo universal e tendencialmente gratuito, carácter que lhe vinha da Constituição (artº 64º).

 

Foi um triunfo, nos anos iniciais, ao melhorarem-se espectacularmente os indicadores de mortalidade infantil e esperança de vida, entre muitos outros, mesmo que a evolução científica e tecnológica, além de progressos no saneamento e nos hábitos de higiene, também tenham desempenhado o seu papel, habitualmente desconsiderado.

 

Na comparação com outros países, que é a que interessa quando se quer medir o desempenho, bastará dizer que Portugal, no indicador esperança de vida, ocupava em 2017 o 22º lugar em 201 países, à frente por exemplo da Alemanha, Dinamarca ou Reino Unido. É obra: só no futebol, e mesmo assim apenas enquanto Ronaldo não esgotar o prazo de validade, é que o nosso país se afasta do lugar que lhe cabe na hierarquia dos países medida em PIB por cabeça, onde aqueles três países estão naturalmente muito à frente de nós.

 

A Constituição poderá ser socialista deliberadamente, e a maioria dos cidadãos inconscientemente, mas o sector privado da Saúde nunca deixou de existir e crescer. Isso explica que o clamor que de há uns anos a esta parte tem vindo em crescendo contra o SNS não tenha o carácter explosivo que teria sem os privados: estes amortecem, para quem tenha seguros ou sistemas particulares como a ADSE ou os SAMS e muitos outros, as consequências da degradação,  obsolescência e esgotamento dos estabelecimentos de propriedade pública e os seus crescentes e desumanos prazos, falhanços e insuficiências.

 

Nada que surpreenda: o socialismo acaba, como se sabe, quando acaba o dinheiro dos outros. E como o establishment interiorizou finalmente que défices não, e intui que não pode continuar a aumentar a ordenha da vaca leiteira dos impostos indirectos, sob pena de o eleitor se aperceber que está a ser sangrado em vida, há um grande mal-estar. Daí a guerra com a ADSE e as greves cirúrgicas dos enfermeiros: o Poder não pode ceder porque não tem dinheiro para ceder; e a tentação cresce de demonizar os privados e tachar os trabalhadores públicos de serventuários de interesses obscuros.

 

O jornalismo, como é vulgar em situações de crise, vai colher a opinião dos senadores, e estes são entre nós, quase sempre, gente que caucionou durante décadas o tipo de políticas que na economia, na saúde, na justiça e no resto, nos trouxeram à condição, para a qual caminhamos velozmente, de lanterna-vermelha da Europa.

 

Constantino Sakellarides é um desses: fala muito e imprecisamente, e não tem na realidade nenhuma ideia nova sobre a forma de resolver os problemas com que se defronta o SNS: mais orçamento, mais isto e mais aquilo e mais senso – o dele – com menos reivindicações, esta a receita que ministra, envolta em frases evasivas e enigmáticas.

 

Confesso: Desmontar o chorrilho de meias verdades, equívocos, vacuidades e imprecisões da entrevista seria como andar à paulada a gambozinos no meio do nevoeiro. Dispenso-me.

 

Num ponto, porém, foi clara: o jornalista quis saber o que pensava Constantino do que disse Rui Ramos no Observador, onde se referia “a uma ideologia do SNS que teria ódio ao negócio da saúde e uma velha obsessão do socialismo com a estatização dos setores básicos da economia”.

 

O que Rui Ramos disse só não é um truísmo porque em Portugal, infelizmente, nem os factos contrariam as crenças esquerdistas. Pois o velho senador riu, e declarou:

 

É difícil encontrar tanto preconceito numa só frase! As pessoas não conhecem a história da saúde, não conhecem porque é que com a Revolução Industrial nós tivemos segurança social, porque é que a segurança social nos países mais avançados evoluiu de uma certa forma e nos países do sul da Europa evoluiu de uma forma diferente. O SNS não foi uma pessoa que num dia se sentou e disse ‘temos de ter um Serviço Nacional de Saúde’. Não foi um pecador que numa noite de desvario se sentou e criou um monstro. Isso que me leu, tenho pena que tenha sido escrito por uma pessoa com um background académico”.

 

Fantástico: as universidades, hoje e desde há poucas décadas, são mais vezes sim do que não coios de lunáticos e marxistas reciclados em engenheiros de costumes e magos da economia vudu, mas nem todas nem todos ꟷ Rui Ramos não faz parte da seita. Mas é historiador, e isso dá vontade de rir a Sakellarides, que é “professor” de políticas e administração de saúde, tem uma extensa carreira como funcionário do que está e julga conhecer bem a história da segurança social, provavelmente porque tresleu sobre o assunto meia dúzia de livros de autores suspeitos.

