"O objetivo é reduzir a sinistralidade".
Então não é? A prova do amor a este nobre objectivo é que "o sector inspeciona uma média de 5,7 milhões de veículos anualmente e factura cerca de 170 milhões. O dirigente associativo diz que todos os centros fizeram reconfigurações de zonas específicas que estarão concluídas neste 1º semestre".
Um sector dinâmico, portanto. Mas nem tudo são rosas: há casos em que “temos dois centros no mesmo local e isso não é vantajoso para a actividade e vamos manifestar preocupação à tutela”, diz ainda Paulo Areal.
Realmente, Paulo mede, com louvável contenção, as palavras - que, se eu fosse proprietário de um desses locais onde teoricamente se verificam as condições de segurança dos veículos, veria com indignação a circunstância de ter um concorrente por perto, por a dignidade do estabelecimento se ver atingida: quem leva a sério um serviço obrigatório num estabelecimento sem filas de espera, sem marcações, e que o cidadão pode trocar por outro se achar que lá é mais bem servido?
O número elevado de aberturas previstas para novos centros, embora as margens do sector tenham descido substancialmente, vai criar "instabilidade", acrescenta o presidente da ANCIA (Associação Nacional de Centros de Inspeção Automóvel), que nos interpela, na fotografia que ilustra o artigo, com olhos argutos e inegável distinção. E, também aqui, tem razão - uma manifestação dos trabalhadores, armados de chaves inglesas, contra o encerramento de um Centro, é uma perspectiva aterradora, que deve ser evitada aumentando as margens do negócio. Previdente, adianta soluções: "Todos os motociclos acima dos 50 cm3 deveriam ser sujeitos a inspeção periódica. O objetivo é reduzir a sinistralidade".
Está coberto de razão. Porque se o legislador decidiu que "os motociclos acima dos 250 cm3 vão passar a ser sujeitos a inspeção obrigatória, tal com os ligeiros e os pesados na atualidade" não se percebe por que razão os motociclos com cubicagem inferior ficarão isentos - um veículo de duas rodas circulando a 20, ou 40, ou 80 km à hora é igualmente perigoso qualquer que seja a cilindrada.
Daí que Paulo, não lhe tendo escapado o escândalo dos reboques abaixo dos 3500 Kg e ainda os triciclos e quadriciclos acima dos 250 cm3, os tratores agrícolas e as máquinas industriais, tudo equipamentos que continuam isentos, deixou passar as bicicletas, que se estão tornando uma verdadeira praga e podem, no caso de os proprietários não conservarem os travões e os pneus nas adequadas condições, causar grandes danos à segurança rodoviária.
O caso das máquinas industriais é particularmente gritante: se não estiverem em boas condições podem não produzir os resultados que delas se esperam, facto do qual os responsáveis dos estaleiros não se apercebem, ao contrário dos inspectores da ANCIA, com a devida formação em retroescavadoras e martelos vibratórios.
Claro que, de longe em longe, algum estudo independente demonstra que não há qualquer garantia de que defeitos graves sejam detectados nas inspecções; que o estado de conservação dos veículos tem muito mais a ver com condições económicas dos proprietários do que com inspecções; e que não há nenhuma demonstração de que haja um ganho significativo para a segurança rodoviária em inspecções que têm uma componente marcadamente fiscal e obedecem a normas por vezes arbitrárias, quando não simplesmente cretinas.
Mas lá que Paulo faz bem o seu papel, que é defender o interesse dos seus associados a expensas dos cidadãos, embrulhando esse interesse na retórica da defesa de bens públicos - faz. E que o governo de Costa é o interlocutor ideal para este género de golpada - é.
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