 

Não há outra gente? Há, claro. Mas não são de esquerda, e a nossa tragédia é esta: continuamos a querer resolver problemas com quem faz parte deles.

publicado por José Meireles Graça às 19:45
link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Greve ao senso

Nos regimes comunistas não há greves. No sector privado não porque não há sector privado; e no público também não porque estando o povo trabalhador no poder o trabalhador propriamente dito não pode fazer greve contra si mesmo. Impecável lógica. Daí que, quando há tentativas de greves os inspiradores e aderentes acabem invariavelmente num qualquer gulag. Se não for assim o regime acaba, como acabou na Polónia de Jaruzelski quando o Pacto de Varsóvia já abria fendas por todos os lados e o Solidariedade andava por lá a arreganhar os dentes.

 

O povo em Portugal está no poder mas poucochinho, através do PCP e do BE, e portanto ainda há a possibilidade de greves. Na realidade, como reconhece candidamente este antigo fanático comunista, e actual fanático socialista e europeísta, referindo-se à greve cirúrgica dos enfermeiros:

 

(i) no caso dos serviços públicos, os trabalhadores não correm o risco de as suas greves porem em causa a sua existência e os seus próprios postos de trabalho, como sucede nas empresas privadas, sabendo que o Estado não pode encerrar os serviços públicos e despedir o pessoal; (ii) como as greves nos serviços públicos afetam maciçamente os respetivos utentes, em especial os de menores rendimentos, os governos veem-se muitas vezes forçados a ceder às reivindicações, mesmo que elas sejam despropositadas e orçamentalmente ruinosas”.

 

Tem razão. Sucede porém que quem ouvir os enfermeiros não acha as reivindicações despropositadas. E mesmo que não se compre o argumento da bastonária de que o governo não cede aos enfermeiros mas cede aos bancos (um assunto que dá pano para mangas mas do qual não me vou ocupar aqui) resta que os enfermeiros apenas usam contra o governo a sua própria retórica do virar a página da austeridade. A austeridade não acabou, como se sabe, apenas foi substituída pela loucura da redução de cinco horas do horário semanal, umas reversões aqui e ali, um aumento de taxas e de receitas induzidas pela diminuição do desemprego e pelo pálido crescimento económico, e uma intensa barragem de propaganda enquanto o nosso Ronaldo das Finanças se assegurava com mão férrea de que os orçamentos aprovados pela maioria geringonceira eram desrespeitados a benefício da redução do défice – o diagnóstico anda aí pela pena dos economistas sérios, uma raridade na Academia e nos jornais.

 

Então, que propõe o preclaro jurista coimbrão? A reversão do horário das 35 horas para as 40, em nome da igualdade entre o sector público e o privado, e que se lixem os sindicatos e a bastonária? A cedência, mesmo que negociada, e que se lixe o défice? A mesma cedência mas compensada com cortes na despesa pública, a indicar?

 

Não. A criação de um regime diferente para os sindicatos da função pública. E Vital não pega na coisa, como dizem os franceses, com as costas da colher:

 

“Sem pôr em causa substantivamente o direito à greve, há margem, por exemplo, para maior antecedência do pré-aviso, limites à duração das greves, interdição de greves parciais (como a greve às cirurgias), comunicação individual prévia dos trabalhadores que vão fazer greve (para permitir aos serviços adaptarem-se às greves). Além disso, pertencendo o direito à greve diretamente aos trabalhadores e não aos sindicatos, é de equacionar a hipótese de a declaração de greve sindical só abranger os seus próprios associados, tornando necessário um referendo em cada estabelecimento público para habilitar os demais trabalhadores a fazer greve.

 

Eh lá, gosto disto. E eu acrescentava a obrigatoriedade de o referendo ser em escrutínio secreto, mas mesmo sem isso já arremato. Somente, ao contrário de Vital, não quero os trabalhadores públicos com menos direitos, no âmbito do uso da bomba de neutrões que a greve é, do que os do sector privado, razão pela qual estas alterações, a fazerem-se, deveriam ser para todos os trabalhadores.

 

Mas é claro que para todos os trabalhadores não pode ser porque valha-me Deus, as conquistas de Abril, a Constituição e não sei quê. Nem para os públicos, aliás, até agora: nenhum socialista se lembraria de uma tal revolução se a greve dos enfermeiros não tivesse vindo pôr a nu que, como ainda não temos um regime comunista, das duas uma: ou se limitam severamente as greves no sector público ou se privilegiam as PPPs da Saúde, e se generaliza a ADSE, de forma a que uma greve não possa paralisar uma parte esmagadora da prestação de cuidados de saúde por estes não serem prestados, como deviam, pelo sector privado em múltiplos estabelecimentos.

 

Não fui eu quem concebeu o SNS, nem sou eu quem o defende com a configuração que tem. Mas é uma saborosa ironia que um socialista de impecáveis credenciais venha defender o que sempre defenderam os comunistas: no público greves não; no privado sim, desde que não exista.

publicado por José Meireles Graça às 21:43
link do post | comentar
Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2019

Circulatura ou lá o que é

Maria João Avillez tem nome no jornalismo: entrevista há décadas meio mundo da política e escreveu abundantemente sobre os pais da pátria democrática. Invariavelmente, porém, perde um tempo infinito com a pequena história, porque não imagina outra. Podemos estar certos de que, se tivesse entrevistado Churchill, não quereria saber o que pensava ele do Império Britânico, do qual foi um tempo diligente soldado, e sua ruína, mas antes quantos charutos fumava por dia; e se Salazar, não sobre a herança futura de uma sociedade sem anticorpos para o esquerdismo, mas sim se era verdade a história do galinheiro em S. Bento a vender ovos para a vizinhança e se namorou ou não namorou realmente com Christine Garnier.

 

É uma fórmula de sucesso. Toda a gente quer conhecer a intimidade e as humanas fraquezas dos poderosos; e a poucos interessa o papel que cada notável desempenha no processo histórico, as consequências para a comunidade das escolhas que fez, e os paralelos com situações pretéritas.

 

Pois bem: há dias saiu no Observador uma entrevista com Lobo Xavier, o conhecido senador do comentariado, a propósito da transferência de canal do vetusto programa Quadratura do Círculo. E raras vezes uma tão completa e natural sintonia, entre entrevistado e entrevistador, se fez patente.

 

É impossível não gostar de Lobo Xavier, desde logo porque o próprio gosta de toda a gente, além de ser inalteravelmente cortês. Na entrevista, manifesta simpatia pelos colegas do programa, por Portas, Pires de Lima, Cristas, a nova geração do CDS, Francisco Mendes da Silva, Adolfo Mesquita Nunes, Passos Coelho, traça rasgados elogios a Marcelo, Deus lhe perdoe… e não tem uma palavra simpática para Jerónimo, ou Catarina, ou as manas Mortágua, decerto porque Maria João não se lembrou de o levar para aí.

 

Gostar de toda a gente não é muito diferente de não gostar de ninguém. E mesmo que se atribua esta generosidade ao catolicismo que serve de norte espiritual a Xavier, a que junta um feitio amável, resta que não é possível, se se tiver um módico de lucidez sobre o estado do país e os caminhos que trilha, deixar de verberar acerbamente a tropa fandanga que nos pastoreia e desde logo o par de colegas no programa: Pacheco Pereira, uma esponja de más leituras progressistas que vai debitando como se fossem pérolas de sabedoria; e Jorge Coelho, o manhoso e simpático aguadeiro de serviço do PS, que desmente a alegação do entrevistado da independência dos três em relação aos respectivos partidos. A urbanidade do trato e os laços de amizade resistiriam a um exercício de rigor? Duvida-se.

 

Portugal, hoje, mostra sinais de esgotamento: O Estado está mais obeso do que nunca, o controlo do défice (fruto da dura lição que a troica deu, e que o PS, benza-o Deus, interiorizou) foi conseguido, além de evidente martelanço, à custa do aumento de impostos,  a somar ao brutal de Vítor Gaspar, e de uma retoma de mais que duvidosa sustentabilidade. O país apenas cresce por arrasto, e menos do que os outros. Isto está preso por arames, dizia há tempos Daniel Bessa, com brutal sinceridade.

 

E todavia no único momento da entrevista em que Lobo Xavier disse alguma coisa de substantivo sobre a situação política exprimiu-se assim: “Acho até que se a direita, as direitas, não se comprometem com a redução da desigualdade não têm futuro”.

 

É extraordinário. Há mais de quatro décadas que todos os partidos prometem a redução das desigualdades, apenas diferindo no modo de a alcançar, pelo que se estranha que os denodados esforços empreendidos não tenham ainda sido suficientes. E em nome deste meritório objectivo se destruíram os grandes grupos económicos que existiam antes dos Cravos, cuja reconstituição apenas se fez, e parcialmente, com endividamento e com o nascimento de empórios de mercearia; e se aumentaram os impostos sobre o rendimento de forma demencial. Em consequência do que, associado à expansão imprudente do Estado assistencialista e patrão, se alienaram ao exterior sectores monopolistas da economia e se criaram condições para a banca ser quase toda estrangeira, enquanto gente profunda diz, melancolicamente, que em Portugal há falta de capital. Pois há, mas sobra igualdade.

 

Estaria a falar da igualdade dos cidadãos perante a lei, aquela que a Direita consistente defende, hoje comprometida mais do que nunca com os preços absurdos no acesso à Justiça? Ou dos poderes inquisitoriais da Autoridade Tributária, que reduzem a pó os direitos de cidadania àqueles cidadãos que têm a desdita de ser apanhados pela máquina impiedosa e acéfala do Estado predador? Não, estava a falar de igualdade no sentido que a esquerda dá à palavra, isto é, a pilhagem dos ricos para ficarmos todos remediados na teoria, e pobres na prática.

 

A Direita que levanta bandeiras de esquerda, sob pretexto de que vai à missa e tem bom coração, essa é que não tem futuro. Porque o eleitor hesitante prefere, e bem, os originais às cópias hipócritas.

 

Não sei quem inventou, para dar o pendão retroactivo para o 25 de Abril, o mote dos três dês. Não vou falar aqui da democracia (que acho, ao contrário de muito reformador social que anda por aí, um relativo sucesso), nem da descolonização, que é de todo o modo um processo encerrado. Mas de desenvolvimento estamos conversados: ainda há dias um estudo concluía que em breve estaremos em quinto lugar, em termos de rendimento por habitante,  a contar do fim, dentro da EU, tendo perdido seis lugares em apenas quase duas décadas. Apesar da chuva de 79.000 milhões da EU e de a dívida no mesmo período ter explodido.

 

É disto que se tem tratado, sequer como pano de fundo, na defunta Quadratura e se vai tratar na futura Circulatura (raio de nome), a partir de 7 de Fevereiro? Claro que não. Aquilo é malta porreira, trata de coisas porreiras, e dos sucessos do António, e dos deslizes do António, o ex-colega que utilizou o programa para sanear o concorrente Seguro, primeiro, e perder as eleições ganhando o governo depois, e dos asneiróis semanais do Poder, que criticam com tolerância porque a política é isto: um jogo de grupos de pessoas, do qual, com gosto, fazem parte.

 

A política não é isto, e por isso a Quadratura há muito tempo deixou de ser um programa de debate. Pode ser que dure mais um ano ou outros catorze anos. Mas está moribunda, como o regime.

publicado por José Meireles Graça às 21:53
link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 1 de Janeiro de 2019

Fim de ano e de semana

Este ano fui para fora cá dentro. E, para encher os dias, fui ver o tesouro da Sé, que é mais tesouro do que imaginava; o castelo de S. Jorge, cuja porta não franqueei porque havia uma gigantesca fila de turistas à espera do privilégio de entrar para poderem dizer que lá tinham estado; ao palácio nacional de Queluz, onde contemplei a decadência e sujidade que com esplendor lá se guardam; aos Jerónimos, que continham mais visitantes a tirar selfies, a atrapalhar a circulação e a consultar com empenho os telemóveis do que alguma vez, no passado, monges – um Cristo moderno bem podia expulsar aquele lúmpen moderno de compralhões no templo, ao menos com o expediente de os fazer pagar bilhete; ao palácio Fronteira, fechado “para férias”, mas cujo aspecto exterior não me deixou uma irreprimível vontade de o ver por dentro; e ao “palácio” de Monserrate, por duas vezes, a primeira para bater com o nariz na porta por o concelho de Sintra, aparentemente, ter mais problemas de circulação automóvel que a cidade de Nova Iorque, o que me fez chegar tarde. Os jardins merecem a visita que o “palácio” não merece: não é um palácio, para começar, é uma folly em ponto grande; a decoração, de inspiração mourisca, é um exemplo daquela mania romântica de recrear espaços de civilizações perdidas, góticas, árabes ou orientais, e haverá decerto textos contemporâneos (que infelizmente não conheço) a classificar o exercício de um industrial inglês com a mania das grandezas por aquilo que era – uma piroseira, como são quase sempre os pastiches. De resto, o senhor D. Luís deu ao homem o título de visconde, e fez muito bem, porque Cook, que não deve ter sido meigo a explorar os miseráveis nas suas fábricas inglesas, no auge da Revolução Industrial, veio aliviar a sorte dos outros miseráveis que por aquele tempo habitavam aquelas serranias.

 

O “palácio” está despido de quase tudo o que continha, porque tudo foi leiloado nos anos 40, salvo erro, e parece que quem o administra tem a intenção de recomprar algumas coisas. Faz bem, é claro, como é claro que falhará: aqui como em todos os outros lados, nota-se uma terrível falta de dinheiro.

 

Ora isto é extraordinário. Portugal é um país pobre de monumentos, apesar dos seus 900 anos de história, mas precisamente por isso deveria estimar os que tem. E aqui, como em Mafra, ou nos castelos, conventos e igrejas espalhados pela província, o que salta à vista é uma confrangedora pelintrice.

 

O país é pobre, não pode? Tretas: de passagem, vi no Terreiro do Paço um cone com ar de chupa-chupa gigante, que me disseram ser uma árvore de Natal, e o resto do espaço estava obstruído com palcos, decerto para uns piolhosos irem para lá ganir umas musiquetas. É o mesmo, à escala, nos mais de 300 concelhos do país: subsídios à cultura da chupice, do espectáculo, do berreiro, dos artistas e das clientelas. E em todas estas coisas circula dinheiro público, o mesmo dinheiro que nunca há para conservar o património.

 

Talvez faça sentido: afinal a gente que vi nos Jerónimos, sem o menor vestígio de respeito pelo lugar, que ainda é de culto, ou de atenção pela arquitectura, que impressiona, é a que vota nos Marcelos ou Medinas desta vida.

publicado por José Meireles Graça às 22:16
link do post | comentar
Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

Sentados no muro

Há hoje uma doença, que afecta comentadores, políticos e articulistas tidos como de direita, que consiste na mania de ficarem em cima do muro do centrismo. Nota-se em relação, por exemplo, às causas fracturantes, ao feminismo na versão MeToo, como a Trump, Bolsonaro e a certos políticos neonacionalistas da antiga Europa comunista.

 

O muro está muito sobrecarregado. E quem o ocupa está lá porque, julga, vê melhor para os dois lados. Mas deveria lembrar-se que do muro pode cair-se; e do chão não.

 

Este equilibrismo decorre do horror a ser considerado fascista, ou extremista, ou reaccionário. Ou seja, decorre da chantagem da esquerda, que há décadas detém o monopólio das classificações do opróbrio, das quais porém exclui a mais infamante de todas, que seria o ser tachado de comunista, se a história da doutrina e das suas realizações pretéritas e presentes fosse bem conhecida.

 

Mas há mais: todo o discurso de esquerda repousa na ideia da superioridade moral, vertida nos anseios pela igualdade (como se outra que não a perante a lei não desse necessariamente origem a violências, esbulhos e exacções), pela justiça social (interpretada como se toda a diferença material, conquistada ou herdada, fosse ilegítima), pela engenharia de costumes (como se toda a tradição devesse ceder o passo às crenças das franjas mais inovadoras da sociedade, portadoras do facho da modernidade) e pelo determinismo histórico (a história tem um sentido, e esse é o da superação do capitalismo, não para algo que ainda se não conheça, mas para fórmulas que se conhecem bem demais).

 

Isto é tudo evidente, para quem não tenha a cabeça feita pela propaganda sufocante do bem-pensismo. Não é tão evidente o peso das relações pessoais: à força de conviver e debater com comunistas e bloquistas, que enquanto pessoas não são melhores nem piores do que as com ideias decentes, acaba-se por achar que uns e outros são adversários como quaisquer outros. Não são: comunistas e bloquistas defendem, com graus diferentes de hipocrisia (esta decorre de se apresentarem sempre como querendo melhorar o capitalismo, que todavia querem destruir), modelos alternativos de sociedade. E nestes não cabem os que estejam dispostos a resistir, o que faz com que, objectivamente, comunistas e bloquistas sejam inimigos dos democratas, não adversários. Pessoalmente, conto com alguns espécimes de quem sou sinceramente amigo, mas sem ilusões: na minha sociedade eles têm lugar; na deles eu não teria.

 

A forma temporária de que hoje se reveste o progresso esquerdista é o reforço dos poderes do Estado e o aumento do esbulho fiscal. As duas tendências vão na mesma direcção: é preciso que a sobrevivência fora do Estado, e sobretudo contra ele (isto é, contra quem o representa) não seja possível; e é necessário que ninguém acumule recursos que lhe permitam investir ou que só o possa fazer se puder contar com a benevolência dos poderes públicos.

 

É por este conjunto de razões que as taxas de IRS, para rendimentos que nem sequer podem ser considerados altos senão por comparação com a modéstia generalizada, se aproximam de 50%; que a maior parte dos contribuintes nada paga a este título; que do remanescente qualquer consumo origina 23% de imposto; que certos impostos, como o IRS ou o IVA, são pagos ou adiantadamente ou sem nenhum facto tributário real que lhes subjaza; que para certos bens, todavia essenciais à actividade económica, como os combustíveis, o imposto anda pelos 60%; que existe uma gigantesca floresta de taxas sem qualquer relação com o serviço que teoricamente remuneram; que as multas para um extenso e crescente catálogo de infracções são demenciais; que se  falsifica a relação entre o cidadão e o Estado pelo expediente de fazer crer que são as empresas que pagam a maior parte da segurança social (não são, ficariam exactamente na mesma se essa responsabilidade fosse do trabalhador, com os salários aumentados em igual montante ao que resulta da taxa da responsabilidade do empregador); e que o sistema fiscal é uma absurda moxinifada só inteligível a especialistas, e às vezes nem a estes dada a instabilidade e diarreia legislativas, com a única constante de os impostos aumentarem sempre em valor e ocasionalmente diminuírem em relação ao PIB, até ao dia em que este se retrai por uma qualquer crise, caso em que a punção fiscal passa para um novo patamar.

 

É aqui, na evolução do papel do Estado, que entronca o enriquecimento ilícito (agora crismado de “injustificado”). Este é um velho cavalo de batalha de toda a esquerda e toda a direita envergonhada: quem é que ousará dar a impressão, por causa de esquisitices ligadas a conceitos jurídicos e civilizacionais que poucos entendem, de defender o enriquecimento “injustificado”?

 

Ninguém defende. E todavia, o problema não é, nem nunca foi, o de defender ilícitos, é o de saber a quem incumbe prová-los.

 

Ninguém tem dúvidas que se um indivíduo for acusado de um dos crimes da extensa lista do Código Penal, ou legislação avulsa, quem acusa tem de provar. Teoricamente, o acusado pode até fechar a matraca que nem por isso o crime se dá como automaticamente provado.

 

O Tribunal Constitucional acha que com o enriquecimento injustificado o problema não é diferente, em acórdão cuja leitura não recomendo, dada a extensão e a prolixidade pedante. Acha bem, a meu ver. Todavia, há quem assim não entenda e, ó surpresa, é um corifeu do comentariado de direita. E então, que diz João Miguel Tavares?

 

Começa por afirmar que “os senhores deputados estão tão interessados em reforçar a transparência como eu estou em arrancar os dentes do siso”, e isto porque “está prometido um novo código de conduta dos deputados, regras mais apertadas quanto à exclusividade de funções e a regulação do lobbying”, e esses preciosos diplomas não há maneira de saírem.

 

A Tavares, que opina sob o signo do simplismo, não ocorre que tais matérias não sejam fáceis, desde logo porque a exclusividade, se levada ao extremo, pode convir ao PCP, cujos deputados são funcionários do Partido, e cujos lugares estão na disponibilidade da direcção, mas se aplicada aos outros não fará mais do que estreitar o leque dos potenciais candidatos a deputados. Nem toda a gente estará interessada em suspender as suas carreiras para se dedicar ao trabalho parlamentar, a troco de uma remuneração que não é competitiva com o que ganham muitas pessoas capazes e bem sucedidas, e isto durante anos, para no final voltar ao ponto em que estava, como se o mundo e o mercado estivessem em suspenso, à espera do regresso.

 

De resto, o mesmo comentador já se terá por certo queixado da falta de ligação à vida real de muitos deputados e do carreirismo de outros, porque é o que toda a gente diz, com o cenho franzido de preocupação e o dedo acusador espetado, contando com aguerrido e indignado apoio nas redes sociais. A exclusividade melhora esses aspectos? Não, e pelo contrário reforçaria o stock de advogados, funcionários públicos, professores com vínculo e jotinhas.

 

Quanto à regulação do lobbying, ela não se aplica, que eu saiba, a deputados, que já estão impedidos de o praticar. A menos que o conceito abranja a defesa de certas empresas, actividades, organismos e regiões, caso em que eu temeria pelo futuro do queijo limiano e da CGTP.

 

O lobbying será regulado, sim. E a regulação será inteiramente inútil, na minha opinião, porque com as nossas tradições em matéria de cunhas, na versão soft, e de tráfico de influências, na hard, a única maneira de combater a corrupção é diminuir o peso do Estado regulador e empreendedor. Isso vai suceder com governos de esquerda? Não, absolutamente. E com governos de direita? Sim, um poucochinho.

 

Aqui chegamos ao prato de resistência, assim: “E, no entanto, poucas coisas são tão importantes quanto a criminalização do enriquecimento injustificado, reclamada por quase todos os sectores da Justiça, com a excepção (óbvia) da Ordem dos Advogados. É verdade que o Tribunal Constitucional chumbou as propostas anteriores devido à inversão do ónus da prova, já que o crime era (erradamente) aplicável a qualquer cidadão. Mas o Parlamento pode ultrapassar essa objecção se  centrar o crime na falta de veracidade das declarações de património e rendimento, obrigatórias para titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos”.

 

O chumbo do TC não ficou a dever-se à aplicabilidade da inversão do ónus a todos os cidadãos, mas sim ao facto de anular a presunção de inocência, que é um princípio estruturante do nosso direito penal. A excepção, “óbvia”, da Ordem dos Advogados, a Tavares não faz impressão, mas faz-me a mim. Porque são os advogados quem defende os cidadãos injustamente acusados, não as polícias, nem as magistraturas, nem a opinião pública, nem as redes sociais, nem os Tavares deste mundo.

 

Acresce que, com geral satisfação da parte invejosa, igualitarista e justicialista da sociedade, já existe essa inversão no domínio do Direito Fiscal. E saberá Tavares que ao abrigo dela se acusam empresários cujas vidas são destruídas enquanto os processos se arrastam em tribunal até à eternidade, que nem sempre se pode sequer aceder à Justiça porque para isso é necessário pagar ou apresentar garantias, que os funcionários interpretam abusivamente disposições legais para alargarem os seus poderes enquanto são premiados porque o abuso é elogiado e as acusações delirantes incentivadas?

 

Tavares não sabe. Eu sei. E sei também que provar o acusado que não fez isto e aquilo é com frequência ainda mais difícil do que a prova do acusador. E que a verdadeira razão porque o desastre da inversão do ónus da prova não chegou à opinião pública é que o empresário não quer, porque isso lhe diminui o crédito, que se saiba do que é acusado; os trabalhadores não sabem, porque a informação apenas lhes causaria ansiedade; os advogados não têm interesse em divulgar porque isso iria prejudicar o seu cliente, nem outra maneira de reagir que não seja o caminho deliberadamente eriçado de escolhos da impugnação ou recurso; os juristas mais cínicos porque a legislação abstrusa, obtusa e abusadora lhes aumenta a clientela; os católicos, que são mais ou menos quase toda a gente, porque acreditam que de toda a maneira é mais difícil entrar um rico no reino dos céus do que passar um camelo pelo buraco de uma agulha; e os comunistas e primos sortidos porque acreditam ou fingem acreditar, e disso convenceram toda a gente, que empresário quer dizer gatuno – salvo prova em contrário que o próprio tem de fazer. E todos, como é normal quando o Estado se transformou num monstro iníquo, porque acreditam que os problemas apenas acontecem aos outros – a eles não porque são virtuosos.

 

Fecha Tavares com um tropo grandiloquente: “Mas o Parlamento pode ultrapassar essa objecção se centrar o crime na falta de veracidade das declarações de património e rendimento, obrigatórias para titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos. As próprias Nações Unidas têm alertado para a necessidade de criminalizar o enriquecimento injustificado, e qualquer pessoa compreende que existe uma desproporção gigantesca entre a facilidade com que um político inocente comprova a licitude dos seus rendimentos ao Ministério Público e a dificuldade que o Ministério Público tem em comprovar a ilicitude dos rendimentos de um político corrupto”.

 

Ponhamos de lado a invocação disparatada das Nações Unidas, uma associação escrava das suas maiorias de Estados anti-democráticos, retrógrados e terceiro-mundistas, liderada nominalmente por um papa-açorda e coio de organizações enxeridas, corruptas e lunáticas. Quer Tavares que as diferenças entre as declarações de património e rendimentos no início e no fim dos mandatos, ou periodicamente, sejam fiscalizadas exaustivamente por um organismo especializado (por exemplo o Tribunal de Contas, desde que provido dos meios materiais e humanos) e que, nesse contexto, e para esse grupo delimitado de pessoas detentoras de imperium, possa exigir a inversão do ónus de prova quando haja manifesta evolução desproporcionada?

 

Nada a opor. Mas não é disso que Tavares, singelamente, está a falar. O que quer é, batendo no peito assumidamente de direita, poder pertencer orgulhosamente à parte dela dita civilizada, que é a que a esquerda tolera. Fazia melhor em dar uma vista de olhos ao que, já em 2009, dizia Francisco José Viegas, num texto hoje em parte desactualizado por entretanto a gente que está sentada em cima do muro a que me referia acima ter consentido no avanço aparentemente imparável do combate à evasão fiscal, e da justiça social, e da equidade, e de todos os outros bolos com que se enganam tolos.

publicado por José Meireles Graça às 17:26
link do post | comentar
Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018

Banco de estiramento IV

Exmo. Senhor Anónimo:

 

Notei a V/ carta de 23 de Outubro pºpº, recebida anteontem, sobre o assunto em epígrafe [Necessidade de actualização do Comprovativo de Identidade e Assinatura].

.

 

VV. Exªs têm o desplante de me notificar para comparecer num dos vossos balcões/lojas para o efeito de exibir o meu Cartão de Cidadão, que “se encontra expirado”. Ou seja, acham normal que vá perder tempo e dinheiro a um dos vossos estabelecimentos para o efeito de cumprir uma exigência meramente burocrática, ao abrigo de um diploma legal, a Lei 83/2017, cuja disposição pertinente não invocam (nem poderiam, tal disposição não existe).

 

Não se encontra o Cartão em apreço caducado, porque foi tempestivamente renovado. E do facto dei em devido tempo, porque me foi pedido, informação, esclarecendo que o número permanecia o mesmo. Acrescento agora que a minha assinatura continua igual, porque não fui entretanto vítima de qualquer acidente de índole vascular ou outra que me tivesse alterado a escrita, e que eu próprio guardo as feições com que tenho vivido desde a primeira e todas as várias vezes que perdi tempo com inutilidades no vosso balcão de Fafe.

 

Fui ler a lei que referem (em diagonal, que tem 191 artigos que só por si terão feito o ganha-pão de milhares de burocratas e parasitas sortidos), que se destina a combater o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo (o que bastava para considerar grotesca e até insultuosa a invocação de uma tal lei para me obrigar  a incomodar-me para exibir um documento a um funcionário cujo tempo decerto poderia ser destinado a actividades mais úteis), e apenas encontrei um artº, o 23º, que remotamente poderiam invocar, quando reza, na alínea d): “Existam dúvidas sobre a veracidade ou a adequação dos dados de identificação dos clientes previamente obtidos”.

 

Claro que VV. Exªs não têm dúvidas, nem razão para a as ter, apenas inventaram uma maneira cómoda para os vossos serviços, e incómoda para os clientes, de passarem a imagem, imagino que para a entidade de supervisão, de grande empenho no referido combate.

 

Mas como pudicamente solicitam que que me desloque a um vosso balcão, mas logo a seguir formulam ameaças, e portanto o que estão a fazer é exigir, informo o seguinte:

 

Estou disponível, em qualquer dia e hora, para receber um funcionário vosso, na minha residência ou no meu local de trabalho, para lhe exibir o meu Cartão de Cidadão actual, exactamente igual ao anterior que serviu para abertura da conta, salvo na data de validade, que é agora 25/09/2022.

 

Recebam VV. Exªs, como habitual, de cumprimentos, quanto baste.

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.

CC nº xxxxxxxx

Contribuinte nº xxxxxxxxx

Travessa xx xxxx xxxxx, nº xxx, xxxx-xxx Guimarães.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 19:26
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Falhei. Como é sina de quem faz algo...Não juntei ...
o cavaquistão está mais morto que os blogs
Fui ler os recentes e relembrar os passados public...
Esta febre de se ser politicamente incorrecto para...

Arquivos

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

donald trump

educação

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds